Viram o primeiro discurso politicamente correto do <br />Rock in Rio 2015?

Viram o primeiro discurso politicamente correto do
Rock in Rio 2015?

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Já passamos do quinta dia do Rock in Rock 2015 e o primeiro discurso politicamente correto da edição, para minha surpresa e alegria, passou despercebido da maioria.

 

Comento-o aqui, portanto, não para dar-lhe destaque imerecido, mas para mostrar porque é um discurso daninho, apesar de provavelmente bem intencionado.

 

No show da banda paulista IRA!, capitaneado pelos simpáticos Nasi e Edgard Scandurra, no primeiro dia de festival, dois convidados marcaram presença. Escalada para tocar no Palco Sunset, a banda seguiu a proposta do palco de promover encontros, muitas vezes inusitados, e recebeu o rapper Rappin’ Hood e o veterano do soul brasileiro Toni Tornado.

 

Nasi, também conhecido no meio futebolístico do rock (Rock & Gol) como “Wolverine Valadão”, conduziu o show muito bem e foi cavalheiro ao ceder seu espaço no palco a ambos, cada a sua hora — em determinado momento, engrossou a fileira de backing vocals de Tornado.

 

Tornado, por sua vez, veterano que é, quando teve seu momento dominou o palco e, a certa hora, já percebíamos a migração do clima do show de mais intimista, quando só o IRA no palco, para uma verdadeira festa. E foi nesse clima de festa que, quando cantava a famosíssima “BR-3″, Tornado puxou seu filho do backing vocal para o vocal principal.

 

Na linha de frente, Lincoln Tornado fez de tudo, menos cantar. Arrancou urras da galera com alguns passos de dança – até espacate rolou – e incitou a todos que gritassem com ele, de punhos cerrados para o alto, o coro de “igualdade racial”. Estava configurado o primeiro discurso politicamente correto da edição.

 

Igualdade? Hum, bonito… Somos iguais, certo? Bom, sem entrar no mérito de ser necessário ou não tal grito, critico-o pela chatice de repetir-se toda vez que um negro acredita ter vencido alguma barreira existente apenas por conta de sua cor e precisa agora trabalhar para que outros o façam também.

 

No palco, ao lado de Lincoln, Tornado Pai e Rappin’ Hood, todos negões, haviam ainda outros afro-brasileiros, como gostam de falar. Não contei, mas pela banda de apoio, talvez tivéssemos ali mais negros ou quase isso do que brancos no palco. Havia a necessidade de pedir igualdade? Já não somos, ora, porra, iguais?

 

O espaço era do Lincoln, essa análise deixo para ele, que tem todo o direito de ser chato e falar o mesmo que todos falam, o meu problema é com os punhos cerrados para o alto. Como se sabe, tal gesto foi o símbolo dos Panteras Negras (oficialmente: Partido dos Panteras Negras, uma organização extraparlamentar de cunho socialista), grupo ativista que promovia sua agenda de, olha só, “igualdade racial”, através de atos terroristas.

 

O grupo se estabeleceu nos EUA, mas depois do emblemático episódio na Olimpíadas da Cidade do México, em 1968, quando dois atletas fizeram o gesto característico do grupo no pódio dos 200m rasos, em forma de protesto, ganharam fama internacional. Os atletas, Tommie Smith e John Carlos, foram “apenas” banidos dos Jogos Olímpicos por misturarem esporte (que deveria ser isento) com política.

 

Antes de Lincoln, Tommie Smith e John Carlos.

Antes de Lincoln, Tommie Smith e John Carlos.

 

Será que música também não deveria ser isenta? Não sei, acredito que não. O que sei é que clamar por igualdade usando o característico gesto de um grupo terrorista não é exatamente a melhor forma de fazê-lo, por mais “fofo” que seja o seu clamor.

 

E, antes que deem chiliques e distorçam fatos históricos, é bom afirmar: os Panteras Negras não foram criticados pela pauta que defendiam (vá lá, igualdade racial), mas pela forma violenta e marginal que escolheram para conquista-la. Eram uma organização paramilitar, afinal, como as FARCs e o MST (certo?).

 

Lincoln Tornado, que assim como o pai irá seguir carreira de ator, além da carreira musical, provavelmente mal sabe do que estamos falando aqui e não entende porque incitar o gesto que ele incitou é um má atitude. Para muita gente tapada, principalmente da classe artística, como Marcelo D2, que sempre faz questão de mandar um “salve” para os panteras negras, tais ativistas eram vítimas do sistema que, como tal, estavam em seu direito de revide fosse como fosse. Uma narrativa que certamente se levada a cabo para outras esferas da sociedade, considerados outros problemas inerentes a existência humana, gerará o caos.

 

Assim, não veem mal em rememorar o gestual dos caras, mas há.

 

Olha o garotão aí, fazendo pose de vítima da sociedade... Não, pera.

Olha o garotão aí, fazendo pose de vítima da sociedade… Não, pera.

 

É um pena que nem todos os canalhas com envolvimento político desastrado, que geraram vítimas, tenham entrado para a História tão defenestrados quanto Hitler. Dessa forma, cabe aos chatos de plantão (opa!) fazer o trabalho sujo de lembrar o quão danosos foram.

 

Nota de rodapé: E só para comprovar que é possível passar a mensagem que Lincoln tentou passar, sem ser piegas ou se comprometer politicamente de forma não agradável, a frase dita por Toni Tornado na sequência, quando reassumiu os vocais, na mesmo vibe de “igualdade” que o filho levantou, foi muito mais elegante.

 

De mãos dadas com Nasi, Toni falou ao público: “Sob a luz do Sol, todo mundo tem a sombra da mesma cor.”

Fernando Henriques
Idealizador e editor desta revista, Fernando Henriques é um consumista informacional. Formado bacharel em Ciências da Computação, encontra na Comunicação um elo natural. Viciado em séries, filmes, rock, MMA, política e desafios.

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