Uma boa partida de futebol

Uma boa partida de futebol

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Uma boa partida de futebol tem em média 400 minutos. E se você pensa diferente disso, com a devida licença, não haverá qualquer identificação entre Vossa Senhoria com as ideias que seguem, pois não é um Torcedor, no máximo um simpatizante. Sugiro que se levante da mesa e vá ao banheiro enquanto nós, os torcedores de verdade, terminamos a resenha.

 

Antes e depois da peleja, existem momentos tão importantes quanto a rede que balançou – ou não –; a caneta desmoralizante; o pênalti irregular ou aquele balaço na trave aos 47 e meio do segundo tempo.

 

Torcedor amigo – e repito: este texto é exclusivamente seu –, descansa um pouco teus olhos cansados desta tela gélida e lembre-se da sua primeira vez num estádio de futebol. Aposto contigo um ou duas geladas que a primeira cena não foi o homem de preto apitando o início da partida… Duvido (!).

 

Tu lembrou de ter subido no ônibus errado; da abordagem sorrateira do cambista; da camisa do camelô que pediu pro seu pai comprar; do bandeirão descendo; ou, do diabo que for, mas não foi do início da partida, daquela partida você lembra pouca coisa, mas da cara do seu amigo rival no dia seguinte é inesquecível!

 

Depois, meu amigo, depois de toda essa saga é que começa o jogo pelo qual você pagou ingresso. Não há nada que me faça pensar diferente disso: almoçou, saiu de casa, já ta valendo. O que é mais importante? O 4-3-3 treinado o mês inteiro pelo professor ou sua meia da sorte que sempre vai contigo nos clássicos?

 

Mesmo peso, camarada! Futebol é rito, tradição!

 

Quantas vezes teu time não perdeu por que você resolveu na última hora trocar de cueca? Ou sentar em outro setor do estádio?

 

Dito isto, entra no estádio. Procura aquele lugar perto da festa, porém, nem tão perto que a bandeiras te ceguem ao combate. Do teu lado um sujeito com pinta de megaempresário, e deve ser mesmo:

 

– Dá licença aqui, irmão.

– Opa, tamo junto.

 
Segue a resenha:
 

- Esse lateral não acerta uma bola, hein…!?

– Mas ele defende bem… – minimiza o bacana.

 

– Expulsa, porra!!!

– Se for assim, vai expulsar o time todo, não é pra tanto.

 

– Esse zagueiro deles é marrento. Tem que cuspir na cara dele!

– Ahh se eu jogo contra ele, ia eu e ele expulso todo jogo!

 

Tudo isso é prefácio para o que vem a seguir. O gol. O gol, amigo, é mesmo o grande momento do futebol. Que por sua vez é das coisas sem importância a mais importante. Por consequência, uma das maravilhas da humanidade.

 

No exato segundo após aquela esfera de couro e ar cruzar a linha de cal e chacoalhar o barbante, o diretor da multinacional vai abraçar o peão que vira asfalto nas obras da Avenida Brasil. É talvez o momento mais fraternal do mundo, preto com branco, rico com pobre, chefe com empregado. Essa é a magia do estádio de futebol, você paga – caro – pra ter a oportunidade de abraçar um desconhecido e depois sair cantando junto com ele o grito de guerra da sua tribo. Tudo se mistura naquele grande mar de gente pulando e sorrindo, chorando e gritando. Como se ali, por um descuido divino, fossem todos o mesmo ser.

 

O ápice do futebol: O Gol!


 

Desta forma, te convido a refletir se não é uma grande estupidez querer elitizar/arenizar nossos estádios.

 

Botando preto no branco: quem vai pra jogo é o pobre. O rico que vai é por que não se importa em ombrear com pobre na arquibancada. Já vi arquibaldos e geraldinos, nunca ouvi falar de caderinos ou camaronildos. Quem ocupa camarotes VIP ou setores Premium são os simpatizantes que citei no início. Não passam de aventureiros, que se satisfazem com uma foto no Instagram, mesmo sem saber o que é um impedimento. É aquele que vai ao estádio e não sai rouco de tanto gritar.

 

Exemplo disso são as cadeiras brancas do Maracanã que não enchem nem nas finais do estadual. Ou ainda as cadeiras cativas que nunca viram a bunda dos seus donos cativos, impedindo, inclusive, novos recordes de público.

 

Nesta luta contra a modernização, o futebol resiste bravamente! Arquibanca é de cimento, feita pra ficar em pé. Quem assiste jogo sentado é europeu.

 

Quando o jogo acaba aquela massa – de torcedores de verdade – se dispersa. Um entra no carro novo e vai pra seu apartamento no Recreio. Outro espera o 393 lotado e vai em pé, direção Vila Aliança. Mas com uma certeza: quarta-feira é dia de boleira, e aí, amigo, é tudo de novo. Segue o jogo!

Kadu Bastos
Carioca, vascaíno incondicional, 25 anos, nascido em Duque de Caxias - RJ. Simpatiza com assuntos que envolvam segurança pública, direito criminal e psicologia forense.

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