Trilogia Homem-Aranha

Trilogia Homem-Aranha

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Com a chegada do prematuro (e desnecessário) reboot do Homem-Aranha, é hora de lembrarmos da trilogia que ajudou ainda mais a popularizar o Cabeça de Teia entre as pessoas. A transformação do Homem-Aranha em um grande personagem também do cinema foi um processo complicadíssimo, que levou anos para chegar a uma decisão. Disputado a tapas por várias empresas e diretores, o direito para fazer o filme, que já rolava desde os anos 80, foi parar em brigas judiciais, onde até James Cameron (Avatar) fez tudo o que podia para conseguir os direitos de filmagens (diga-se de passagem, ainda bem que não conseguiu, pois Cameron tinha um monte de ideias imbecis para sua versão).


Correndo o risco de ser engavetado pela milésima vez, acabou salvo pelo sucesso de X-Men, que despertou o interesse pelo potencial do herói e o martelo foi batido, ficando os direitos do filme com a Sony e a realização a cargo de Sam Raimi (da trilogia Uma Noite Alucinante). Realmente há males que vem para bem, e toda espera acabou levando o filme para um bom caminho, aproveitando a evolução dos efeitos especiais e um maior respeito aos quadrinhos; e de quebra faturando milhares de dólares.


Vamos às críticas:


Homem-Aranha


(Spider-Man, 2002)


Nunca esqueço a emoção da saída do cinema após a sessão de Homem-Aranha. Ver materializado de boa maneira um personagem que você curte tanto, após anos de leitura, é algo que não tem preço. Tanta espera e confusão envolvendo a realização do filme valeu a pena. O grande acerto de Homem-Aranha foi cair nas mãos de um diretor que realmente combinava com o tipo de filme. Seu estilo alucinado e seus famoso ângulos de câmera puderam ser muito bem aproveitados com os “passeios” acrobáticos do herói em meio aos prédio de Nova Iorque.


O roteiro é eficiente e equilibra com destreza o fantástico e o convincente com uma incrível habilidade para satisfazer as diversas faixas de idade, sem menosprezar nenhuma delas. Obviamente, o filme se dedica a contar a origem do herói. Peter parker (Tobey Maguire, eficiente) é um típico estudante cujos pais morreram e por isso vive com seu tio Ben (Cliff Robertson) e sua tia May (Rosemary Harris). Em uma demonstração de ciências, Peter é picado por uma aranha geneticamente modificada e sofre uma alteração, passando a ter poderes similares ao do animal.


Tobey Maguire incorpora bem o perfil de Peter Paker.

Tobey Maguire incorpora bem o perfil de Peter Paker.


De início, Peter apenas pensa em usar seus poderes em benefício próprio, e quem sabe conquistar sua paixão Mary jane (Kirsten Dunst), mas após seu tio ser morto por um ladrão ao qual ele deixou escapar por achar que não era sua obrigação detê-lo, ele adquire um senso de responsabilidade e passa a ajudar as pessoas. Paralelamente, o empresário psicótico Norman Orborn (Willem Dafoe) enlouquece após uso de um gás experimental e torna-se o vilão Duende Verde.


Mesmo com algumas alterações para soar mais convincente (teias orgânicas, aranha geneticamente modificada e não mais por radiação), Raimi respeita toda a tradição do personagem, em especial o que o torna tão carismático, que é o fato de ser extremamente “humano”. Peter é tímido, sem grana, com desejos normais de qualquer adolescente e não ganha nada bancando o herói. Nem sequer é perfeito, e por isso mesmo é tão cativante. Usando (o que todos os filmes de heróis deveriam fazer) a base de Superman de 1978 como modelo, o filme não tem pressa em desenvolver seus personagens, todos com motivações e humanidades claras.


As cenas de ação são ótimas, mas Peter Parker nunca é esquecido, aliás, quem lê os quadrinhos sabe que ele é mais importante que sua versão heróica. Raimi poderia fazer um filme com uma cena de ação atrás da outra, mas prefere intercalar com os dramas pessoais dos personagens, e acerta na mosca, pois essa é uma das características que tornam o Homem-Aranha tão fascinante e identificável. Assim como o bom humor das histórias, como nas cenas em que Parker ainda está “enrolado” tentando aprender a usar seus poderes, ou nas hilárias cenas com seu chefe J.J. Jameson (J.K. Simmons, idêntico aos quadrinhos de uma forma impressionante).


J.J. Jameson no filme e na HQ. Parabéns J.K. Simmons!

J.J. Jameson no filme e na HQ. Parabéns J.K. Simmons!


O resultado é uma montanha-russa de adrenalina e emoção. Fãs mais radicais sempre irão reclamar de algumas alterações (como se fosse fácil condensar anos de histórias em um filme), mas toda a essência do personagem está lá, e isso é uma prova de respeito ao fã. Claro que há falhas, como o estranho uniforme do Duende Verde (embora tenha mais lógica no filme) e alguns escorregões dos efeitos especiais, mas é pouco para atrapalhar a magia de um filme que une humor, ação e romance de forma tão perfeita.


Homem-Aranha 2


(Spider-Man 2, 2004)


Uma grande surpresa para os fãs: Sam Raimi faz um filme ainda melhor que o anterior, um exemplo do que é fazer uma continuação realmente de qualidade, onde as pequenas falhas do anterior são corrigidas (os efeitos estão incríveis) e suas qualidades ampliadas, sem perder a inteligência ou soar gratuitas.


Dr. Octupus é o vilão da vez.

Dr. Octupus é o vilão da vez.


Estando mais a vontade, e com um roteiro ainda melhor estruturado, somos apresentados ao vilão da vez: o Dr. Octopus (defendido com atuação elegante de Alfred Molina), cientista que após acidente fica com braços mecânicos preso ao corpo. O filme acerta em só utilizar apenas um vilão, o que permite espaço para um bom desenvolvimento. Para piorar, Peter Parker nunca esteve tão azarado. Seu amigo (James Franco) culpa obcecadamente o Homem-Aranha por (na visão dele) ter matado seu pai (que era o Duende Verde), Mary Jane é um sonho cada vez mais distante, sua tia vem estranhando seu comportamento, suas notas na faculdade vão mal, perde seu emprego e sua “vida secreta” só lhes traz mais problemas. Tanto estresse faz seus poderes “adormecerem”, e Parker resolve desistir de ser herói e tenta recuperar sua vida, coisa que não será tão fácil com o surgimento de Dr. Octopus.


É uma delícia quando sentimos aquele clima dos quadrinhos que tanto gostamos sendo passado nas telas. É tanta coisa boa que qualquer alteração discutível (como a personalidade do Octopus, diferente dos quadrinhos) é relevada. Aqui podemos ver um Peter Parker super azarado, onde as muitas situações dramáticas se misturam com cenas muito bem humoradas e divertidas (destaque para a sequência inteligente utilizando a música Raindrops Keep Falling on My Head). Não faltam também citações a alguns itens clássicos dos quadrinhos e até referência a uma das famosas capas da revista. A diversão atinge um nível mais alto e o filme entrega ao menos uma sequência para entrar nos anais dos filmes de ação, que é a épica batalha entre Homem-Aranha e Octopus em cima de um trem em movimento. Homem-Aranha 2 é um espetáculo!


A sequência do trem é a melhor entre os três filmes. Inesquecível!

A sequência do trem é a melhor entre os três filmes. Inesquecível!


Homem-Aranha 3


(Spider-Man 3, 2007)


Foi bom enquanto durou: Homem-Aranha 3 apresenta uma considerável queda em relação aos anteriores, tornando-se uma decepção aos que esperavam ver mais um grande filme. São mais erros que acertos, principalmente por conta do roteiro, que cai nas armadilhas que os primeiros filmes souberam evitar. Talvez por ser um dos filmes mais caros já feitos (o orçamento passou dos 250 milhões), os produtores acharam que deveriam se meter mais na realização da obra e isso ajudou a aumentar a confusão que ficou o resultado final.


Uma das coisas que destruíram o filme foi o excesso de informações e personagens. Só para se ter uma ideia, o filme conta com três vilões e mais outros personagens novos, que só puderam ser reunidos num mesmo roteiro através de artifícios baratos, como inúmeras coincidências forçadas ou improváveis. Por alto, a trama mostra um Peter Parker “de bem com a vida”, se relacionando com Mary Jane e agora tendo sucesso com o povo. O excesso de autoconfiança o torna arrogante, e piora quando ele encontra um “uniforme alienígena” que se adapta ao seu corpo e o faz curtir o “lado negro da força” (não resisti). Para piorar, surge Gwen Stacy para rivalizar com Mary Jane e um novo vilão, o Homem-Areia, cujo nome já especifica bem seus poderes. Ah, temos também o filho de Norman Osborn, que finalmente virou super-vilão e quer acertar as contas com o aracnídeo. Ufa!


Os melhores momentos do filme são com o Homem-Areia em cena.

Os melhores momentos do filme são com o Homem-Areia em cena.


De cara fica claro que seria difícil organizar isso tudo sem virar uma bagunça. Verdade seja dita, Raimi ainda faz algum milagre em deixar tudo coerente, mas claro que não consegue evitar que tanta coisa boa fique mal aproveitada por falta de espaço. Gwen Stacy se mostra inútil, enquanto o Homem-Areia (Thomas Haden Church) se mostra com uma história e personalidade bem interessante, mas que não pode ser desenvolvida direito por causa dos outros personagens (ainda que sua história tenha sido estupidamente ligada a origem do herói). Já o vilão Venom foi inserido no filme apenas por pressão dos produtores, e Raimi nunca escondeu que não gosta do personagem e que não desejava utilizá-lo. Seu desprezo com o vilão fica evidente, ao deixá-lo de lado a maior parte do tempo e o mantendo sub-aproveitado, o que irritou muitos fãs dos quadrinhos. Só a raiva pelo personagem para explicar a cena infame e quase de auto sabotagem em que o Homem-Aranha, influenciado pelo uniforme negro, vira um emo revoltado e realiza uma dancinha constrangedora. Uma cena indefensável. Até mesmo as esperadas cenas finais, como o destino de Harry Osborn, pecam pela pieguice exagerada.


Os efeitos especiais realmente são ótimos, e há algumas boas cenas (principalmente as envolvendo o Homem-Areia), mas é pouca coisa aproveitável num filme cansativo e que desperdiça tramas que deveriam ser melhor exploradas em outras continuações. Uma pena.

Ricardo Martins
Ricardo da Silva Martins é formado em Biologia, mas desde sempre foi um apaixonado por filmes. Orgulhoso defensor da existência de filmes bons (e ruins) em qualquer gênero e país, passando por diversos estilos, de Spielberg à Buñuel e do lixo ao luxo sem preconceitos. Fã também de rock anos 80, livros e quadrinhos, até arranha uma guitarra nas horas vagas.

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  • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

    Fui lendo o seu artigo e relembrando os filmes da trilogia. Engraçado que na época não achei lá essas coisas, mas hoje, lendo sobre eles e analisando com cuidado, foram sim boas adaptações. A caracterização do J.J. Jameson é realmente incrível.