Torcedores uma ova; chatos de galocha, isso sim!

Torcedores uma ova; chatos de galocha, isso sim!

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O futebol no Brasil não anda mal das pernas somente dentro de campo, temos que ser honestos e assumir: o verbo que os ditos torcedores apaixonados melhor sabem conjugar é “brigar”. Na impossibilidade de amar os feitos dos seus times, cada ano mais raros, optam por amar o malfeito dos outros.

 

Aquilo que se entende por torcedor, hoje, está mais para brigador. A grande maioria virtualmente falando, mas há também a turma das vias de fato. Foquemos no grupo maior: Brigam uns com os outros em defesa de seus times, como se estivessem numa jihad da bola. Aqueles que tripudiam se embasam pelo momento um tico de nada melhor, aqueles que se defendem, quando em má fase, evocam o passado. Natural, mas chato de dar dó. São atitudes vãs e pueris, repetidas e já automatizadas em cada ser. Quantas vezes vemos torcedores rivais falarem de futebol em alto nível, sem a mesmice de quem está ou é melhor? Assistem futebol, mas não falam de futebol. Falam de resultados apenas.

 

E no fim, com suas posturas acríticas para com seus clubes, justificadas pelo fato de estarem em guerra e não poderem dar mole ao adversário, acabam todos defendendo boquirrotos dirigentes sem querer. Com isso, não reparam na grande máxima que os cerca.

 

A má fase escolhe um clube a cada ano, as vezes dois do mesmo estado, e é inevitável pois o problema de gestão é geral – temos poucas exceções no país. Entra um novo ano e a roda gira, transformando o escarnecedor em escarnecido. No futebol, é o escarnio que não poupa ninguém. E o ponto é sempre o mesmo: rebaixamento. Poderiam criticar má gestão também, uma contratação mal feita, esquemas táticos arcaicos, mas não, segurar a tecla do rebaixamento como um ogro é mais legal.

 

Poucos são os clubes grandes que não viveram momentos de degola na era dos pontos corridos do Brasileirão. E menor ainda é o grupo dos que ainda não caíram uma vez sequer. O Flamengo pertence, ainda, a este grupo. Ao lado de Cruzeiro, Internacional, São Paulo e Santos. Só que todos os seus rivais regionais já frequentaram o outro piso, dois deles mais de uma vez. Com isso, a torcida para que mude de grupo é grande. Ótimo. O problema é como essa torcida se dá, e não digo isto por ser o Flamengo o alvo, sempre ironizado pelos rivais como querido da mídia e afins, mas pelo fato de revelar a puerilidade que tomou conta do futebol no país. É fácil notar que o haterismo para com rivais é externado de forma até mais efusiva do que o amor para com seu time. Na internet, o show é garantido.

 

Torcedores que compõem este perfil hater apequenam o futebol como esporte. E é impressionante a pequenez com que se trata futebol no dito país do futebol. Tudo que é falado circunda as rivalidades regionais, não se pode debater um problema, ou um time e seu momento, sem que diversos assuntos “centenários” sejam invocados. O Flamengo, lanterna do campeonato brasileiro, é a bola da vez.

 

Zoação saudável.

Zoação saudável.

 

O Flamengo está mal, falemos disso. Mas não precisamos, em todo papo a respeito, citar Vasco, Fluminense e Botafogo, em comparativos infinitos e desproporcionais. É uma chatice que só. Ficam todos a se bater loucamente a todo momento, pausando apenas para juntar-se para bater no Flamengo. Ora, se o Flamengo passa por um momento vergonhoso hoje, amanhã pode não mais passar. Mas e os bocós, seguirão com a mesma chatice de sempre? Poderiam ser rebaixados em nossas conversas.

 

Falei, outro dia, na rede social que todo mundo conhece, que o Flamengo não cairá. De pronto apareceu um bocó com argumentos bizarros para justificar a não queda (manipulação da Globo, etc.), demonstrando uma fé maior que a dos próprios torcedores, pois o Flamengo faz sua pior campanha em brasileiros. Fora que não viramos ainda o primeiro turno. O sujeito não me perguntou, por exemplo, porque levava tanta fé no clube da Gávea. Apenas regurgitou o que regurgita a cada ano, sem muita reflexão. Até a Máfia do Apito foi trazida ao papo, que enfadonhamente levei até onde pude. E assim como apareceu um na minha timeline, devem aparecer muitos nas suas. A busca por um papo melhor elaborado sobre assuntos concernentes ao futebol, em espaços abertos, quase sempre acaba frustrada. Mas uma briga sempre conseguimos.

 

Isto acontece por pura incapacidade dos muitos bocós espalhados pela internet, de falar algo melhor. Não leem, ou leem e não processam, não sei. Sei que assim, se repetindo e sempre brigando, perdem a oportunidade de debater uma situação em específico e aprender com ela e com a forma com que o clube lidará com ela. Para o bem ou para mal.

 

Convivo com a rivalidade em casa desde cedo, escolhi o time oposto ao do meu pai provavelmente por pura implicância. No total, tínhamos a maior rivalidade do Rio representada de forma igual — dois para cada lado –, e por isso mesmo debatíamos decentemente, sem deixar de zoar uns aos outros.

 

O que vejo hoje é puro ódio e pura raiva, muito de inveja também, e pouco apreço pelo futebol em si e pela diversão que a boa rivalidade gera. Ninguém mais consegue torcer pelo time brasileiro com boas chances na Libertadores, ainda que de outro estado. Ele pode faturar o título e ter um a mais que o seu time, o que certamente é o fim do mundo. Antigamente não, pensávamos que a rivalidade com os demais sul-americanos era mais importante e o lema “Fulano é o Brasil na Libertadores” imperava. Bons tempos.