The Walking Dead ensina um pouco sobre drama

The Walking Dead ensina um pouco sobre drama

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O último episódio de The Walking Dead, o décimo quarto da quarta temporada, foi realmente muito bom. E no melhor estilo da série, que ao contrário do que pensam, não tem seus melhores momentos nos episódios de ação.

 

É na lentidão que a série baseada nos quadrinhos de Robert Kirkman encontra seu apogeu, na “lentidão” que na verdade não é lenta, é dotada apenas do tempo exato e necessário para que uma boa cena de drama seja assimilada e apreciada pelo espectador.

 

Não o drama comum, dos filmes de drama, nem aquele mexicano replicado nas novelas brasileiras, com música de orquestra de fundo. Estes, via de regra, são barulhentos e “poluídos” demais. Beijos, mortes e reencontros, na maioria das obras, carecem de introdução adequada. Traídos pela falta de sutileza, roteiristas apressam o grande momento; traídos pelos roteiristas, diretores criam “clima” onde não precisavam criar. The Walking Dead, neste episódio de cenário campestre, vai na direção contrária: não apressa os eventos e não exagera os grandes momentos.

 

Reconhece, e prova, que o silêncio é a melhor trilha sonora para cenas onde já existe suficiente apelo, criado por um bom roteiro. Notaram como desde o cenário até os diálogos mais importantes, o caráter silencioso foi trabalhado? Local isolado, grande, conversas com poucas e curtas falas. Personagens distantes fisicamente uns dos outros. A economia de palavras e sons fizeram este grande episódio.

 

Notaram também como a personagem Mika foi trabalhada, de forma a fazer que nos importássemos com ela, antes da grande cena com sua irmã? Mais do que Lizzie, que se revelou louca, Mika precisou de alguns momentos importantes para causar empatia. Ela salvou Judith e a irmã, mostrou-se forte, porém humana. Por suas grandes atitudes, a partir dali iríamos nos importar com ela.

 

E cabe ao roteiro também o mérito de não ter entregue o grande “tchan” do episódio antes da hora. Por mais que a certeza de que algo grande aconteceria, talvez uma morte, estivesse presente desde a chamada no episódio anterior, não foi possível saber exatamente o que seria até realmente acontecer. Scott M. Gimple está de parabéns.

 

Estranha família.

Estranha família.

 

Para quem, mesmo três dias depois de lançado, ainda não assistiu o episódio, digo que corra para assistir agora. Antes de ser fisgado por algum spoiler que me esforço para não dar. O foco de “The Grove” é o grupo de Tyreese, Carol, Lizzie, Mika e Judith. Uma família, se não notou, formada forçosamente pelas ações do The Governor (enfim morto), que culminaram na queda da Prisão.

 

Tal evento marcou o mid season finale desta quarta temporada, em episódio aclamado por crítica e público. Desde o reinício da série, em meados de Fevereiro, “The Grove” é o primeiro episódio notável. Que nos fez lembrar aquele mítico início da série, também um tanto silencioso. Arrisco dizer que pela beleza das cenas, e consonância com algo que poderia ser real numa situação dessas, este episódio foi melhor do que o cheio de tiros “Too Far Gone”, que encerrou a fase anterior. Quando o assunto é drama, não é a quantidade de mortes que faz diferença.

 

O maior drama de uma situação distópica com zumbis é exatamente a loucura humana, aflorada. Levar isso até os menores de nós, com sutileza e lentidão – já devidamente explicada –, como fizeram, é exuberante. Que venham mais nesta linha, entre uma chacina de zumbis ou outra.

Fernando Henriques
Idealizador e editor desta revista, Fernando Henriques é um consumista informacional. Formado bacharel em Ciências da Computação, encontra na Comunicação um elo natural. Viciado em séries, filmes, rock, MMA, política e desafios.

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  • Wellington Cunha

    Eu comecei a assistir The Walking Dead ano passado (vi as 4 temporadas na sequência) e não pude deixar de fazer um paralelo com o “Ensaio Sobre a Cegueira”, do Saramago (e consequentemente “A Peste”, de Albert Camus, que deve ter sido a fonte onde o Saramago bebeu): a série não é sobre zumbis, mas sim sobre como as pessoas se comportam e se relacionam em momentos de privação e caos. Os zumbis são apenas o pano de fundo para este mote.

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      Exatamente, Wellington, por isso fiz questão de destacar esse episódio, que resgatou a verve da série.

  • VICTOR FORTUNATO

    preciso voltar a assistir to uns episodios atrasado rsrs.. Parabens pelo texto Fernando!

    Desde 2010 não consigo parar de ver. Realmente SÓ com cenas de ação, nao duraria nem 2 temporadas.

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      De ação estou cheio, quero ver bons dramas. Esse episódio me satisfez.