Sorte de favelado

Sorte de favelado

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Dois de Janeiro de 2015. Primeiro dia útil do ano. Aqui no Rio de Janeiro, terra localizada, provavelmente, logo abaixo do tal buraco na Camada de Ozônio – se é que ele existe -, o solo arde quase em chamas. Vivemos o que chamam de verão escaldante. Não passei por nenhum, mas os relógios marcam certamente mais de 40 graus. Dia ingrato para sair de casa.

 

Não à toa, poucos brasileiros foram trabalhar hoje. Não é um chute, é uma certeza. A maioria ou está em casa, ou está na praia – e certamente os que estão em casa não residem perto de praia alguma. Dos que foram ao trabalho, poucos residem no Rio de Janeiro e nenhum é funcionário público. Se precisar deles, rume para a Região dos Lagos (RJ) ou o que tiver parecido em seu estado. É o destino comum desse pessoal.

 

É que é sexta-feira. É que moramos no Brasil. O primeiro dia útil do ano caiu numa sexta-feira, logo numa sexta-feira. Há de se entender, quem iria trabalhar? Eu. E sorte minha. Por que sorte? Ora, para sobreviver no Rio de Janeiro, sem perder metade do líquido que tem no corpo todo dia, só um ar condicionado salva. No trabalho, além do trabalho, temos ar condicionado. É requisito da profissão. Uma sala cheia de computadores precisa de refrigeração adequada. É isso ou novas fontes de alimentação toda semana.

 

Em casa, você escolhe: Ou perde metade do líquido diariamente ou metade do salário, no fim do mês. Ar condicionado ligado 24 horas por dia não é para qualquer um, privilégio para apenas alguns afortunados. Quem reside em alguma das 1.071 favelas da cidade, no Verão escaldante de Janeiro, este Inferno na Terra, é um afortunado. Numa favela, todos sabem, pode faltar esgoto encanado, pode faltar reboco nas paredes internas e até comida, um dia ou outro, mas ar condicionado todo mundo tem! Tão certo como 80% das paredes externas não estarão emboçadas. Pra quê?!

 

É que moramos no Brasil. É que, numa favela, todo dia é sexta-feira. Se sofrem para chegar em casa, esgueirando-se por becos estreitíssimos, subindo escadarias eternas ou coisa pior – se a favela é no morro –, se veem seus dejetos recém expelidos cruzarem pela janela em vala a céu aberto, alegram-se por poderem dormir a noite toda embaixo do edredom, seja qual estação for. Não é pouca coisa. Graças a rica fauna felina estabelecida pelos postes das regiões favelizadas.

 

Afortunados são, portanto, os favelados. Agraciados pelas regalias concedidas pelas autoridades públicas que preferem economizar energia não fiscalizando milhões de gatunos e punindo, para compensar, outros milhões de cidadãos que arcam com custos maiores e suam a valer no Verão. Bom, pelo menos estes não veem seus dejetos nunca mais, depois de expelidos.

Fernando Henriques
Idealizador e editor desta revista, Fernando Henriques é um consumista informacional. Formado bacharel em Ciências da Computação, encontra na Comunicação um elo natural. Viciado em séries, filmes, rock, MMA, política e desafios.

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  • Daniel Tavares

    Show meu caro amigo falou tudo!

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      Apenas um pequeno comentário sobre uma realidade latente no RJ, mas que poucos gostam de lembrar. Fico feliz que tenha apreciado.

  • Honos Alit

    Cara, de uma ironia, fizeste um belo retrato!

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      Nem tão belo assim, mas obrigado de qualquer forma.