Sobre Star Wars, Mimimi e Deboísmo

Sobre Star Wars, Mimimi e Deboísmo

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Recentemente um amigo meu me disse que não curtiu muito Star Wars – O despertar da força. Não esperava ouvir isso de alguém que curte a saga, mas respeito. Gosto é uma coisa estranha mesmo. O que me deixou mais espantado foram os argumentos de que o filme é repetitivo, não traz nada novo e é uma imitação da trilogia original, quase um remake. Ele complementou dizendo que achou o filme, no todo, ‘fraco’.

 

Fiquei realmente surpreso, pois além de achar o filme incrível, acreditei que todos que o assistiram o acharam minimamente bom, sendo ou não fã da saga. E era o que parecia mesmo de acordo com a repercussão na internet. Todas as resenhas falavam bem, todas publicações em redes sociais faziam comentários positivos. Qual não foi minha surpresa, então, ao ler dias depois a seguinte manchete na página do Omelete no Facebook: Coisas que odiamos no Despertar da Força.

 

Já de cara fiquei indignado. ODIAMOS. Sério?! Além de você ter odiado algo naquele filme você ainda me inclui nesse grupo de odiadores? (Depois até reconsiderei a semântica da palavra ‘nós’, e admiti que não necessariamente o leitor está incluído, mas apenas os editores)
Na verdade, eu nem cheguei a abrir o link. Fiquei tão chocado com os comentários na postagem do Facebook que nem tive coragem de ver o que o pessoal do Omelete dizia. Observem o nível:

 

Não sou fã do diretor. Depois das derrapadas em LOST, que metade das coisas ficaram sem explicações, e a outra metade sem pé nem kbeça, (depois de vários anos acompanhando a série) não vejo nada de extraordinário nele (…)

 

Eu odiei cada minuto deste filme. Os personagens são rasos e quando não estão fazendo algo sem sentido parecem estar de volta ao filme dos anos 1970. Foi só mais um caça-níquel. Continuo defendendo que deixem as histórias antigas em paz. Star Wars é só a trilogia original mesmo.

 

Bom, é divertido e legal. Mas me irritou um pouco a falta de originalidade no roteiro, quase todas as situações do filme são copiosas: “Uma nova Estrela da Morte; um dróide com uma informação que o inimigo busca; um conflito entre pai e filho em cima de uma ponte”… por aí vai. O filme é legal, mas não é o melhor da saga, está muito longe disso, é legal, é divertido, porém pouco orinal.

 

Como assim ‘pouco orginal’?! A ideia é fazer uma homenagem, e além do mais, essa é uma grande marca da saga, as histórias se repetem, quase como uma obra do destino, algo do qual não se pode fugir. Chamar JJ Abrams de fraco por si só já falta de noção de cinema, mas usar Lost como argumento pra isso é uma burrice homérica! Lost é uma obra-prima, marca da genialidade do cara. Chega a ser heresia criticar o cara. Cheguei a comentar e convocar alguns amigos pra sentir a mesma coisa. Sabe quando você tem uma emoção muito forte, seja ela boa ou ruim, e precisa compartilhar com alguém? Pois bem.

 

Entretanto, mais tarde, num grupo de whatsapp entre amigos nerds, uma amiga veio com o seguinte discurso: “Gente, vamos lembrar de respeitar a opinião do coleguinha. Cadê o Deboísmo? Se for ficar com sangue nos zóio por tudo que o povo fala…”. Foi então que percebi o que estava fazendo/sentindo. Estava mesmo exagerando na reação. E estava, de certa forma, agindo como esses que colocam comentários mais ofensivos nas postagens de opinião alheia nas diversas redes sociais. Só porque o cara discorda da minha opinião (mesmo que essa seja a opinião de outros milhões), não significa que eu preciso ficar tentando convencê-lo do contrário a todo custo, muito menos ficar irritado com as bobagens (ou não) que ele possa dizer.

 

Essa ideia simples, que deveria ser uma coisa que todos nós aprendemos com a maturidade, parece estar cada vez mais em falta no mundo. O grande boom das redes sociais parece ter potencializado essa insensatez coletiva. E o termo que melhor define esse fenômeno é o famoso Mimimi. O Mimimi está em todo lugar da internet. Dos comentários nos grandes portais àquele seu post no Facebook sobre cotas. Tudo é motivo pra reclamação e ofensa. Sempre regado a muitos crimes contra a língua portuguesa, especialmente o fim do infinitivo.

 

O Deboísmo, por sua vez, pode ser considerado uma resposta a essa epidemia de opinião agressiva. Muita gente acha que ser De Boas é ser trouxa, aceitar tudo calado, passivo, não saber sustentar argumentos. Não é isso. Segundo a definição da página do Deboísmo no Facebook:

 

Deboísmo é um estilo de vida. Ser de boa não significa ser inerte ao mundo, significa ser ponderado. É o “não se esquecer” que quem debate com você do outro lado da tela é uma pessoa, digna de respeito, assim como você.
Ser de boa não significa não debater, não significa se calar perante as injustiças. Significa não ofender as pessoas, argumentar de maneira lógica e sensata, sempre respeitando os direitos humanos.
Ser de boa significa deixar uma discussão acabar mesmo sem convencer o inimigo, principalmente se ele partir pra ofensas. Pois uma mente que está tomada pela raiva provavelmente não estará aberta a uma nova ideia.
Significa também, não se incomodar e se estressar com os pequenos problemas que a vida nos traz. Quando lidamos com um monte de problemas pequenos, fica mais fácil lidar com os grandes problemas.
O deboísta faz a sua parte para parar o que lhe aflige, ele muda o que pode para fazer a sociedade um lugar melhor, virtualmente ou não. Procura contribuir de todas as formas cabíveis, e não sofre pelo incabível.
Quem acha que ser de boa é aceitar injustiças acontecendo, o mal sendo feito, claramente não entendeu o recado.
Significa, em suma, ser de boas.

 

Aceitar provocação é coisa de criança de 11 anos dos anos 80. Nada melhor do que evitar uma treta, ou como diria o Jaiminho, evitar a fadiga.

 

Quando minha amiga abriu meus olhos, pude ver que estava sendo levado pela treta, e a treta leva ao ódio, que leva ao lado neg… Na verdade a treta não leva a nada! Aprendi que não se deve levar em consideração absolutamente nada que vemos nos comentários e posts alheios na internet.

Em alguns casos mais extremos devemos até cancelar assinaturas pra não perder amizades. Excluir só em último caso, pois isso é ceder à treta, ser vencido por ela. Tenho feito muito isso com meus amigos ultimamente. Vejo os absurdos que eles postam e continuo rolando a tela. Da mesma forma, evito postar coisas polêmicas também. E caso não resista a postar algo e a repercussão for alta de forma negativa, ignoro os comentários. Já aconteceu até aqui, num texto meu. Um comentário divergente da minha opinião deve estar esperando resposta até hoje, cantando vitória. Quem se importa? Minha opinião não mudou (e dificilmente mudaria) e nada que eu dissesse mudaria a dele.

 

Mas acredite, é difícil ficar de boas. Sempre tem um treteiro mimizento pra te tirar da graça. Veja o caso do meu amigo João Pedro:

 

Ceder à treta você não deve, padawan!

 

Pois bem, amigos. No episódio de hoje, aprendemos que não importa o quanto você seja ofendido, ou mesmo se criticarem algo que você acha genial. Os outros terão sempre opiniões diferentes, noções diferentes das suas para os mais diversos assuntos (especialmente política e sociedade). Não importa o quão nonsense os outros soem pra você. Fique de boas! Você será bem mais feliz e saudável. E mesmo que você esteja de boas, alguém vai fazer de tudo para te tirar desse estado de espírito. Seja forte! Continue no caminho da luz! Não ceda ao lado escuro da treta!

 

Star Wars é bom, mas Star DeBoas é melhor!

Thiago Amaral
Nerd inveterado. Entretanto, apaixonado por esportes, especialmente futebol. Professor de inglês e jornalista wannabe. Consumidor voraz de cultura pop. Conhecido no underground como pai da Alice.

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