Sobre ostentação, Maslow e a vida alheia

Sobre ostentação, Maslow e a vida alheia

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A sensação dos últimos dias na internet foi o vídeo, produzido pela revista Veja SP, sobre o tal “Rei do Camarote”. À despeito de tudo ser tão surreal e caricato que para mim parece um viral (e uma bela barrigada da Veja), algumas coisas me chamaram a atenção.

 

Antes de tudo, eu sou da opinião que as pessoas podem fazer o que acharem melhor para sua vida, desde que não prejudiquem outras pessoas. Neste caso, o dinheiro é do cara, desde que ele tenha ganho honestamente, ele faz com o dinheiro dele o que ele quiser. Ninguém tem nada a ver com isto. Se ele quer encher o camarote dele de Marias “Veuve Cliquot” e ser encoxado por um humorista (dos ruins!), o problema é só dele e das pessoas que o acompanham.

 

Mas a primeira coisa que me chamou a atenção foram os dois pesos e duas medidas de algumas pessoas ao fazerem julgamentos. Já começaram errado por fazerem julgamento, mas já que o fizeram, que ao menos usassem de imparcialidade e tivessem coerência. O que o Alexander gasta num ano, o Ronaldo Fenômeno, por exemplo, deve ter gasto em apenas uma das suas festas de casamento. E não é exclusividade dele. Jogadores de futebol e artistas da música e da TV adoram exibir suas conquistas. E quase não se vê críticas quando isto acontece.

 

Recentemente surgiram os tais “funkeiros ostentadores”, que ao emplacarem seus sucessos têm conseguido uma quantidade boa de shows, o que os proporciona manter um padrão de vida do mesmo nível do tal do Alexander, e com atitudes parecidas com as dele. Mas ao invés de receberem as mesmas críticas pela ostentação (vamos esquecer a questão musical), acontece o contrário, existiram até programas de TV e blogueiros analisando como um fenômeno sociológico a tal “ostentação”.

 

A incoerência acontece quando as pessoas que sempre exaltaram um jogador de futebol ou um artista, por ter saído de uma “condição humilde” e ter se superado na vida, julgam uma pessoa que, aparentemente (ninguém sabe a história do cara), teve algumas chances a mais, usando outro peso. Quando diz que é empresário então, já taxam de explorador, corrupto, etc. Isto é preconceito. Do mesmo tipo que dizer que favelado é tudo bandido, ou que gay é tudo promíscuo.

 

O ser humano gosta de se destacar no meio da multidão e exibir suas conquistas. Antigamente era o mais forte, o mais apto à caça, depois o que tinha mais posses, ou o que fazia parte da nobreza ou do clero. Natural que, no caso das pessoas que possuem mais dinheiro, este seja o meio de exibir. É só ler um pouco de Maslow que facilmente se percebe que isto não é apenas um comportamento de um “rico babaca”.

 

Pirâmide das necessidades do ser humano de Abraham Maslow. | Créditos: gestaonossadecadadia.com.br

Pirâmide das necessidades do ser humano de Abraham Maslow. | Créditos: gestaonossadecadadia.com.br

 

O segundo ponto que me chama a atenção é a relação que o Brasileiro, assim como os demais povos de origem latina, têm com o dinheiro. Vamos primeiro tentar explicar o que é o dinheiro.

 

Dinheiro é apenas um meio de troca. Antigamente, quando as pessoas trabalhavam no campo e em atividades extrativistas, o excedente conseguido era trocado com vizinhos por outros produtos de seu interesse. Para facilitar a troca, já que muitos destes produtos eram perecíveis e/ou tinham um volume e/ou peso muito grande para ser carregado de um lado para o outro, as pessoas inventaram meios de facilitar esta troca. Um dos meios mais conhecidos foi o utilizado durante o Império Romano, onde os soldados recebiam do Império sal como pagamento por seus serviços, e utilizavam este sal para adquirir outros produtos de seu interesse. Daí vêm as palavras “salário” (de sal) e “soldo” (de soldado) para designar pagamento por trabalho.

 

Atualmente, onde as ideias, conexões e influência (E por que não sorte?) geram mais valores do que o trabalho braçal (que pode ser substituído por máquinas), faz mais sentido ainda ter um meio de troca.

 

Portanto, uma pessoa que tem muito dinheiro (partindo do princípio que ela ganhou honestamente), é apenas uma pessoa que conseguiu gerar muitos frutos do seu trabalho e, portanto, não deveria ter vergonha de tê-lo ou demonstrar tê-lo. Nos EUA, Canadá e em vários países europeus, as pessoas se orgulham de ganharem mais e não tentam esconder isto, pois é sinal que a pessoa gerou bastante riquezas à partir do seu trabalho.

 

Porém, e acredito muito que devido à influência da Igreja Católica (Dinheiro é pecado! Nos entregue que nós nos livramos dele para vocês!), nos países latinos, dinheiro é visto como algo sujo, vergonhoso, algo que as pessoas devem evitar. Se não for possível evitar de ganhá-lo, então “compartilhe” com as demais pessoas.

 

Como consequência, ouvimos frases do tipo: “com tanto dinheiro assim, ele tinha que distribuir”, “porque ao invés de gastar com baladas, não doa aos pobres”. Se você tem a caridade como princípio de vida e isto faz bem pra você, ótimo. Talvez ele não tenha, e não é demérito nenhum.

 

Erroneamente, sempre levam a questão para esse lado.

Erroneamente, sempre levam a questão para esse lado.

 

E aí caímos no terceiro ponto que me chamou a atenção. E este eu acho particularmente muito perigoso. Vi muitas pessoas dizendo “coitado, ele não é feliz”, “podia fazer tal coisa que iria ser melhor”, “não deve ter amigos”.

 

Quem disse que o que é bom para você tem que ser bom para todo mundo? Quem disse que “ter amigos verdadeiros” é bom para ele? Talvez ele prefira estes amigos de ocasião e seja feliz desta forma.

 

As pessoas têm que entender que cada pessoa é um indivíduo, que tem seus valores, princípios, ideologias. E repetindo: desde que não faça mal a mais ninguém, nenhum valor ou princípio é melhor do que o outro. São só diferentes e devem ser respeitados.

 

Só lembremos que muitas das desgraças que ocorreram na humanidade, tais como guerras, ditaduras, genocídios, entre outros, aconteceram quando um grupo decidiu que a sua ideologia política, a sua raça, o seu intelecto ou a sua religião eram melhores do que a das outras pessoas (mesmo que estas outras fossem maioria) e decidiram impô-los às estes demais. Ou então eliminar quem se opusesse.

 

Quanto à mim, a única coisa que achei foi graça. Tanto que li a matéria na internet e assisti o vídeo umas três vezes. Mas ao menos eu escolhi assistir ao vídeo, e não foi alguém, dentro de um transporte público coletivo, que resolveu me “presentear” com a exibição.

Wellington Moura da Cunha
Paulistano de nascimento e cidadão do mundo por vocação. Trabalha atualmente com TI, porém se interessa, literalmente, por todo tipo de assunto, o que faz dele um "palpiteiro" de marca maior. Consegue ser cético e ter ao mesmo tempo o otimismo de Cândido, achando que no final tudo dará certo. Entre suas paixões estão a música, a literatura e as conversas com amigos numa mesa de bar, regado a uma boa cerveja. É autor do blog Botecoterapia.

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  • Li de Oliveira

    Eu concordo com tudo que disse, com uma unica exceção que falarei mais a frente. Ele pode sim, fazer o que quiser com o dinheiro dele, uma vez como você disse, trabalhou honestamente por isso. E ninguém, absolutamente ninguém, tem o direito de julga-lo. Até mesmo pq, é como dizem: “Ninguém sabe exatamente quem você é, até lhe dar poder as suas mãos”. Quem critica, não tem o direito, pq não sabe como seria se estivesse nesse patamar de vida. O desconhecido assusta. Repulsa. Mas enfim… cada um sabe de si. Ele poderia sim, aplicar parte do dinheiro dele em coisas mais bacanas e que trouxessem um resultado concreto por um mundo melhor, mas se não é a vontade dele, fazer o que? E infelizmente é assim, apesar de ser como disse, uma situação corriqueira, as pessoas pegam alguém para cristo, para talvez até servir como fuga de seus próprios atos. É mais fácil falar do outro do que olhar as suas próprias atitudes. Vira uma válvula (errônea) de escape. A única coisa que não concordo é com sua colocação sobre amigos, a questão de que se é bom pra ele ter amigos verdadeiros. Acho realmente impossível alguém ser de verdade contentado com falsas amizades. Ter seu “pacote” (suas qualidades e defeitos) aceito de verdade, creio que lá no fundo é vontade de todos. Uma vida sem amigos é uma vida vazia. Mas até aí, também é decisão dele, e somente dele fazer por merecer esses amigos, independente do dinheiro dele. No mais, um salve a todos aqueles que sabem olhar para o próprio umbigo.

    • Wellington Cunha

      Eu tb acho que amigos são essenciais, mas talvez isto não faça parte dos valores dele, e ninguém pode criticá-lo por isto. Como disse, são apenas valores diferentes dos seus.