Sándor Márai e a questão do casamento

Sándor Márai e a questão do casamento

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Parece que um dos temas mais caros ao escritor húngaro Sándor Márai era o do reencontro de amigos para resolver histórias significativas de suas vidas. Assim foi em “As Brasas”, seu romance mais conhecido, e da mesma maneira em “Divórcio em Buda”, embora este último não trate de amigos, apenas conhecidos. Em ambos os casos o ambiente é preparado na primeira parte do livro para que na segunda o encontro aconteça, ocasião em que um dos envolvidos inicia um monólogo com a reconstrução do passado em comum. Curiosamente, nos dois livros a conversa se justifica por uma terceira pessoa, mulher, ausente no reencontro. Mas se em “As Brasas” a existência dessa pessoa interfere na história de uma longa amizade, em “Divórcio em Buda” ela leva ao fim de um casamento. O matrimônio, aliás, com todas as suas convenções e exigências, é o tema central deste segundo livro.

 

É a história de Kristóf Kömives, que atuava como juiz de divórcios em Budapeste, embora reconhecesse que sua atividade estava em conflito com o direito divino. Porque, para ele, o casamento era uma convenção moral que precisava ser aceito como tudo que vinha de Deus, não cabendo, portanto, qualificá-lo como “perfeito” ou “imperfeito”. O divórcio, nessa visão, não passava de uma intromissão da intenção humana naquilo que era divino. “A vida são deveres, que devem ser cumpridos; naturalmente deveres pesados e complexos, que algumas vezes devem ser suportados com sacrifício”, acreditava. Para Kömives, uma família de verdade é aquela em que pais e crianças se querem bem e essa concórdia interna é capaz de fazer com que suportem brigas, castigos, tabefes e mau humor, se em que ninguém ganhe tremores na alma por conta disso. Cumprir o dever também era silenciar tudo que fosse dúvida, desagregação, ambição instintiva e irresponsabilidade individual.

 

Capa de 'Divórcio em Buda', editora Companhia das Letras.Mas Kömives sentia que, de um modo geral, o edifício da família estava desabando. Muito se falava sobre a própria falência do casamento. Nos sintomas de degeneração da família, o juiz enxergava os da própria sociedade. E pensava na família em que foi criado, sob a ausência da mãe, que havia fugido com outro homem. Seu pai havia suportado o sofrimento com dignidade. Kömives, seu irmão e sua irmã nunca foram de falar sobre o que sentiam. À seu modo, todos cumpriam o seu dever. O curioso é que, depois de adulto, isso passou a não ser suficiente para o juiz. Ele queria saber o que se passava com seus irmãos, já que eles nunca diziam o que pensavam. Mas ele próprio pouco tinha ânimo para falar de si (é digna de nota a cena em que sente tontura após emitir uma opinião divergente).

 

A tontura era humilhante e indigna de uma pessoa da sua autoridade. Alivia-se ao perceber que ela não fora notada por ninguém ao redor. Mas como desejava que pelo menos Hertha, a sua esposa, percebesse! É quando os deveres de um casamento não bastam mais a Kömives e ele é capaz de se perguntar para que serve de fato uma relação, já que a sua própria esposa não consegue perceber quando ele se sente mal.

 

Ao voltar para casa naquela mesma noite é que, surpreendentemente, Kömives é aguardado pela visita de um antigo conhecido, o médico Imre Greiner. O juiz sabia que no dia seguinte havia de julgar o processo de separação entre ele e Anna Fazekas, também sua conhecida. Greiner conta então a sua trágica história – é a parte do monólogo, recheado de questões existenciais. Assim como Kömives, o médico acreditava em um casamento indissolúvel, mesmo sem o amor, que não passava de um acaso maravilhoso, um raro fenômeno.

 

Podia-se viver junto de forma imperfeita, pois já é bom não estar só, já é bom se um concorda com o outro. Mas a relação de Greiner esfria, ele sente que Anna não está mais totalmente ao lado dele, e de alguma maneira isso tem relação com o juiz, que havia sido para ela uma possibilidade não realizada de amor.

 

É basicamente o conflito entre possibilidades e obrigações a matéria de que Sándor Márai se ocupa neste livro. A diferença entre o que se vive e o que se sonha. A decisão sobre o que fazer quando aquilo que se sonha é diferente daquilo que se vive – a separação, a conformidade ou a infelicidade. Os dois conhecidos lidam de maneira diferente com este problema. E juntos levantam questões ainda bem presentes para uma sociedade cada vez mais afeita ao divórcio.

Henrique Fendrich
Henrique Fendrich nasceu no sul, mora em Brasília/DF, é jornalista e escritor, mantém a Rubem, revista digital sobre crônica, publicou uma coletânea com textos seus chamada "Brasília quando perto", e gosta de ler tanto quanto de falar sobre o que leu.

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