Resenha: O Velho Logan

Resenha: O Velho Logan

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Imagine uma mistura entre os seguintes ingredientes: super-heóis/super-vilões, Mad Max e Os Imperdoáveis. O que sairia? A resposta é Wolverine – O Velho Logan.

 

Se você conhece as duas obras cinematográficas mencionadas como referências, certamente já tem uma imagem da HQ. Trata-se de uma distopia bem ao estilo Mad Max, com a diferença de que o futuro não é tão distante assim (ou pelo menos há uma época semi-definida). A história se passa 50 anos no futuro (a pergunta é: 50 anos no futuro a partir de quando?) e os motivos pelo qual a humanidade se encontra em tal situação, quase que pós-apocalíptica, são devidos a uma noite fatídica na qual super-vilões se uniram pela trocentésima vez (conforme citado na HQ) e derrubaram de vez os super-heróis. A maioria morreu e alguns pouquíssimos estão desaparecidos ou incapacitados.

 

Wolverine, no entanto, não morreu nem está incapacitado. Simplesmente está aposentado, conforme ele mesmo costuma se definir. Logo no início da HQ somos apresentados ao protagonista, mas é quase impossível reconhecê-lo de primeira. Ele está velho e usa roupas, digamos, sóbrias ou estéreis. Lembra muito a indumentária utilizada nesse tipo de retrato distópico já vistos em filmes como O Livro de Eli, Jogos Vorazes e até mesmo Matrix, mas me refiro ao estilo simples e não as roupas extravagantes. Conhecemos sua família (sim, Logan está casado e tem um casal de filhos) e o tipo de rancho onde vive. Eles comentam sobre a dificuldade de pagar o aluguel e a possibilidade de vender alguns dos poucos bens que restam, como animais e os dois únicos brinquedos dos filhos. E a situação é preocupante: caso não paguem o aluguel, correm o risco de não apenas serem despejados, assim, sumariamente, mas como também serem surrados ou até mortos como exemplo, de acordo com as ‘leis’ da época/região.

 

Em detalhe, a aparência envelhecida de Logan e suas vestimentas características para esse futuro disópico

 

Daí você pensa: “Cara! É o Wolverine! Como assim vão surrar ou até matar sua família por conta de um aluguel?” Dois pontos precisam ser frisados a respeito disso: Wolverine viveu algum grande trauma na noite fatídica em que os heróis sucumbiram, por essa razão, fez um voto de que não voltaria a entrar numa briga jamais e nem mesmo usaria suas garras novamente; o segundo ponto, é que mesmo que o Carcaju estivesse disposto a enfrentar os credores, os ‘donos’ da sua região são os descendentes do Hulk, a chamada Gangue Banner, assim, seria uma briga bem difícil e sangrenta. E é assim que é o encontro dos Banners com Logan, quando estes chegam e não recebem o dinheiro esperado. Sangrento. Logan leva uma surra dos primos/irmãos (os Banners são cosanguíneos, pois a única forma de Bruce Banner se reproduzir só poderia ser com sua prima Jennifer Walters, a Mulher-Hulk) bem na frente de sua família, e ainda assim, não levanta um dedo como reação, mesmo diante de provocação. Seu filho então toma as dores da família e ameaça atirar e então os Banners vão embora, como piedade, mas avisam que voltarão no mês seguinte para receber em dobro.

 

Enquanto seus ferimentos se curam (afinal seu fator de cura está um pouco mais lento devido a idade) Logan recebe a visita de seu amigo Clint Barton, o Gavião Arqueiro. Este agora está cego e trabalha como, digamos, um freelancer, no ramo de ‘entregas’. Sabendo da condição do amigo, Clint convida Logan pra fazer a próxima entrega. É algo grande, eles cruzariam o país e ao fim, Logan levaria dinheiro suficiente pra poder pagar o aluguel por pelo menos uns meses. Não vendo outra alternativa, Logan aceita, mesmo achando a tal entrega muito suspeita e achar arriscado deixar a família por tanto tempo. E é aí que começa a ação de fato e a história toma ainda mais ares de Mad Max, pois acaba sendo uma on the road story.

 

O trajeto que Logan e Clint fazem, cruzando os EUA. Observe que cada, digamos, Condado, tem um ‘dono’

 

No caminho os dois velhos (com trocadilho) amigos enfrentam diversos perigos e vão visitando locais que marcaram a tal batalha fatídica que mudou os rumos da história. Para Logan, na verdade é a chance de entender um pouco o que houve, pois ele esteve totalmente alheio e distante de tudo e nunca soube, de fato, o que aconteceu aos outros heróis. Muitas cidades e regiões foram renomeadas, seja em referência àlguma batalha ali travada ou em ‘homenagem’ aos novos senhores da região. É interessante observar o cuidado que há na explicação dos motivos pros nomes e também na divisão das regiões.

 

Em dado momento da viagem, os heróis se deparam com seres chamados Topeiroides, uma raça que segundo consta sempre viveu no submundo e funciona como um tipo de hemácia pra Terra, e quando necessário trabalha em defesa da mesma. Entraram em ação quando a Terra atingiu 8 bilhões de habitantes. Ao serem atacados pelos toperoides, a dupla acaba sendo também atacada pelos Motoqueiros Fantasmas, que tentam tomar a carga que estes estão transportando, acreditando ser um carregamentos de drogas, como o próprio Gavião deixou transparecer durante a jornada até então. Porém, nesse momento Clint entra em ação e mesmo sendo cego (sim, eu não havia citado esse ‘detalhe’ ainda?) consegue dar cabo dos motoqueiros. Quando percebe que teve que resolver tudo sozinho, ele entende que Logan realmente está ali apenas pelo dinheiro pra pagar o aluguel, sendo o navegador da vaigem e que não tem intenção nenhuma de entrar em qualquer tipo de briga.

 

Alguns dos diversos perigos, no mínimo curiosos, que Logan e Clint enfrentam em sua jornada

 

Mais adiante eles chegam a uma localidade conhecida por ser uma espécie de Meca para aqueles que acreditam que um dia os heróis voltarão a dar esperança à humanidade. Lá, um modelo de Ultron bem diferente daquele vilão que conhecemos, aborda a dupla falando sobre uma mensagem de uma tal Tonya destinada a Clint. Tonya é a terceira ex-mulher de Clint, que foi casado várias vezes. Ela, POR ACASO, é a filha mais nova de Peter Parker (nada menos que o Homem-Aranha). Acontece que a filha do casal, Ashley formou um super grupo e tentou tomar a cidade do Rei do Crime, senhor da região. Claro que isso não deu certo e eles foram pegos. Claro que Clint não deixaria a filha em perigo. Claro que Logan se absteve e iria apenas como navegador.

 

É claro, também, que esse resgate não deu muito certo. No fim das contas, a neta do Homem-Aranha e filha do Gavião Arqueiro se voltou contra o próprio pai (e avô, de certa forma). Sua causa não era nada nobre. Ela não queria tirar a vilania do poder pra trazer a paz, mas sim pra tomar o poder pra si. Nesse desvio de rota de Logan e Clint, acabamos por ver que os outros membros do super grupo de Ashley continha o Demolidor e Justiceiro, mas ambos acabaram morrendo numa arena para promover entretenimento violento para o Rei do Crime, Rei este que, pelo menos pra mim, não fica claro se é realmente outra pessoa, ou se arrumou algum método pra passar sua personalidade a outro corpo.

Na fuga, Logan e Clint são perseguidos por um tiranossauro (?!) Venom (!!??) e eventualmente, Logan acaba contando a Clint a razão de ter feito seu voto de não-violência e agora viver recluso e alheio a tudo que envolva heróis e vilões, apenas cuidando da família. Nessa hora, percebemos que esse Logan, totalmente diferente do que estamos acostumados, sendo até visto pelo filho como um perdedor, um fracassado, tem uma razão de ser assim.

 

Após mais alguns plot twists e personagens familiares que fazem pequenas (mas por vezes importantíssimas) participações na história, Logan acaba sendo obrigado a deixar seu ‘estilo Wolverine de ser’ vir à tona novamente. Na conclusão da história ele acaba enfrentando o velho Bruce Banner (o que é um baita easter egg, já que a primeira aparição do personagem foi numa história do Hulk e estes já se enfrentaram diversas vezes ao longo dos tempos) numa batalha absurdamente violenta, como poucas vezes foi visto numa HQ Marvel . A história termina com Logan partindo rumo a novas aventuras, acompanhado de um novo sidekick ele pretende ‘desaposentar’ e, quem sabe, fazer algo pra mudar o cenário desse futuro caótico tomado pelos vilões.

 

Alguns dos souvenirs que podem ser considerados easter eggs, além de mais uma participação curta mas muito importante

 

Fiquei muito surpreso com essa Graphic Novel. Eu esperava que fosse muito boa, até porque ela me ganhou pela sinopse. Wolverine é meu (anti-?)herói favorito, e tê-lo numa aventura distópica, mais uma vez, seria muito legal. Digo mais uma vez, pois o baixinho canadense já foi protagonista de outras aventuras solo de certa semelhança, a mais famosa é Dias de um futuro esquecido. E dessa vez, a ideia era ter um Logan envelhecido, aposentado e talvez até enfraquecido, como o próprio título sugere. No entanto, conforme eu ia virando as páginas, eu ficava mais envolvido com a história e com a arte da HQ. As referências ficam muito claras desde o início, mas não chegam a ser tão óbvias, permitindo que a história tenha sua originalidade.

 

Conforme já disse anteriormente, essa é a HQ mais violenta que já li da Marvel, e sou um fã da editora, leitor desde o início da adolescência. Por mais que o Wolverine sempre tenha sido bem sanguinário em suas aventuras solo, essa HQ se supera nas cenas de de luta com muita mutilação e tripas voando. Já li algumas coisas do Justiceiro e do Deadpool nessa linha, mas do Wolverine… não me lembro. Talvez parece a você, que ainda não conhece a obra, que seja uma coisa até meio Tarantinesca de sangue jorrando gratuitamente (não que ache que o sangue que jorra nos filmes de Tarantino seja gratuito, mas é uma ideia comum). Não é. Tudo tem um propósito e é muito bem condizente com a história. Tudo também é totalmente crível, apesar do ar absurdo. O único ponto fraco que consigo apontar é que as vezes temos a sensação de que não precisávamos de tanta explicação. Muito poderia ficar subentendido ou simplesmente em aberto, além de uma certa repetição desnecessária destas explicações. De qualquer forma, essa obra merece uma vaga na estante de grandes clássicos da editora, ao lado de Dias de um futuro esquecido (já citado anteriormente), A Saga da Fênix Negra, A Queda de Murdock e até mesmo, por que não, de outras editoras, como O Cavaleiro das Trevas, O Reino do Amanhã, V de Vingança e Watchmen.

 

Violência e mutilação são marcas registradas da graphic novel, no entanto, tudo é justificado e nada gratuito

 

Eu li o encadernado da coleção de Graphic Novels da Salvat, que é uma compilação que ainda vem com várias curiosidades e informações pra deliciar colecionadores. É um volume consideravelmente grosso, não sei precisar o número de páginas que contêm apenas história, mas sei que é uma das mais grossas da coleção. Há algumas págians que são puramente de arte, sem sequer uma caixa de diálogo ou narrativa. Mas estas são, também, essenciais na história e são altamente apreciáveis. Não tenho uma leitura muito rápida em geral, mas essa HQ foi tão intensa pra mim que a devorei em apenas uma viagem de Metrô + Ônibus de Botafogo a Nova Iguaçu (algo em torno de uma hora e meia). Ou seja, vale muito a leitura, que te prende. Recomendo com força.

Thiago Amaral
Nerd inveterado. Entretanto, apaixonado por esportes, especialmente futebol. Professor de inglês e jornalista wannabe. Consumidor voraz de cultura pop. Conhecido no underground como pai da Alice.

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