Racismo contra garis na internet

Racismo contra garis na internet

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A greve dos garis no Rio de Janeiro acabou. Após encherem as ruas e até brigarem contra o próprio sindicato, os garis conseguiram junto a Prefeitura um aumento de 37%. De R$ 802,00 de salário base, passaram à R$ 1.100,00. É uma conquista da classe, apoiemos a greve e seus métodos ou não. Mas esta conquista parece ofuscada perante os olhos de alguns que dizem defendê-los.

 

A visão vitimizada de alguém, escorada num sentimento de pena, é uma das piores formas de preconceito. No Brasil, é uma modalidade comum. A taxação de inferiores, indiretamente, feita por intelectuais e jornalistas de toda sorte contra negros no país, há muito tempo, é exatamente isso. Essa visão, que coloca quem a defende como superior mesmo que ao pratica-la digam que são iguais, resvala agora na classe trabalhista em evidência.

 

É um racismo à moda intelectual, mas praticado de cima para baixo como os demais. Um cidadão bem de vida, estudado, por vezes, muitas vezes, professor universitário – ao que se entende que estudou bastante –, sobe no pedestal disponível e clama o mais alto que pode que os negros no Brasil não são respeitados. Que sofrem racismo por todo lado. Que se são pobres, em sua maioria, e se cometem crimes, é por culpa de outrem, do sistema, da meritocracia. Ou seja, retiram destes que aparentemente defendem o próprio arbítrio sobre suas vidas, como se fossem incapazes. Nessa “defesa” do negro, acabam sendo tão racistas quanto os boçais que xingam negros de macaco na rua.

 

Se você, por exemplo, ao contratar uma pessoa o faz por ela ser negra, uma vítima do sistema, está sendo tão racista quanto seria quem deixasse de contratá-la pelo mesmo motivo, que é a cor de sua pele. O negro, assim como qualquer ser, quer, ou deveria querer, ser valorizado pelo que é, pelo saber que tem e pelas habilidades que possui. Não pela quantidade de melanina em seu corpo. Isso é uma tolice, um racismo disfarçado. Pior até do que as modalidades mais escancaradas de preconceito, pois passa batido e é praticado por gente esclarecida.

 

Quem já hostilizou um gari na rua, por conta de sua atividade e ainda pela cor da pele, tratando-o mal, é tão racista quanto quem compartilha a foto abaixo, com a diferença de que o primeiro é consciente de sua condição idiota.

 

E a foto vem com uma legenda assim: "Como dar uma aula sobre racismo no Brasil com apenas uma imagem. E mais nada."

E a foto vem com uma legenda assim: “Como dar uma aula sobre racismo no Brasil com apenas uma imagem. E mais nada.”

 

Se você compartilhou essa ou semelhantes, se apropriando de um discurso supostamente intelectualizado que vê o negro como alguém não capacitado a ser médico, mesmo existindo no Brasil muitos médicos negros, sinto muito, mas você é racista. É alguém que vê o mundo em preto e branco, que não considera outros fatores para dar um veredito generalista e perigoso como esse.

 

Fora que ao apontar essa aparente maioria racial de um lado ou outro (Sabia que raça não existe?), numa foto escolhida a dedo pra isso, você não está afirmando que o negro tem menos oportunidades no Brasil, pois numa questão tão pequena não poderíamos atestar isto, ainda mais a considerar questões históricas e a igualdade — em estado avançado (vide atual presidente do STF) — já obtida, mas sim sugerindo que existe uma condição racial e genética que separa uns e outros, que dá melhores capacidades a uns e a outros não.

 

É somente isso que a foto pode atestar, tal qual o pensamento de um quase alemão muito conhecido… Não, Marx não! Um fã às avessas dele, tal de Adolf alguma coisa. Outro que via a “raça” antes de qualquer outra coisa no Homem.

 

Portanto, esse tipo de “argumento visual”, além de inócuo e combinar mais com discussões juvenis, é apenas mais um exemplo dessa modalidade intelectual de racismo, pujante no Brasil, mas que veste uma carapuça humanitária que a disfarça muito bem.

Fernando Henriques
Idealizador e editor desta revista, Fernando Henriques é um consumista informacional. Formado bacharel em Ciências da Computação, encontra na Comunicação um elo natural. Viciado em séries, filmes, rock, MMA, política e desafios.

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