Quadrúpedes em ação!

Quadrúpedes em ação!

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Os dias passam, a Humanidade envelhece e as conquistas do tempo são tentadas constantemente. Parece cada vez mais comum vermos pessoas desrespeitarem ou apoiarem o desrespeito da chamada ordem social. Aquela bobagem que o Estado tem o dever de manter e, apenas, nos faz conviver civilizadamente.

 

Sem ordem nada funciona, nem uma aula de jardim de infância, nem uma conversa entre amigos. Esta é geralmente rompida quando findam-se os argumentos, ou mesmo quando estes não existem, mas as paixões sim. Quando trata-se de debates inflamados, tem sido cada vez mais difícil estabelecer ambientes de paz e harmonia entre discordantes. Dizem que as universidades são lugares a salvo de tal mal, instituições naturalmente constituídas para o debate e evolução das ideias. Não no Brasil. Aqui, muitas vezes, o que se encontra perambulando pelos corredores, esquentando as carteiras, são seres que não fariam feio numa jaula de zoológico.

 

Na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, da USP, dia 31 de Março último, vimos tais quadrúpedes em ação:

 

Link Youtube | Alunos invadem aula quando professor lia texto intitulado “Continência a 1964″.

 

Mostre esse vídeo a um cidadão civilizado, e ele achará absurda a ação invasiva dos alunos. Mostre a um comunistinha camarada e o verá quase gozar de alegria. Não exatamente pela afinidade ideológica que provavelmente existe com os alunos, isso também, mas principalmente pelo endossamento da prática em si. Da forma como o “protesto” foi feito, pela quebra da ordem institucional, chamada “burguesa”, da hierarquia. Isso os faz saltitar.

 

A versão contrária dessa história, com professores marxistas defendendo, por exemplo, a guerrilha armada e a tomada de poder para implantação do socialismo, ocorre diariamente em milhares de salas de aula do país. E não temos relato de estudantes que se juntaram para cala-los a força. Quando muito, tecem perguntas.

 

A verdade é que estes alunos da USP, protestantes legítimos para a Folha de São Paulo, são baderneiros, indecorosos e para lá de retardados. Como também é quem os aplaude ao longe. (Sem meias palavras ou rodeios, pode se ofender se aplaudiu o ato.)

 

O professor expressava sua visão e opinião a respeito dos fatos ocorridos em 1964 e os incivilizados alunos começaram a balburdia do lado de fora, simulando atos de tortura. Somente isso já seria péssimo, visto que gritam e dão pontapés na porta da sala, porém insatisfeitos ainda invadiram a aula. Inversão de papeis execrável, onde o professor deve se curvar ante a vontade de uma patuleia chumbrega e se calar diante de um bumbo. Bela aula de democracia, para manés.

 

Existe uma forma de discordar e continuar vivendo, forma esta que vermelhinhos em geral não conhecem. Sempre ofendidos, agem na base do grito e da intimidação. Na cara dura, à luz do dia. Mas vá você enfrentá-los… O professor, pobre pensador solitário impotente frente uma manada, certamente ainda será acusado por aí de ter “agredido” os alunos invasores, por ter puxado o capuz de uma menina e tentando, timidamente e em vão, impedir que acabassem com sua aula.

 

É por este modus operandi esquerdista, existente no país muito antes de 1964 em escalas absurdamente mais violentas, claro, que em 2 de Abril de 1964, em pleno “golpe”, O Globo estampou em sua capa que a democracia havia sido restabelecida. Por isso também é impossível debates sérios sobre o tema, quando uma menor menção aos motivos que levaram 500 mil pessoas para as ruas clamar por intervenção militar é entendida como defesa de tortura (?). Como se as centenas de torturados no país, por canalhas ou não com poder demais, e que nada tinham com ideologia alguma, fossem fator inebriante para as milhões de mortes que a ideologia que avizinhava o poder detém nas costas.

 

Tomar de assalto uma aula tranquila e normal somente porque discordavam do que era dito, defendido ou ensinado pelo professor é a típica atitude de miolos moles que combatem uma ditadura defendendo outra (reclamam do regime militar brasileiro e exaltam o regime cubano, por exemplo). Atitude de desrespeito cada vez mais comum, diga-se.

 

Ressalto também o papel de militância da Folha, onde tomei ciência do fato. Parece que a notícia por lá foi escrita por um dos encapuzados que invadiram a sala. Casa de colunistas do porte de Luiz Felipe Pondé e João Pereira Coutinho, não é de hoje que, infelizmente, o tradicional periódico faz quase militância em algumas muitas notícias. Os jornalistas da redenção não devem ler a coluna dos dois conservadores citados, no próprio jornal. Não é possível, já teriam aprendido algo.

 

Nesta ocasião, desde o título até a leitura dos fatos vemos uma interpretação torta. Leia o título: “Professor de Direito da USP defende ditadura, e alunos protestam; veja o vídeo”. A única proposição verídica dele é que na matéria os leitores verão um vídeo. Pois nem o professor defendeu a Ditadura, nem os alunos fizeram um simples protesto. O leitor, ao ler esse título, já adentra na matéria fulo de raiva com o pacífico e culto Eduardo Gualazzi. Quando, na verdade, o professor ateve-se a defender a tomada de poder pelos militares, o que, para brasileiros mal educados, literalmente, pode ser difícil entender, mas não é a mesma coisa do que defender a Ditadura – regime ditatorial, autoritário – e toda aquela nuvem negra que o senso comum traz a reboque do termo: tortura, desaparecimentos, cerceamento de liberdades…

 

O professor Gualazzi, protogonista a contragosto do ato, é procurador do estado de São Paulo e ex-diplomata do Brasil. Certamente um idiota, que chama o “Golpe Militar” de revolução. Espertos mesmo são os alunos baderneiros, que sabem andar, cantar e tocar bumbo ao mesmo tempo. Nossa! Em exercício de empatia, imagino que deve realmente ser uma droga quando mais alguém, além do caricato Jair Bolsonaro, chama o evento que marcou 1964 de revolução. Ainda mais sendo um professor com tais credenciais, a utilizar o termo. Só poderiam fazer barulho e cala-lo, não poderiam mais nada além disso.

 

Aliás, puderam sim. Como sequência do ato, os alunos que acabaram com a aula do professor legítimo da faculdade trouxeram o senhor Antônio Carlos Fon, dito preso pela Ditadura, para este sim dar a aula que eles queriam. Coisa linda, não fosse todo o processo exatamente o que foi. Nada contra o Sr. Fon, que com o microfone que era do professor Gualazzi convocou o mesmo para um debate, depois de todo o desrespeito ocorrido. Uma piada. Este, claro, deu as costas e se foi. Não lhe restava mais nada. Vimos clara e peremptoriamente neste episódio o exercício da mais antiga tirania: de um grupo unido e tomado de razão contra um indivíduo.

 

Os quadrúpedes da USP quebraram a ordem importantíssima para uma relação de ensino, embargaram uma aula com a autoridade que lhes foi outorgada por eles próprios. No país agora de esquerda, análise faltante na aula do professor (leia aqui o que ele leria e foi impedido) – viu, discordo dele sem batuque e “putaria” –, quem é de esquerda sente-se o dono do pedaço. Quisessem os alunos serem dignos em suas diferenças, teriam apenas abandonado a aula. Faltado neste dia. Quisessem, ainda, um debate sério e real a respeito, tentariam marca-lo entre o tal Sr. Fon e o Professor com toda a organização necessária. Mas não, gritar e batucar dá mais views no Youtube.

 

Torço para que não, mas pelas palavras do diretor da faculdade, José Rogério Cruz e Tucci, expostas na matéria da Folha, o acinte dos alunos deve ficar por isso mesmo. Sem punição alguma, do contrário, com muita ode à eles vinda da mesma imprensa que acusam, costumeiramente, de “direitista” e “golpista”.

 

Outrossim, seria interessante algum jaz morto, com visão panorâmica dos vivos, avisar para o Paulo Freire que os “oprimidos” da educação agora são os professores.

Fernando Henriques
Idealizador e editor desta revista, Fernando Henriques é um consumista informacional. Formado bacharel em Ciências da Computação, encontra na Comunicação um elo natural. Viciado em séries, filmes, rock, MMA, política e desafios.

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