Primeira Epístola dos Humanos ao Pai.

Primeira Epístola dos Humanos ao Pai.

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Credo in Deum, Patrem omnipoténtem, Criador do Céu e da Terra; Criador do céu, da terra e dos seus habitantes imundos.

 

Esta noite, meu Pai, aqui me ajoelho para Te pedir perdão. Perdão por coexistir com criações tão desprezíveis e nada poder fazer.
Teu plano de fazer-nos Tua imagem e semelhança foi por água abaixo, Senhor.
Perdão!

 

Hoje não dão a outra face, estupram crianças, ao invés. Aqui embaixo, ninguém reparte pão nenhum, óh Pai!
Roubam cada migalha encontrada nos bolsos alheios. Quando não há para dar? Duas facadas no pescoço resolvem. E foda-se a órfã criança ensanguentada!

 

Não vou perder tempo desculpando-me pelo linguajar inapropriado, Senhor. Nossos outros pecados anulam este aí. Veja só, óh Pai, ainda esta semana alugaram um caminhão na França e mataram oitenta semelhantes. E quer saber? Fizeram em Teu sagrado nome!

 

Fizeram isso por um de Seus nomes!

 

Estão fazendo piada de cada um de Seus dez mandamentos, Pai. Transformam o roubo em profissão. Da morte fazem artifício. Reduzem a pó cada pedaço da tábua entregue a Moisés.

 

A violência desenfreada vai bem, obrigado. Já há Estados inteiros com o único propósito de matar.

 

Criam armas, munições, estratégias diferentes a cada dia…
A natureza anda espremida em meio ao nosso ego.
Construimos prédios que deixariam Babel envergonhada. Não obstante, no sopé de cada um deles, pedintes famintos e doentes.

 

Investimos boa parte da nossa riqueza em aventuras espaciais. Afinal, em breve, isso aqui se tornará inabitável.

 

O conceito de família se arrasta. Quem o defende é retrógrado, obsoleto.
A propósito, moderno aqui é se destruir. Quanto mais infectado, melhor.
Por tudo isso – e muito mais – , Te peço misericórdia, Senhor. Pensa num jeito de reconstruir o que um dia foi Teu paraíso. Estas vidas que se propõem a arruinar tudo que resta de belo não podem aqui ficar.

 

Somente Tu destes a vida, somente Tu podes tirar.

 

Mas confesso que todo esse enredo despertou minha ira, Pai.
Ficaria grato em ser instrumento deste ato. Nem que haja um preço a pagar. Vivo ou morto. Nesta ou na próxima vida…

 

Amém.

Kadu Bastos
Carioca, vascaíno incondicional, 25 anos, nascido em Duque de Caxias - RJ. Simpatiza com assuntos que envolvam segurança pública, direito criminal e psicologia forense.

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