Prezado Obama

Prezado Obama

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Acreditamos, realmente acreditamos na mudança, conforme pedia o slogan de sua campanha naquele ano de 2008. Vossa Excelência tinha palavras que gostamos muito de ouvir – especialmente porque o comparávamos com o seu antecessor, aquele velho cowboy do Texas. Ouvimos promessas como “estabelecer novos padrões na política internacional” e “ações diplomáticas no Oriente Médio”, incluindo o diálogo com o Irã e a Síria, e acreditamos que realmente novos tempos haviam chegado aos Estados Unidos e quiçá ao mundo.

 

Havia também a vitória contra o preconceito racial, com o que muito nos congratulamos. Sabemos que na África, como lembrou Mia Couto, o senhor sofreria preconceito por ser branco demais. Mas na América, esse continente que a sua nação entende como o seu país, os preconceitos são outros, e Vossa Excelência soube vencê-los todos. Se me permite dizer, notamos até mesmo alguma coisa de brasileiro no seu jeito, provavelmente vindo das nossas mesmas origens africanas. Acreditamos, pois, em Vossa Excelência.

 

Já se passaram cinco anos, e o senhor foi até mesmo reeleito. Tem acontecido problemas na Síria, Vossa Excelência sabe. Chamou de barbárie. E a sua estratégia contra barbáries é promover uma intervenção militar, que é como o seu país chama as guerras. Deus me livre e guarde de querer comparar a Síria com o Iraque, mas no fim das contas não são todas guerras? O senhor, um Nobel da Paz, busca apoio internacional para promover uma barbárie do bem, justa e necessária, como todas as guerras são para quem as promove. Fala em credibilidade internacional, como se o único interesse não fosse a segurança do seu país. Também é ela que justifica a espionagem americana em países como o Brasil. E diante disso concluo tristemente que Vossa Excelência não é diferente de nenhum outro presidente dos Estados Unidos.

 

Perdão se não envio esta carta pelo correio, mas sei que mais cedo ou mais tarde ela acabará chegando em suas mãos.

 

Cordialmente, um súdito.

Henrique Fendrich
Henrique Fendrich nasceu no sul, mora em Brasília/DF, é jornalista e escritor, mantém a Rubem, revista digital sobre crônica, publicou uma coletânea com textos seus chamada "Brasília quando perto", e gosta de ler tanto quanto de falar sobre o que leu.

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