Prevenção à AIDS – Um grande avanço na história da <br />humanidade

Prevenção à AIDS – Um grande avanço na história da
humanidade

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A AIDS talvez seja a doença mais estudada dos últimos tempos devido a sua alta incidência e mortalidade. Ela é causada por um vírus que ataca nossas células de defesa, principalmente os linfócitos TCD4. Embora se tenha a ideia de que a doença é rapidamente devastadora, nosso organismo consegue suporta-la assintomaticamente durante um período de 2 a 10 anos, variando de pessoa para a pessoa. Em casos especiais, ainda, indivíduos conseguem sobreviver 20 anos sem apresentar os sintomas conhecidos da doença.

 

O tratamento disponível ataca cada etapa do processo de infecção viral. Há medicamentos que atuam no reconhecimento do vírus pelas células, outros que impedem a replicação de seu genoma, outros que impedem sua saída da célula infectada etc. Entretanto, vírus são, por natureza, altamente mutáveis e isso dificulta o uso de um medicamento específico devido à resistência. Por isso, se utiliza um coquetel de medicamentos que pode ser alterado com o tempo.

 

Outro fator que dificulta o tratamento é a característica de latência do vírus. Ou seja, se ele infectar uma célula TCD4 imatura que é incapaz de replicar o genoma viral e, portanto, incapaz de disseminar o vírus, ele não é eliminado, mas permanece nesta célula até sua maturação. Essa geralmente ocorre no Linfonodo onde outras células TCD4 estão passando pelo mesmo processo e serão, por consequência, infectadas.

 

Embora o vírus seja bastante agressivo, o nosso organismo possui um maquinário de defesa estupidamente eficiente e consegue resistir ao patógeno por muito tempo. Porém, quando o Timo e a Medula Óssea – que são produtores auxiliares de TCD4 – são afetados, a doença se agrava e os sintomas começam a aparecer.

 

E é nessa hora que o paciente vai procurar ajuda médica, pois somente nesse estágio ele percebe seu quadro de infecção. Portanto, o tratamento se iniciará já com a doença em fase avançada o que colabora para impossibilitar a cura da AIDS pela terapêutica existente.

 

Há muitos anos você ouve que a AIDS é uma doença incurável.

Há muitos anos você ouve que a AIDS é uma doença incurável.

 

A partir do século XXI, o foco da pesquisa nessa área se voltou para buscar uma maneira de prevenir a doença visto que a cura estava cada vez mais distante e a vacina não é uma opção – justamente pela característica viral. Não se sabe ao certo qual grupo de pesquisa foi pioneiro em tentar utilizar os antirretrovirais como forma de prevenção à doença, mas essa ideia foi brilhante.

 

Se utilizarmos o tratamento conhecido antes do agravamento da patologia, as chances de sucesso são maiores, pois o nosso organismo ainda tem como se defender – e como eu disse, ele é bom nisso – e a carga viral ainda não é tão grande quanto nos casos agravados da doença.

 

Em 2011 a revista Future Medicine publicou uma matéria bastante otimista, mas pouco esclarecedora, sobre o assunto. Ela tratou de duas estratégias que vinham sendo empregadas em humanos e que pareciam promissoras. A primeira era a utilização de um gel de Tenofovir (um antiretroviral bastante utilizado no tratamento do HIV) na vagina de mulheres africanas, onde a incidência da doença é elevadíssima. O nível de prevenção foi animador, porém mais estudos se faziam necessários.

 

A segunda estratégia utilizada foi a administração diária de uma pílula do medicamento Truvada®, que é uma combinação de Tenofovir e Emitricitabina – ambos são inibidores da enzima viral Transcriptase Reversa –, por homens homossexuais, um grupo de altíssima incidência da doença. Embora o resultado tenha sido incrivelmente animador, não houve divulgação em massa devido à necessidade de mais testes.

 

Então, no dia 10 de Maio de 2012, a FDA (Food and Drug administration), a ANVISA dos EUA, recomendou o uso do Truvada® como prevenção à doença, mas limitou sua utilização a um grupo de alto risco, ou seja, quem está mais exposto à doença – pessoas cujos cônjuges são HIV-positivos, por exemplo.

 

A aprovação não foi unânime e o principal argumento apresentado é de que esse medicamento pode gerar mais males do que benefícios, uma vez que as pessoas poderiam abandonar o uso de preservativos e com o tempo banalizar a administração do medicamento. O pensamento é conservador, mas faz sentido, porque a eficácia da prevenção é de, no máximo, 90%. Isso se, e somente se, o medicamento for tomado diariamente como recomendado.

 

Portanto, esse medicamento não é uma resolução única e completa da transmissão do vírus. Ele é somente uma ferramenta de auxílio, embora muito poderosa. O uso de preservativos continua sendo a maior e mais eficaz forma de prevenção. Porém, a combinação desses dois métodos pode dar um novo rumo ao tratamento do HIV.

 

Continue usando camisinha.

Continue usando camisinha.

 

Ainda enfrentaremos problemas como os fortes efeitos adversos dessa molécula e o evidente pouco tempo de estudo sobre ela como forma de prevenção. Mas de uma coisa não há dúvida, a humanidade deu um grande passo para o controle dessa mazela e mais uma vez se superou em momentos de dificuldade.

 

Referências:

  • Efavirenz/Emicitrabine/Tenofovir/Disproxil Fumarate Single-Tablet Regimen (Atripla®). A Review of its use in the managemente of HIV infection. Deeks, E.D. & Perry, C.M. Adis drug evaluation, 2010;
  • Proof of principle: antiretroviral drugs can prevent sexual transmission of HIV-1. Wainberg, M.A. & Field, H.J. Future medicine LTDA, 2011.
  • FDA Panel Recomends Anti-HIV Drug for Prevention. Jon Cohen. Science mag, 2012;

Pedro Henrique Franco
Pedro Henrique da Rocha Franco, nascido em 1991. Cristão, amante da leitura e apaixonado por futebol.

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  • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

    Então Pedro, logo que a notícia sobre o Truvada apareceu, a preocupação de uma proliferação do vírus por conta de uma confiança excessiva no remédio veio à tona. Mas esse seu artigo diz tudo, não é para ninguém largar as tradicionais camisinhas, o remédio deve ser mais um método de prevenção. 

    Pelo que li em outros, ele ainda não chegou no Brasil, é isso mesmo?

    • Pedro Franco

      Exato, esse medicamento em especial ainda não chegou. Pelo que me lembro, nós temos os dois princípios ativos separados, ou seja, dois medicamentos diferentes…