Porque a Folha de São Paulo contratou Kim Kataguiri?

Porque a Folha de São Paulo contratou Kim Kataguiri?

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No último dia 18, o principal jornal do Brasil anunciou que o jovem Kim Kataguiri passaria a compor seu time de colunistas. A notícia por si só foi responsável por uma onda de indignação entre os leitores que ainda restam ao periódico. Afinal de contas, como um veículo de imprensa com o tamanho da Folha de S. Paulo ousava dar espaço a um moleque de 19 anos que sequer tem curso superior? Como dar voz a alguém que não tinha nem um ano de idade quando PC Farias foi protagonista de um processo que viria a culminar no impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello?

 

Tais perguntas permearam os intensos debates que se iniciaram com o fatídico anúncio do novo colunista. Para piorar, Kim estreia criticando o Movimento Passe Livre (MPL), que durante as últimas semanas se envolveu em confrontos violentos com a polícia paulista. Qualquer análise da situação tem que levar em consideração dois pontos importantes: há uma enorme crise na imprensa brasileira (e essa crise é ainda maior nos veículos impressos) e Kataguiri é, hoje, o principal nome de oposição ao governo federal.

 

Podemos não gostar da realidade, mas é impossível negá-la. Hoje, os principais veículos de mídia impressa no Brasil estão à beira da falência, com graves problemas financeiros. São vários os motivos que levaram o jornalismo tupiniquim para a lona, mas a verdade é que os grandes jornais vendem pouco, dão menos retorno ainda e, a cada dia, perdem mais leitores, seja para folhetins mais baratos, seja para a internet. Ao contrário de 10 ou 20 anos atrás, já não há mais a necessidade de assinar um jornal para estar minimamente bem informado sobre o mundo. A internet fornece todas as informações, sobre os mais variados pontos de vista. E tudo “de graça”. O público de classe média que consumia jornal e atraía anúncios publicitários, hoje, continua se atualizando sem a necessidade de manusear o papel. O resultado foi que os principais veículos dependem mais da verba vinda da publicidade estatal do que propriamente da venda de assinaturas.

 

O Japonês que Sonha em Derrubar o PT

 

Kim Kataguiri é um fenômeno típico das redes sociais. Ao contrário de boa parte dos nossos políticos tradicionais, desde o início ele sempre soube como catalisar os movimentos do mundo digital para a vida real. Kim nos passa a impressão de ser um “meme” que “viralizou” e soube se utilizar disso para sair da internet. Ele soube se promover enquanto pequeno prodígio da direita brasileira. E soube demarcar seu espaço para não ficar restrito demais a um único grupo.

 

#partiu #derrubaroPT

#partiu #derrubaroPT

 

Agora, imagine: no começo, Kataguiri era apenas mais um jovem fazendo vídeos, escrevendo artigos sobre o Liberalismo e conseguindo, quando muito, duas ou três centenas de compartilhamentos. Hoje, querendo ou não, ele é o líder do principal movimento organizado de oposição ao petismo. Ele soube se consolidar e crescer dentro das inúmeras vertentes da direita, ao ponto de suas opiniões repercutirem. Ainda mais em um contexto de recessão, denúncias de desvios de verbas, governo enfraquecido e, principalmente, desconfiança quanto as instituições e partidos políticos. O cenário conspira a favor do líder do MBL.

 

Kim e a Folha de S. Paulo

 

Somente se espanta com a contratação do jovem de traços orientais aqueles que não conhecem a imprensa brasileira. No Brasil, pode-se dividir os veículos de mídia em dois grupos distintos: aqueles que dão opinião demais e os que dão opinião de menos. A Folha, nos últimos anos, tem se posicionado no segundo grupo. A falta de um posicionamento explícito no jornal acabou sendo compensada por uma diversidade em excesso quando o assunto é colunismo.

 

A diversidade excessiva do colunismo da Folha é facilmente explicada. A forma encontrada pelo o jornal para driblar a crise e não fechar as portas foi apelar para opiniões polemicas ao invés de qualificadas. O maior critério para selecionar se um colunista está apto para escrever na Folha de S. Paulo não é ser contra ou a favor do governo ou ter tido algum grande mérito acadêmico ou profissional, mas sim a capacidade de atrair acessos para o site.

 

A ânsia em formar um quadro “diversificado” foi tanta que, há algum tempo, figuras de gosto duvidoso como Guilherme Boulos, Gregório Duvivier, Marcelo Freixo e Ronaldo Caiado ganharam o seu espaço. Nenhum deles foi escolhido por sua habilidade em lidar com as palavras ou com a sua contribuição com a literatura mundial. Ocorreu o exato oposto. Eles foram contratados para dar opiniões estereotipadas, rebater o senso comum com mais senso comum e, com isso, conseguir alguns milhares de acessos que ajudem o jornal na busca por anúncios e, consequentemente, um alívio financeiro.

 

Num cenário como esse, é impossível que o jornal volte a investir em grandes escritores. Simplesmente porque estes, além de serem caros, não geram interação. Qual o sentido em ter um Arthur Blair (George Orwell) ou um Vargas Llosa analisando a cultura, a política e a sociedade se, além de terem um alcance menor que os colunistas incendiários, boa parte do público não vai sequer compreender suas ideias?

 

A Folha prefere o circo das ideias e não me estranharia se ela decidisse, em um futuro próximo, trocar João Pereira Coutinho e Jânio de Freitas por Lobão e Tico Santa Cruz. É uma estratégia compreensível para atingir essa imensa massa movida pela politização e “memes”. O “fenômeno” Kim é o reflexo da opinião pública no Brasil: superficial, rasa e, principalmente, imatura.

 

Para ódio de alguns e regozijo de outros, a coluna já está no ar

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Thiago Penna
Publicitário, jornalista, humorista de ocasião e filósofo de boteco. Não necessariamente nessa ordem...

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  • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

    Essa diversidade da Folha não é tão grande assim. Conservadores seguem quase órfãos, ficam apenas com dois nomes (João Pereira Coutinho e Luiz Felipe Pondé) dentre os cento e poucos colunistas, enquanto abundam esquerdistas malucos como os citado Boulos e Duvivier.