Por que a Tiffany é melhor que o Rodrigo?

Por que a Tiffany é melhor que o Rodrigo?

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Um país que estampou Roberta Close na capa de suas principais revistas, isso na década de 80!, estaria mesmo sendo homofóbico com relação a Tiffany em 2018?

 

Essa é uma questão interessante de ser levantada no momento que a discussão sobre ela poder ou não jogar campeonatos femininos de vôlei descambar para um suposto preconceito da parte de quem critica essa decisão. Até porque o único ponto realmente discutido é se ela leva ou não vantagem sobre as nascidas mulheres, e só. Não há questionamento sobre a sua decisão, tomada aos 30 anos, de mudar de sexo. Como indivíduo autônomo, ela tem todo o direito de fazer o que quiser com o seu corpo.

 

Descartada de antemão a possibilidade de haver preconceito, devemos buscar a resposta que realmente interessa: uma mulher transexual leva vantagem biológica sobre as nascidas mulheres?

 

Quem tem trazido muita luz para essa questão é a ex-jogadora de vôlei Ana Paula. Ela tem usado seu espaço como colunista do Estadão para se opor ao fato de mulheres transexuais joguem campeonatos femininos. Seu argumento básico é simples: mulheres trans levam vantagem. Do alto dos seus 24 anos dedicados ao vôlei, Ana Paula conhece como poucas os pormenores do esporte, ela relata que durante toda a sua vida de atleta foi submetida aos mais rigorosos testes antidoping:

 

Fui testada dentro e fora das competições para provar que meu corpo não estava sendo construído em nenhum momento da minha vida com testosterona.

 

E disse ainda que toda essa preocupação era para deixar o esporte justo. E esse é o ponto crucial da polêmica: justiça.

 

Hoje Tiffany tem seus níveis de hormônios dentro dos limites impostos pelo Comitê Olímpico Internacional, mas é cientificamente comprovado que a redução dos níveis de testosterona só surte efeito a médio e longo prazo. Tiffany foi por quase 30 anos Rodrigo, seu nome de batismo, ou seja, ela teve toda a sua construção corporal edificada como homem, desde desenvolvimento muscular ao tamanho do pulmão. Então, voltamos à questão: isso acarreta ou não uma vantagem fisiológica sobre as nascidas mulheres?

 

Para melhor ilustrar o caso temos que nos distanciar da discussão científica, ela deixa todo o debate muito abstrato. Vamos, portanto, aos fatos materiais:

 

O então jogador Rodrigo atuou pela série B da Superliga Masculina no Brasil antes de rodar a Europa atuando em Ligas de menor expressão em Portugal, Espanha, França e Holanda, atuando também na Indonésia e indo parar na segunda divisão belga antes de interromper a carreira para realizar a cirurgia de mudança de sexo. Pois bem, sua carreira prova que nunca foi um jogador excepcional. Rodrigo provavelmente nunca cogitou a hipótese de defender a seleção masculina de vôlei, por exemplo. E estava destinado a ser mais um jogador “ok” entre inúmeros jogadores “ok” que após encerrarem a carreira abrem uma pizzaria para ganhar a vida.

 

 

Mas o que aconteceu quando Rodrigo resolveu trocar de sexo e passou a jogar entre as nascidas mulheres?

 

Ele, agora Tiffany, se tornou em pouquíssimo tempo uma das melhores jogadoras de vôlei de uma das ligas mais fortes do mundo!

 

Tiffany fechou 2017 com a melhor média de pontos da Superliga Feminina, com 23,3 pontos por jogo, deixando para trás Tandara, uma das melhores atacantes brasileiras na atualidade, a qual fechou o ano com um média de 19 pontos por partida. Tiffany também bateu o recorde de pontos em uma só partida do torneio ao marcar 39 pontos (!) contra o Praia Clube. Aqui vale ressaltar que esse desempenho incrível foi diante do melhor time do campeonato até aquele momento.

 

Rodrigo, até outrora relegado ao submundo do vôlei, hoje, como Tiffany, já está no radar do técnico da seleção brasileira feminina – bicampeã olímpica – para uma possível convocação. Zé Roberto, técnico da seleção, a definiu como “elegível para jogar”.

 

Tiffany afirma que tem esse excelente desempenho porque tem talento, mas se concordarmos com isso, que ela tenha um talento excepcional, chegaremos a duas possíveis conclusões: (a) ou estamos diante de um milagre divino, no qual depois da cirurgia de mudança de sexo, Tiffany teve seu talento crescido de forma fantástica, pois esse “talento” nunca se manifestou em Rodrigo, (b) ou ela, por ser trans, leva vantagem sobre as nascidas mulheres. Não há outras opções.

 

Talvez as opiniões de quem a enfrenta na quadra, e está na mira dos seus poderosos ataques, sejam ainda mais determinantes para responder à questão.

 

Quando estreou na série A2, em fevereiro de 2017, na Liga Italiana, pelo Golem Palmi, Tiffany entrou no segundo set depois que sua equipe perdeu o primeiro para o Delta Trentino. Além de comandar a vitória por 3-1 da sua equipe, foi eleita a melhor jogadora da partida. Ao fim do jogo a capitã do Trentino, Sílvia Fondriest, comentou:

 

Tivemos dois jogos diferentes: um até ela entrar, outro depois. [...] os seus parâmetros físicos não são os mesmos de uma mulher. Nem na série A1 se veem jogadoras que consigam jogar à sua altura e com um ataque tão forte.

 

Aqui no Brasil, na Superliga, em entrevista para o SporTV, Tandara também registrou suas impressões sobre Tiffany em quadra. A oposto do Osasco diz perceber que durante boa parte da partida, Tiffany “segura o braço”, mas ao chegar nos momentos decisivos do set, ela “vem um pouco mais forte”, ela “salta mais alto”, diz a atacante. Tandara relembra de uma disputa na rede na qual ela sentiu medo de subir com Tiffany tamanha era sua impulsão e força. Se uma das melhores jogadoras do mundo sentiu medo ao tentar bloqueá-la, acredito que não há mais nada a argumentar…

Carlos Santos
Estudante de jornalismo, escritor amador, poeta de ocasião, cronista fortuito e colunista inconstante. Além de tudo, é um ex-comunista que dobrou a Direita.

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