O trabalho escravo no Século XXI

O trabalho escravo no Século XXI

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Recentemente instaurou-se um rebuliço entre as jovens cariocas amantes da moda e do consumo. O motivo disso é o anúncio oficial da chegada de uma grande rede de roupas femininas ao Brasil, a Forever 21.

 

O diferencial apresentado pela loja e motivo de todo rebuliço são os preços inacreditavelmente baixos cobrados pelas roupas. O mais impressionante talvez tenha sido o fato da empresa conseguir, em território brasileiro, manter sua característica e praticar preços sensivelmente mais baixos do que a concorrência. A empresa anunciou a peça mais barata no valor de R$ 8,00 e a peça mais cara no valor de R$ 130,00. Aqui já desmistificamos uma das maiores justificativas de empresários varejistas para os lucros astronômicos com os quais operam: O demônio da carga tributária brasileira.

 

Mas como a empresa consegue manter estes preços, a despeito da tão temida carga tributária brasileira? Don Won Chang, dono da marca, afirma que a façanha é fruto de uma política rigorosíssima de corte de gastos. Segundo ele, seus executivos não voam de primeira classe, há racionamento de custos fixos e, além disso, a empresa economiza no marketing. Sem grandes projetos de publicidade e sem a contratação de top models para a divulgação da marca, cortaria-se suficientemente o custo para se praticar preços mais generosos. Porém, esta versão é no mínimo incompleta. Existem métodos mais efetivos de corte de custos, tão comuns quanto abomináveis.

 

Fila na abertura da Forever 21 no shopping Village Mall - Rio de Janeiro.

Fila na abertura da Forever 21 no shopping Village Mall – Rio de Janeiro.

 

O Coelho na cartola da Forever 21

 

Publicado no mês passado, o relatório chamado “Cotton Sourcing Snapshot: A Survey of Corporate Practices to End Forced Labor”, construído pela Responsible Sourcing Network, apresenta uma pesquisa a respeito das práticas empresariais para acabar com o trabalho forçado. O relatório classificou 49 empresas envolvidas, atribuindo-lhes uma pontuação máxima de 100 pontos de acordo com a avaliação de onze indicadores nas categorias de divulgação, política, implementação, engajamento e auditoria. A má notícia para a consciência dos saltitantes consumidores brasileiros é que a Forever 21 obteve a quarta pior colocação no ranking final, a frente apenas das empresas Urban Outfitters, All Saints e Sears.

 

Segundo os dados, há alguns anos, em torno de 2 milhões de crianças de menos de 10 anos são retiradas da escola e enviadas aos campos de colheita de algodão do Uzbequistão, sob regimes de 10 horas por dia, durante 3 meses do ano. Este algodão colhido, por sua vez, é matéria-prima para a confecção de roupas da Forever 21 e outras marcas como a Aeropostale, a Toys ‘R’ Us e a Urban Outbittres.

 

A soturna realidade do trabalho escravo no Século XXI

 

Infelizmente, ainda no século XXI, práticas escravistas ainda são amplamente adotadas por grande corporações para reduzirem seus custos e potencializarem seus lucros. No ano de 2010, a famosa empresa de tabaco Philip Morris reconheceu manter sob regime de trabalho forçado crianças de 10 anos, responsáveis pela colheita do tabaco – sujeitas a sofrer envenenamento em função da nicotina. Ainda em 2010, a empresa chinesa KYE Systems Corp. foi acusada de manter 1.000 trabalhadores, com idades em torno de 16 anos, sob regime de trabalho de 15 horas por dia durante 7 dias por semana. Apesar das acusações, a KYE insiste em classificar como “perfeitas” as condições de trabalho de suas fábricas. A KYE é fornecedora de gigantes como a Microsoft, a Xbox e a HP. Por falar em gigantes, a conhecida marca de chocolates Hershey’s também foi alvo de acusações, desta vez pelo International Labor Rights Forum. A empresa – que assinou há 10 anos um acordo contra o trabalho infantil – explora o trabalho de milhares de crianças na colheita de cacau na África. Mas, como as leis semi-divinas do livre mercado funcionam perfeitamente bem, suas concorrentes não ficaram para trás. Nestlé e Mars Incorporated (fabricante dos deliciosos M&M’s) também usam da mesma prática.

 

Trabalho escravo no “mundo civilizado”

 

Muitos argumentam que estas práticas acontecem porque existem regimes anti-democráticos e de pouca liberdade que permitem leis trabalhistas frouxas. A despeito do fato destes regimes serem mantidos justamente pelo lobby das grandes empresas dos países desenvolvidos que exploram sua mão de obra, existem fortes indícios da superexploração de mão de obra também em países desenvolvidos.

 

Segundo dados da OIT (disponibilizados pelo site do Senado Federal); países como Estados Unidos, Reino Unido e Suécia também abrigam trabalho escravo em seu território. Seus alvos favoritos são minorias de imigrantes e nativos.

 

Trabalho escravo no Brasil

 

O Brasil não poderia ficar de fora de nossa análise. Estamos rumo ao hexacampeonato de trabalho forçado, precarizado ou escravizado. Recordaremos aqui alguns dos casos mais recentes de trabalho escravo na indústria têxtil nacional.

 

A começar pelo caso mais recente, este mês foram resgatados 19 trabalhadores peruanos de uma oficina na Zona Leste de São Paulo, em um flagrante de exploração de trabalho escravo. Os trabalhadores confeccionavam roupas da grife Unique Chic.

 

No ano passado tivemos alguns graves casos de exploração do trabalho escravo envolvendo grandes marcas. Em novembro, dois trabalhadores bolivianos foram resgatados em uma confecção no bairro do Bom Retiro, em São Paulo. Os trabalhadores residiam e trabalhavam no mesmo local, sob condições desumanas de higiene, produzindo roupas para a grife M. Officer. Em junho foi a vez da grife Le Lis Blanc ser flagrada explorando o trabalho escravo de bolivianos. Foram libertados 28 trabalhadores em três oficinas clandestinas que serviam a marca, incluindo uma jovem de 16 anos. O salário variava de R$ 2,50 a R$ 7,00 a unidade. Quem já passou e olhou os salgados preços na bela vitrine da Le Lis Blanc, em Ipanema, pode calcular os lucros que a empresa consegue utilizando esse tipo de mão de obra. A empresa também é dona da famosa marca John John. Em março de 2013, a empresa GEP (dona das marcas Emme, Cori e Luigi Bertolli e pertencente ao grupo representante da GAP no Brasil) teve 28 costureiros, também bolivianos, libertados após operação de combate ao trabalho escravo.

 

Em 2013 ainda tivemos mais dois casos envolvendo as marcas Gangster Surf and Skate Wear e a Hippychick Moda Infantil. Em 2012, tivemos casos de exploração do trabalho escravo envolvendo a as marcas Talita Kume e Gregory. Em 2011, acompanhamos o caso de repercussão internacional envolvendo a empresa Zara. Ainda no mesmo ano, tivemos mais dois casos envolvendo a empresa Collins e a Pernambucanas. Em 2010, por fim, tivemos o também conhecido caso de exploração de mão de obra escrava pela empresa Marisa. Os casos supracitados em sua maioria envolviam a exploração do trabalho de imigrantes, mediante pagamento de salários vergonhosos sob condições extenuantes de trabalho. Para mais informações e detalhes sobre estes casos você pode acessar este link.

 

Não precisamos falar que a indústria têxtil não é a única que faz uso deste tipo de mão de obra. O Ministério do Trabalho e Emprego divulga um Cadastro de Infratores contendo o nome e o tipo de propriedade de 579 empregadores que exploram o trabalho escravo no Brasil. A lista – chamada de Lista Suja – traz em sua maioria fazendas, carvoarias, destilarias e empresas do setor extrativo.

 

Mapa do trabalho escravo no Brasil.

Mapa do trabalho escravo no Brasil.

 

Ao que tudo indica, ainda estamos caminhando a passos lentos em direção a abolição do trabalho escravo no mundo. Alguns, como forma de protesto, buscam boicotar as marcas acusadas desta prática e não consomem seus produtos. No entanto, torna-se difícil conceber a efetividade desta ação ao passo que a informação sobre os detalhes da cadeia produtiva de muitas empresas ainda é obscura. Cabe a nós, portanto, o esforço de mudança do modo de produção responsável por esta triste realidade, bem como a conscientização daqueles ao nosso redor sobre estas práticas coloniais presentes ainda no século XXI.

Luã Braga
Luã Braga é graduando em Defesa e Gestão Estratégica Internacional e Pesquisador Associado ao Laboratório de Simulações e Cenários da Escola de Guerra Naval. Sua Pátria é o mundo inteiro. Sua Lei, a Liberdade.

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  • VICTOR FORTUNATO

    ESPETACULAR!!! PARABEENS!!!

  • Rodrigo Cotton

    A culpa é dos países que permitem esse tipo de trabalho e não das empresas que compram o produto a preços baixos.

  • Henrique

    O mais perverso é perceber que a escravidão jamais terminou para as classes populares e que, hoje em dia, a classe média, graças à alienação, também se escraviza voluntariamente. Vejam “De la servitude moderne”.