O que aconteceu com o funk?
17Sei que pra muita gente o funk é considerado um lixo, e sinceramente ouvindo o que está tocando hoje nos bailes e nas rádios, sou muitas vezes obrigado a concordar. Na verdade eu adoro funk. Sou do tempo que o tal estilo musical começou a explodir e ganhar o mundo, naquele tempo o funk nacional trazia realmente um movimento cultural, suas letras eram desabafos de jovens cansados da humilhação, segregação e violência. Eles utilizavam os raps para pedir paz nos bailes, união das massas e mais oportunidades para os favelados. Lembro até que dois mc’s – sigla que significa mestre de cerimônia e nada mais é que cantor de rap – fizeram o Brasil todo cantar o Rap da Felicidade, que bradava em seu refrão o seguinte apelo: “Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci, e poder me orgulhar e ter a consciência que o pobre tem o seu lugar”; isso sim era um desabafo e atrás desse vieram muitos outros.
O verdadeiro funk
O funk era um movimento cultural que aos poucos foi tomando conta da cidade e até do país, tinham cantores de funk no Xuxa Parque, no Criança Esperança e em muitos outros programas de TV, era uma revolução cultural. É claro que já naquele tempo haviam os raps de apologia ao crime, que defendiam bandidos e facções, mas estes eram a minoria. Também não posso negar que os bailes de comunidade, que eram bailes realizados em quadras de futebol dentro das favelas, eram organizados por traficantes visando atrair maior público para consumir as drogas, porém a grande maioria nada tinha haver com isso e iam lá pelo simples prazer de dançar e curtir o baile – eu fui a muitos e em muitas comunidades. Cheguei até a me aventurar no mundo dos mc’s, mas não fui muito longe.
Funk com letra
O que eu estou tentando dizer é que naquela época os raps tinham letras que falavam sobre alguma coisa, e essa coisa podia ser a fome, como o Rap das Crianças dos mc’s Willian e Duda, ou o amor, como o rap Lembranças, dos mc’s Nélio e Espiga. Este último era quase um hino nos bailes e iniciava assim: “Amor, sei que não dá mais. Acabou, entre nós já não existe mais nada, mas lembro um dia você me falou, jurou sempre me amar!”
Tinha também o Rap do Solitário, do mc Marcinho, e tantos outros que faziam as massas cantarem e dançarem. Já hoje, o que toca nos bailes é 90% de incentivo ao crime ou a prostituição. E ainda tem mais, para aqueles que só ouvem o funk nas rádios. Mal sabem que aquelas são versões adaptadas das verdadeiras letras que só tocam nos bailes. Por exemplo, na música da Valesca Popozuda que você ouve na rádio, onde ela canta “de sainha no baile”, a frase é “sem calcinha” e o “agora sou solteira” vira “agora sou piranha”. Levando em consideração que a maioria do público do funk são jovens e adolescentes ainda em fase de formação de caráter, o que isso pode causar a eles? Ainda não sou pai, mas se fosse, mesmo com apreço que tenho por toda história do funk, minha filha não frequentaria bailes.
De quem é a culpa?
Sou obrigado a afirmar também que a grande culpa do funk ter seguido esse caminho é dos DJs e equipes de som, que apoiam e incentivam essa apologia ao crime e ao sexo. Vejo que alguns DJs lutam para retomar a parte boa do funk, pois a cada dia surgem novos mc’s com novas propostas, raps com letras e apelos positivos, isso é muito bom. Posso citar como exemplo a mc Nanda Black, que canta um rap sobre a covardia dos maridos que agridem as mulheres e sobre a lei Maria da Penha, e ainda o mc Dodô, mc Yuri, Mag, mc Suzy e muitos outros que vem tentando salvar o funk de verdade.
Eu acho que o funk deve realmente ser um movimento cultural e assim ajudar o povo humilde com novas conquistas. Porém acho também que o caminho atual está errado, em algum lugar lá trás tentaram pegar um atalho e se perderam, mas como é sempre digo, a cada dia surgem novas oportunidades e possibilidades de se fazer diferente, não quero aqui impor minha vontade ou opinião, mas fato é fato e contra ele não há argumento. Continuarei aqui, torcendo para cada dia mais surgirem novos mcs, novos DJs e para que aqueles do passado que nos encantavam retornem, fazendo o movimento crescer sempre mais, porém com consciência e em prol do bem. É como diz o mc Cidinho no rap Não me bate Doutor:
“apanhei do meu pai, apanhei da vida, apanhei da polícia, apanhei da mídia. Quem bate se acha certo, quem apanha tá errado, mas nem sempre meu senhor as coisas vão por esse lado. Violência só gera violência, irmão, quero paz, quero festa, o funk é do povão já cansei de ser visto com discriminação. Lá na comunidade o funk é diversão, hoje tô na parede tomando uma geral, se eu cantasse outro ritmo isso não seria igual.
“O não me bate doutor que eu sou de batalha, eu acho que o senhor esta cometendo uma falha. Se dançamos funk é porque somos funkeiros da favela, carioca, flamenguistas, brasileiros.”
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