O que aconteceu com o funk?

O que aconteceu com o funk?

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Sei que pra muita gente o funk é considerado um lixo, e sinceramente ouvindo o que está tocando hoje nos bailes e nas rádios, sou muitas vezes obrigado a concordar. Na verdade eu adoro funk. Sou do tempo que o tal estilo musical começou a explodir e ganhar o mundo, naquele tempo o funk nacional trazia realmente um movimento cultural, suas letras eram desabafos de jovens cansados da humilhação, segregação e violência. Eles utilizavam os raps para pedir paz nos bailes, união das massas e mais oportunidades para os favelados. Lembro até que dois mc’s – sigla que significa mestre de cerimônia e nada mais é que cantor de rap – fizeram o Brasil todo cantar o Rap da Felicidade, que bradava em seu refrão o seguinte apelo: “Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci, e poder me orgulhar e ter a consciência que o pobre tem o seu lugar”; isso sim era um desabafo e atrás desse vieram muitos outros.


O verdadeiro funk


O funk era um movimento cultural que aos poucos foi tomando conta da cidade e até do país, tinham cantores de funk no Xuxa Parque, no Criança Esperança e em muitos outros programas de TV, era uma revolução cultural. É claro que já naquele tempo haviam os raps de apologia ao crime, que defendiam bandidos e facções, mas estes eram a minoria. Também não posso negar que os bailes de comunidade, que eram bailes realizados em quadras de futebol dentro das favelas, eram organizados por traficantes visando atrair maior público para consumir as drogas, porém a grande maioria nada tinha haver com isso e iam lá pelo simples prazer de dançar e curtir o baile – eu fui a muitos e em muitas comunidades. Cheguei até a me aventurar no mundo dos mc’s, mas não fui muito longe.


Funk com letra


O que eu estou tentando dizer é que naquela época os raps tinham letras que falavam sobre alguma coisa, e essa coisa podia ser a fome, como o Rap das Crianças dos mc’s Willian e Duda, ou o amor, como o rap Lembranças, dos mc’s Nélio e Espiga. Este último era quase um hino nos bailes e iniciava assim: “Amor, sei que não dá mais. Acabou, entre nós já não existe mais nada, mas lembro um dia você me falou, jurou sempre me amar!”


Tinha também o Rap do Solitário, do mc Marcinho, e tantos outros que faziam as massas cantarem e dançarem. Já hoje, o que toca nos bailes é 90% de incentivo ao crime ou a prostituição. E ainda tem mais, para aqueles que só ouvem o funk nas rádios. Mal sabem que aquelas são versões adaptadas das verdadeiras letras que só tocam nos bailes. Por exemplo, na música da Valesca Popozuda que você ouve na rádio, onde ela canta “de sainha no baile”, a frase é “sem calcinha” e o “agora sou solteira” vira “agora sou piranha”. Levando em consideração que a maioria do público do funk são jovens e adolescentes ainda em fase de formação de caráter, o que isso pode causar a eles? Ainda não sou pai, mas se fosse, mesmo com apreço que tenho por toda história do funk, minha filha não frequentaria bailes.


Show da Mulher Melância, cantando com as nádegas.

Ela canta com as nádegas?!


De quem é a culpa?


Sou obrigado a afirmar também que a grande culpa do funk ter seguido esse caminho é dos DJs e equipes de som, que apoiam e incentivam essa apologia ao crime e ao sexo. Vejo que alguns DJs lutam para retomar a parte boa do funk, pois a cada dia surgem novos mc’s com novas propostas, raps com letras e apelos positivos, isso é muito bom. Posso citar como exemplo a mc Nanda Black, que canta um rap sobre a covardia dos maridos que agridem as mulheres e sobre a lei Maria da Penha, e ainda o mc Dodô, mc Yuri, Mag, mc Suzy e muitos outros que vem tentando salvar o funk de verdade.


Eu acho que o funk deve realmente ser um movimento cultural e assim ajudar o povo humilde com novas conquistas. Porém acho também que o caminho atual está errado, em algum lugar lá trás tentaram pegar um atalho e se perderam, mas como é sempre digo, a cada dia surgem novas oportunidades e possibilidades de se fazer diferente, não quero aqui impor minha vontade ou opinião, mas fato é fato e contra ele não há argumento. Continuarei aqui, torcendo para cada dia mais surgirem novos mcs, novos DJs e para que aqueles do passado que nos encantavam retornem, fazendo o movimento crescer sempre mais, porém com consciência e em prol do bem. É como diz o mc Cidinho no rap Não me bate Doutor:


“apanhei do meu pai, apanhei da vida, apanhei da polícia, apanhei da mídia. Quem bate se acha certo, quem apanha tá errado, mas nem sempre meu senhor as coisas vão por esse lado. Violência só gera violência, irmão, quero paz, quero festa, o funk é do povão já cansei de ser visto com discriminação. Lá na comunidade o funk é diversão, hoje tô na parede tomando uma geral, se eu cantasse outro ritmo isso não seria igual.


“O não me bate doutor que eu sou de batalha, eu acho que o senhor esta cometendo uma falha. Se dançamos funk é porque somos funkeiros da favela, carioca, flamenguistas, brasileiros.”

Vilan de Souza Ribeiro
Vilan de Souza Ribeiro é casado e nasceu no Rio de Janeiro em 1979. Morou em vários bairros da cidade e passou parte da infância no Complexo do Alemão, onde presenciou muitos dos fatos que hoje relata. Também se aventurou pelo mundo do funk, o que lhe proporcionou ainda mais fatos para relatar.

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  • Diego de Lacerda

    O funk das antigas davam até para colocar na sua play list. Hoje em dia acho ridículo quem ouve aquelas porcarias tão alto que ofende até os mais devassos.

    Poucos eram os que não gostavam do Claudinho & Buchecha. Letras profundas em um rítimo envolvente, que vendeu e vendeu muuuuito.

    Enfim, “Ressuscita São Gonçalo, Liberta DJ.”

    • Vilan Ribeiro

      Respondedo atrasado, desculpa ae mas é verdade Claudinho e bochecha, Marcio e Góro muito Bom

    • Léo Monteiro

      O funk não tem época!

      A midia é que escolhe o que ela vai expor. Agora é a vez do funk ostentação.

  • Fernando Henriques

    O que eu achava engraçado na época que o funk bombava, era que meu primo, morador da zona sul, se amarrava nesses funks mais românticos, enquanto eu – da zona norte, próximo das favelas, curtia o bom e velhor rock.

    • Vilan Ribeiro

      e o funk realmente conseguiu chegar as elites, mas ainda assim e Talves por isso começou a se perder pois passou a ter influencias de DJs mais viajados que implantaram um pouco da tendencia do HIP HOp americano a letras vulgares estilo 50cet,s

  • Viviane Ribeiro

    Toda segunda o programa do DJ Tubarão toca só Funk da antiga. concordo com o Artigo. Muito Bom.

    • Vilan Ribeiro

      Muito bom eu não perco, ótimo para matar as saudades.

  • Matheus Tavares

    Ótimo artigo!

    Realmente o funk está horrivel, o que ainda salva em termos de música são os melody’s atuais, como Naldo.

    Eu inclusive fui a uma palestra do Sandy Pitbull, ele conta a história do funk e fala de sua luta para resgatar o caráter cultural de um movimento que se perdeu totalmente.

    • Vilan Ribeiro

      concordo,  o Naldo realmente tem dado um novo caminho para o Funk mas fora do Rio o Funk esta um pouco melhor, la no You Tube vc acha musicas de SP e BH que vale a pena de se ouvir. abraço

  • Marcelle Faria

    As letras podiam não ter o melhor português, mas não era ofensivo. Hj as letras só denigrem principalmente as mulheres e ainda sim, elas dançam como se estivessem ouvindo um elogio.
    Triste, mas eu ainda tenho esperança que as coisas mudem pra melhor.

    • Vilan Ribeiro

      é verdade, mas histórias sempre relatavam alguma coisa, hoje em dia parece um disco de palavrão arranhado.abraço

  • http://pulse.yahoo.com/_YMLQ2XVQZWNTL7YHQHYXI3HKIA Iara

    realmente o funk virou pouca vergonha só fala de sexo e  violência e eu acho que incentiva as crianças a ser um bandido que tem varias mulheres e os palavrões que em todo funk não pode faltar e uma mulher semi nua acho isso um desrespeito total mas tem a liberdade de expresão né……

    • Vilan Ribeiro

      o pior é entra em uma condução e ser obrigado a compartilhar do que algum dos atuais funkeiros ouvem. abraço

  • Rickd

    Acho que a partir do Bonde do Tigrão o Funk perdeu o contato com as letras. Claudinho e Buchecha ainda tinham letras inesqueciveis mas depois de 2000 o funk desandou.

    O grande momento do funk é os anos 90, foi ali que o melhor do funk foi produzido. Recentemente o MC Marcinho mandou bem, mas ainda faltam mais músicas com boas letras.

    • Vilan de Sousa Ribeiro

       Ainda tem mcs boms mas a maioria esta fora do Rio, pesquise yure Bh,Dodo,Nanda Black  e Felipe Boladão acho que vai te agradar 

  • Renato de Azevedo

    bom pra caramba seu blog cara, parabéns. Acho que é uma grande tristeza ver que os funkeiros mais novos, entre 15-18 anos, não conhecem praticamente nada sobre o rap e o funk mais antigo. Mas faz um tempinho que o funk está nesta tendência de pedofilia e crime. Dou no máximo três anos para aparecerem novos artistas e renovarem a arte.

  • ANTONIO

    Cara. O que aconteceu com o nosso funk??? Tenho muita tristeza no coração com o que cantam hoje. E o nosso: Massa funkeira não me leve a mal, vem com paz e amor curtir o festival!!!! Cadê isso cara??? Acabou!!! Virou esse lixo de LEKE, LEKE, LEKE, etc. Cadê músicas como Rap da Consciência, Rap do Silva??? Na boa, ainda bem que Cidinho Cambalhota, Ademir Lemos, Monsieur Limá o pioneiro, que não estão mais aqui, porque isso é uma ofensa a tudo o que eles lutaram pra conseguir, pra hoje a gente lembrar com orgulho, o verdadeir funk, o famoso “freestyle” que hoje não se escuta mais, hoje só se escuta LIXO!!!

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      Ótimo comentário, Antônio. Esse “ah, lek, lek”, por exemplo, é mais infantil que músicas assumidamente para crianças. Parace que o lance é sensualizar dançando, dane-se as letras.

  • Indio Liukang

    SOU EX DANÇARINO DE STIVIE B E KORELL PAREI EM 2007(FAMILIA)!E DIGO NAO TEM A MENOR CHANCE DE CHAMAR ISSO Q TOK HOJE DE FUNK! APOLOGIA A PALAVRAO,DEPRAVAÇAO E PROSTITUIÇAO TO FORA FUNK DA ANTIGA ERA SENSUAL E NAO SEXUAL KMO HOJE