O PT e o comunismo reencarnado

O PT e o comunismo reencarnado

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Quando, no meio de uma discussão sobre política, você afirma as salientes veias comunistas do PT, todos à volta arregalam os olhos. Se citar Foro de São Paulo, Barack Obama e Vladimir Putin então, xi, a coisa piora de vez. A conversa acaba e, com certeza, alguém fica chateado – é o poder que comunismo tem, somente se mencionado, de melar as coisas.

 

Erra de início qualquer um que associar comunismo somente a questões econômicas. Comunismo não é uma antítese do capitalismo, é muito mais e principalmente uma ótima “ferramenta” para tomada (e permanência) de poder. Veja, por exemplo, o Foro de São Paulo. Tratado como mito por alguns trouxas, até hoje, é na verdade uma movimentação comunista e tanto, digna de nota. De êxito tão evidente que comunistas europeus já acenam para ele e buscam imita-lo.

 

O Foro personifica, na América Latina, um nova forma de “praticar” o comunismo. Argumentei neste link a respeito da diferença entre um PT e um PSOL, comunistas em graus distintos, que é única e exclusiva em relação ao meio, o que implica na velocidade, para se chegar ao fim em comum: um estado que esteja em todas as esferas possíveis, não só no mercado (vide o PCC da China). Os comunistas de hoje já viram que é interessante flexionar as políticas econômicas, para não quebrar, pois fazendo isso do jeito “correto” – para eles –, dá para continuar no comando da sociedade ainda que exista um mercado “privado” a pleno vapor (jamais totalmente privado).

 

Se observarmos o PT a fundo, constataremos que qualquer um que apontar a forte veia comunista do partido não o estará fazendo sem motivos. A considerar pelo lado econômico, realmente, uma rápida análise apontará que o intervencionismo do PT é social democrata apenas, com pitadas de welfare state, mas uma real observância de outros pontos, principalmente no governo Dilma, revela mais. Desde a sovietização proposta pelo decreto 8243, que a favorita para vencer a eleição desse ano, Marina Silva, apoia, até o Itamaraty.

 

É, o Itamaraty. Note a atuação internacional do Brasil sob o comando do partido, as nações com quem se alia. China, Rússia, Venezuela, Cuba… Países governados por comunistas ou por “comunistas não declarados”, ex-comunistas, não-capitalistas, como queira chamar. Não é uma coincidência tal identificação com tais governos.

 

O comunismo deles (PT) é muito mais um dado cultural intrínseco, internalizado em cada membro e notável em cada opção política que fazem. Ao dizer que fulano é comunista, atualmente, não apontamos que ele quer, agora, do dia para noite, assim que assumir o poder, implantar uma economia planificada.

 

Não são burros os comunistas, afinal, e nem suicidas. Imagine o mote da campanha: “Vamos transformar o Brasil numa União Soviética melhorada!” Quem comprará a ideia com votos? PSTU e PCB vivem para mostrar, a cada quatro anos, que a história não é mais assim. Que não é dessa forma que o jogo é jogado. A sutileza é a nova alma do negócio, e a paciência um elemento comum que diferencia os comunistas do Século XXI em relação aos seus antecessores.

 

Para citar um exemplo prático, sobre o Governo Dilma/PT, observe o que está sendo feito hoje na saúde. Quem não trabalha próximo a área não tem como saber, mas o SUS aumentou absurdamente suas formas de controle e, por consequência, de regência (ver SISREG). Um paciente do SUS atualmente não pode escolher em que instituição fará um tratamento, é o Estado, através dos seus sistemas de regulação, a maioria recém implantado, que o fará, de forma fria. Exemplo: Existe uma clínica de tratamento especializado próxima ao seu trabalho que atende pelo SUS; você não pode ir diretamente à ela, marcar horário e ser atendido, deve passar antes por uma Clínica da Família (ou algo parecido no seu município), que te mandará, não importa o quanto esperneie, fazer seu tratamento próximo de sua residência. Não por erro humano e nem nada parecido, mas em obediência à ordem que vem de cima, de vincular os atendimentos de cada pessoa ao domicílio de residência, exclusivamente, para que no futuro possam sem apurados indicadores que apontem as regiões de maior carência disso e daquilo. Parece lindo, por um lado, mas não é, por lado nenhum. É arbitrário. O encaminhamento que o paciente receberá será dado não importando sua opção (perto de casa ou da puta que pariu) e nem mesmo se, em sua opinião, aquela clínica próxima ao seu trabalho oferta um serviço melhor. Isto, a longo prazo, só tenderá a destruir o SUS de uma vez; as poucas coisas que funcionam no sistema único de saúde brasileiro, não mais funcionarão, pelo menos não a contento de um brasileiro sequer.

 

Existe uma bibliografia esquerdista que legitima, e orienta, os movimentos dos comunistas “modernos”, datadas, mais ou menos, da metade do século anterior, e que, se lidas com afinco, podem ofertar ao leitor maior entendimento da movimentação de toda a esquerda no mundo hoje. Sobre o PT e seu projeto de manutenção de poder, inclusive.

 

Posso lhes dizer que a obra de Antonio Gramsci é essencial e vem em primeiro lugar. Logo em seguida devem ser notados os escritos de György Lukács, Herbert Marcuse e demais nomes da Escola de Frankfurt. Os socialistas/comunistas “modernos” são gramscianistas – saibam todos eles disso ou não. Ocupação de espaços, ocupação de espaços… É o mantra que impera.

 

Quando disse que o comunismo é uma ótima ferramenta para tomada de poder, me referia a isto. Em busca de uma revolução que salvaria a humanidade dela mesma, autores diversos (com destaque para Lenin e depois Gramsci) desenharam formas de obter o poder e ali permanecer para que, quando possível, ou mesmo aos poucos (dourando a pílula), pudessem “converter” a sociedade naquilo que entendiam por ideal (Eca!). Antes pelas armas, depois pela cultura e ocupação de espaços.

 

Ainda que seja impossível o êxito, como alguns dentro dos próprios partidos vermelhos devem saber que é, ficam com as ideias porque sabem que são vendáveis e propiciam a vitória política.

 

Não estou sabendo de outras ideologias políticas que orientam a agir da mesma forma. O liberalismo, sempre evocado como o outro lado dessa história, erroneamente (versa sobre economia política e ponto), prega exatamente o contrário, o anti-governismo, o impedimento do fortalecimento do Estado, que, concentrando muito poder nas mãos de poucos homens, torna-os perigosos demais. Junto ao conservadorismo, é bom lembrar, visa fortalecer o indivíduo, cidadão!, e suas instituições, e não a máquina pública. Exatamente para evitar excessos e perpetuações no poder.

 

Olhe para os demais membros do Foro (do Brasil temos, além do PT, PSB, PCB, PCdoB, PPS e PPL), que tiveram êxito em eleições mais ou menos em datas próximas a vitória do PT em 2002, não querem e não vão mais largar o osso. Fazem de tudo para continuarem sentados no trono, como reis. Fraudam as instituições e mudam as regras, como fez Hugo Chávez na Venezuela – possibilitando que, mesmo depois de morto, continuasse a mandar naquele país através de seu sucessor, o bisonho vice-presidente Nicolás Maduro (“poste” eleito presidente postumamente por Chávez, em seguida); note também Evo Morales, mandatário da Bolívia desde 2006 e concorrendo para permanecer como tal até 2020, na expectativa deslavada de ficar a frente do país por 14 anos. Isto jamais pode ser bom, em lugar algum. Uma das premissas da democracia, para seu devido funcionamento, é a alternância das forças no poder.

 

O Foro de São Paulo foi criado como alternativa ao declínio da URSS, uma organização das esquerdas do terceiro mundo latino-americano para reagirem ao evento. Funcionou. Eles reagiram, construindo uma case de sucesso e tanto. Considerando apenas países que ainda governam, elegeram: Lula e depois Dilma Roussef no Brasil; Néstor Kirchner e depois sua esposa, Cristina, na Argentina; Lucio Gutiérrez, posteriormente expulso do eixo, e depois Rafael Correa no Equador; Hugo Chávez e, somente após sua morte, porque senão estava lá até agora, Nicolás Maduro (Venezuela); Evo Morales (Bolívia); Daniel Ortega (Nicarágua); Tabaré Vázquez e depois o queridinho do mundo, José Mujica, no Uruguai; Michele Bachelet, recentemente, no Chile; Ollanta Humala, também recentemente, no Peru; e Mauricio Funes e depois Salvador Sánchez Cerén em El Salvador. Fora os eternos Fidel e Raul Castro, que vão mandar em Cuba até morrerem.

 

O Foro é como uma internacional comunista regional, banhado em nacionalismo vitimizado – coisa de país colonizado para exploração. Esse nacionalismo, mesclado ao marxismo que ainda creem seus integrantes, deu origem ao principal fenômeno político da atualidade na região, o tal Bolivarianismo. Tão vivo e claro, quanto água, no PT.

 

E para mencionar o resto do mundo, no que se refere ao curso dos comunistas de outrora e seus novos nomes e bandeiras, podemos citar o eurasianismo russo e o movimento que deu origem ao próprio Barack Obama – que, segundo querem fazer crer, só é chamado de socialista por loucos, mesmo que recursivamente assuma medidas socializantes, como o ObamaCare.

 

Em relação a Rússia, de Putin, podemos notar que são ex-agentes da KGB que governam e que dos tempos antigos herdaram as técnicas de controle social e manutenção de poder – o Eurasianismo vem à reboque como nova ideologia para abocanhar corações e mentes. Utilizando, também, de um ideário nacionalista, só que macro, oriental, com toques de vitimização para com a atuação ocidental em “suas fronteiras”. Muda o conteúdo, permanece a forma.

 

Já no caso de Obama, bom, é tudo mais complexo e motivo de estudos mais aprofundados, o que não impede, porém, que indique dois nomes que servirão de caminho para qualquer um que queria pesquisar a respeito: Saul Alinsky e Bill Ayers.

 

O comunismo reencarnado, se aproveitando daquilo que se provou mais eficiente ao longo do tempo, o mercado, tem hoje o 2º maior PIB do mundo (China), a segunda maior potência bélica (Rússia) e o controle político de um continente quase inteiro (América do Sul), além de, por conta de outro judeu anti-capitalista, Saul Alinsky – Marx também o era –, não provocar mais aversão completa no líder da maior potência de todas.

 

Temos que dormir com o fato de que aquilo que foi considerado como derrota do comunismo no século passado, a queda do Muro de Berlim, talvez possa ter surtido o efeito exatamente contrário do que indicou. Com maior fluidez, o movimento ganhou diversos novos nomes, rostos e bandeiras. Aqueles sujeitos, teoricamente derrotados pelo Ocidente-capitalista-tudo-de-bom, não morreram, afinal, e haveriam de fazer algo da vida. Fizeram, e muito bem feito, bem como juntaram-se a outros com ideias igualmente anti-capitalistas e não necessariamente socialistas/comunistas (o caso do grupo do Alinsky).

 

E tudo isto já é denunciado no Brasil há anos, por Olavo de Carvalho e outros, pena que o povo não lê.

Fernando Henriques
Idealizador e editor desta revista, Fernando Henriques é um consumista informacional. Formado bacharel em Ciências da Computação, encontra na Comunicação um elo natural. Viciado em séries, filmes, rock, MMA, política e desafios.

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  • Ariel Russo

    Decepcionante,li algumas materias até que boas, mas nesse não falou nada, parece

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      Você tem alguma razão.O texto aborda um tema complexo demais e não tem argumentação suficiente capaz de passar a mensagem que quer passar a qualquer pessoa que o leia, estando sem os mesmos pré-requisitos do autor – eu, no caso.

      Mas, estou aqui, caso queira tirar dúvidas.