O protagonismo feminino no universo das HQs

O protagonismo feminino no universo das HQs

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Nas últimas décadas o universo das HQs veio acompanhando as transformações sociopolíticas da nossa história e os quadrinhos começam a aprofundar em temas como as construções de estereótipos de gênero, diferença entre os sexos, o lugar social do negro e da mulher, sexualidade, etc. As HQs são parte da Cultura Pop, consequentemente, produtos de uma cultura de massa que reproduz sentidos e valores da sociedade.

 

Falar de feminismo, representatividade feminina e igualdade de gênero geralmente provoca desconforto devido à intolerância com a causa, à resistência ao debate de pautas feministas ou mesmo ao desconhecimento sobre os ideais do movimento e o que ele representa. Entretanto é significante refletir sobre o que podemos testemunhar nos quadrinhos.

 

Um artigo publicado pela FiveThirtyEight, faz um levantamento de dados com as duas grandes editoras de HQ, no ano de 2014. Os dados nos dizem que:

  • Dentre mais de milhares de personagens, apenas 29,3% dos personagens da DC Comics e 24,7% da Marvel Comics são mulheres.
  • Dentre os personagens que verdadeiramente têm destaque, com mais de 100 aparições, apenas 29% da DC e 31,1% na Marvel são do sexo feminino.
  • A percentagem de mulheres trabalhando como artistas nos quadrinhos no ano de 2014 são de 10% na DC e 8,9% na Marvel.

 

O que isso quer dizer? Que o mundo das HQs, quando falamos das maiores editoras, ainda é majoritariamente masculino. Histórias feitas por homens, sobre homens e para homens. O interessante é que isso vem mudando gradualmente nos últimos anos, até porque, mulher também gosta de histórias em quadrinho e também quer se ver representada com personagens tão complexos, poderosos e relevantes quanto os masculinos.

 

Mulheres sempre apareceram nas HQs de super-heróis, mas em um primeiro momento como personagens coadjuvantes, de sexo frágil, auxiliares ou vítimas das armações dos vilões. Nunca haviam tido poder fálico e somente quando a onda feminista tomou o mundo que esse cenário começou a mudar. Entre os anos de 1930 e 1940 o movimento feminista deu início às suas lutas por direitos igualitários, como o direito a votar e se candidatar a cargos políticos, o direito a ingressar em instituições de ensino e o direito a participar do mercado de trabalho. Finalmente, em 1941, William Moulton Marston constitui uma inovação ao publicar a história da super-heroína Diana Prince, a Mulher Maravilha.

 

A primeira protagonista feminina nos quadrinhos

 

A Mulher Maravilha representa uma mulher inteligente, perspicaz, corajosa, guerreira e forte, assim como são muitos heróis masculinos. Diana se desenvolveu com tamanha importância e poder que em 1943 na capa da edição nº 07 ela ilustrava como uma candidata à presidência dos Estados Unidos no futuro. A representatividade da Mulher Maravilha foi tão positiva que ela se tornou mais tarde um símbolo do feminismo norte-americano.

 

A diversidade dos X-men

 

Como dito anteriormente, o mundo dos quadrinhos é ferramenta para abordagem de questões pertinentes à sociedade como um todo. Foi em 1963 que Lee e Kirby introduziram os mutantes de X-men, fazendo referência à diversidade de uma forma ampla ao tocar em diferenças sociais, étnicas, políticas, culturais, etc. Algumas super-heroínas mutantes ganharam papel de destaque, tendo função de exaltar a mulher em uma sociedade dominada por homens. A primeira heroína do grupo do Prof. Xavier foi Jean Grey que junto com Tempestade soma dois exemplos de super-heroínas relevantes do universo da Marvel.

 

As poderosas heroínas do Universo Marvel

 

A ficção dialoga com o contexto sócio-cultural da sua época e em 1968, no topo da segunda onda do movimento feminista, Roy Thomas e Gene Colan nos presenteiam com Carol Danvers. Refletindo o esforço das mulheres de se inserirem no mercado de trabalho, Danvers tinha o sonho de ser piloto e por mérito próprio consegue posto na Força Aérea Americana. Sua representatividade continua firme após ganhar os superpoderes de kree de Mar-vell, o Capitão Marvel, e se tornar a Ms. Marvel em 1977.

 

Saindo do passado e voltando para o presente. A quantas anda o protagonismo feminino nas HQs? Aparentemente investir nos enredos estrelados por heroínas está em alta. No começo de 2015 a Marvel Comics e a DC Comics publicaram por volta de 26 títulos regulares protagonizados exclusivamente por personagens femininos proeminentes.

 

Atualmente na DC Comics:

  • A HQ da Arlequina atingindo o top 10 das mais vendidas do mês nos EUA.
  • Mulher Maravilha no combate a obsessão com o corpo da mulher
  • Mulher-Gato é chefe do crime em Gotham.
  • Lanterna-verde mulher.
  • Batgirl reformulada e porta-voz com o público jovem.

 

As mulheres da DC

 

Atualmente na Marvel Comics:

 

  • Thor mulher com HQ atingindo top 10 das mais vendidas do mês.
  • Jean Grey protagonista de All New X-men
  • Gamora, Viúva Negra e Capitã Marvel ganhando destaque.
  • Ms Marvel mulçumana usada como símbolo de luta contra islamofobia.
  • A-Force, time de Vingadoras totalmente formado por mulheres, como parte da saga Guerras Secretas.

 

O time feminino de Vingadores

 

O investimento no protagonismo feminino não ficou restrito às HQs. Nos meados deste ano a DC Comics lançou um livro infantil chamado My First Book of Girl Power, com ilustrações de várias heroínas como Batgirl, Mulher Maravilha, Mulher Gavião e Supergirl. O livro tem o objetivo de ensinar a meninas E meninos o valor do poder das mulheres.

 

Livro da DC dedicado a ensinar o valor das mulheres

 

Após bastante divulgação, na última segunda-feira, dia 26 de outubro, estreou Supergirl, série produzida por Greg Berlanti (mesmo produtor de Arrow e The Flash).

 

Com 14 milhões de espectadores durante a exibição do episódio piloto e alta avaliação, a série conta a história de Kara Zor-El, prima do Superhomem que tem EXATAMENTE os mesmos poderes do primo. Supergirl ficou em primeiro lugar entre as séries que estrearam nesta Fall Season, seguida de Blindspot (também de Berlanti e também de protagonista feminino) e tem como aposta usar Kara como modelo e inspiração para jovens meninas.

 

Kara tem a missão de ser a grande referência pra toda uma geração de meninas

 

Ainda nesse mesmo mês já podemos assistir o trailer da nova série que irá estrear na Netflix e também protagonizada por uma poderosa: Marvel’s Jessica Jones. A série é sobre uma ex-heroína que tenta reconstruir sua vida se tornando uma investigadora. Além da expectativa que o trailer deixa para a série que ainda vai estrear, os cinemas também prometem para os próximos anos. A previsão é de filme solo da Mulher Maravilha para 2017 e Capitã Marvel para 2018, mas vamos ter uma prévia da Diana Prince ano que vem com Batman vs Superman – Origem da Justiça.

 

Opinião

 

É possível concluir que a o papel feminino nas revistas em quadrinho comparado ao papel dos personagens masculinos ainda está desigual em número e o ambiente ainda é bastante hostil com as mulheres, mas que progresso está sendo feito. Os exemplos acima mostram que há sim público para gerar audiência e lucro com as histórias protagonizadas por mulheres. O gosto feminino pela arte em quadrinhos mostra que as HQs podem ser criadas por homens e mulheres, com homens e mulheres, para homens e mulheres. Basta esperar e torcer que a inclusão continue.

 

 

Aline Gomes
Aline "Linne" Gomes, pseudo-cinéfila com guilty pleasures literários, colecionadora de informações inúteis e estudante nas horas vagas. As únicas fotos de café e gatos que gosta são as próprias.

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