O papel sempre central da Alemanha na Europa

O papel sempre central da Alemanha na Europa

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A Alemanha traz em sua história uma questão de rivalidade com a França até por questões fronteiriças, antes de políticas. Em 843, pelo Tratado de Verdum, o território de Carlos Magno foi dividido entre seus filhos e o Rio Reno foi utilizado como papel central divisor dos territórios. Mas antes disso, havia as muitas tribos germânicas de bons lutadores e grandes vencedores, são os Bastarnas, Burgúndios, Godos, Tervíngios, Greutungos, Visigodos, Ostrogodos, Godos criméios, Gépidas, Rúgios, Esciros, Vândalos, Héruleos, Lombardos…

 

Há quem diga, como Karl Deutsch, que o sentimento de nacionalismo de forme pelo sentimento de geral de um povo por um inigimo em comum. Nada melhor que a rivalidade entre Alemanha e França, neste contexto.

 

França foi um país que se centralizou em torno de sua Côrte antes de tantos outros europeus, ao lado da grande Rússia e da Grã-Bretanha. Essa tríade era contrária à Unificação Alemã. Mas porquê? Se analisarmos a questão de localização da Alemanha, central na Europa, notamos que seria inevitável que alianças fossem feitas para impedir a força da união da região dos povos germânicos. França com medo de um vizinho forte, Rússia com medo de que atrapalhasse suas expansões pelos balcãs, Grã-Bretanha com medo de uma grande potência naval e terrestre surgir no centro do continente e roubar todo o mercado e influência que esta sonhava em conquistar para manter seu pioneirismo industrial.

 

O medo era bem real. A Alemanha, unificada em 1871 disputou territórios na Primeira Guerra Mundial, como a segunda maior marinha do mundo, colada na Grã-Bretanha. Aliás, foi a Alemanha quem deflagrou a guerra.

 

Destruída e ameaçada, a Alemanha se reergue, influencia movimentos fascistas, porém, volta das cinzas como uma grande potência, novamente.

 

Dividida durante a Guerra Fria, sob diversas restrições e punições, a Alemanha, dividida em Ocidental e Oriental, onde parte se une à nova potência, os EUA e entram no guarda-chuva de segurança da OTAN, adere ao modelo capitalista e avança ao desenvolvimento, enquanto a outra parte, a Alemanha Oriental, sob influência socialista da ex-União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, que acaba por ficar atrasada com relação ao lado ocidental, capitalista e com o consumo a todo vapor. E assim a Alemanha fica lá, dividida por 45 anos.

 

Reunificada em 1990, em questão de 20 anos, volta ao papel central da Europa e hoje, líder economicamente no bloco, influencia inegavelmente as posições e decisões dos países membros do bloco. Com as decisões de Merkel de abrir as portas para os imigrantes refugiados dos conflitos sírios, a Alemanha entra como papel central na questão de segurança, economia e tolerância a outros povos, este último como uma questão central no caso de a Alemanha ter perseguido judeus durante a Segunda Guerra.

 

A questão que fica a ser discutida é, se o número de imigrantes favorece uma falta de mão de obra jovem para manter as previdências dos idosos num futuro não muito distante, colabora para passar uma borracha em seu passado negro de fascismo e perseguições a outros povos ou, se traz insegurança às suas mulheres, vítimas de ataques recentes sexuais, aos países vizinhos, vítimas de terrorismo, facilitado pelos vistos cedidos aos imigrantes pela Alemanha, onde muitos terroristas infiltrados adentram despercebidos; se causará uma crise econômica maior do que a recessão atual… ou se veremos um ressurgir de pensamentos e movimentos de intolerância entre os povos.

 

É inegável o papel que a Alemanha representou no âmbito de xenofobia e intolerância religiosa. Será que o estigma voltará a trazer marcas ao povo alemão, que tanto tenta se livrar do seu passado?

 

Será um momento de revés na política alemã dentro do bloco europeu? A Alemanha representa a liderança no bloco, mas as decisões a respeito dos refugiados, apesar de serem extremamente de acordo com as causas humanitárias, podem trazer um grande revés ao equilíbrio do bloco europeu, que está a passos de quebrar. É irreversível esta decisão alemã de abrir as portas, mas agora, esta terá poder de manter esta decisão?

 

São estimados gastos de 17 bilhões com Defesa para este ano na Alemanha. Estes gastos são sustentáveis para com o bloco? O país caminha para um levante ainda mais triunfal na Europa, ou caminha para o fracasso e a humilhação? Além disso, ajudas econômicas para países como Iraque aumentam mais ainda os gastos…

 

Este último fim de semana, houve a 52ª Conferência de Segurança em Munique, onde foram discutidos temas como Boko Haram, que jurou lealdade ao ISIS ano passado, onde hoje, é o grupo responsável por mais óbitos que o próprio ISIS, a questão da Ucrânia e principalmente, da Síria. Foi debatido a questão levantada por Medvedev, de que parece que o mundo está enfrentando uma nova Guerra Fria, onde a Rússia não passa um dia sem ser vista com uma ameaça real à OTAN. Caros, estamos vendo a Rússia fazer nada mais nada menos que defender seus interesses, assim como os EUA sempre o fizeram. Isso é o realismo. EUA nunca deixaram de fazer alguma coisa por qualquer veto no Conselho de Segurança, assim como o fizeram com a Guerra do Iraque. Aliás, diz-se que tropas americanas foram retiradas do Iraque, mas, atualmente existem alguns mil homens lá… curioso.

 

Algo interessante foi quando o secretário de Estado norte-americano John McCain disse que a ordem mundial que o ocidente havia criado estava desmoronando, ou seja, o mundo está sim vivendo uma grande mudança. O poder norte-americano não é mais o mesmo embora seja ainda o maior, porém, voltamos a ver Rússia desafiando a hegemonia norte-americana, fazendo aquilo que satisfaz melhor aos seus interesses, sem hesitar por causa da supremacia norte-americana.

 

Estamos vivendo um período turbulento, de impacto global. A questão do Oriente Médio vaza às suas fronteiras e começa, aos poucos, a formar alianças entre os países e a muda rumos da história. O combate ao Estado Islâmico se inicia pelos próprios que financiaram sua criação. A Alemanha, tão grande para a Europa e tão pequena para o mundo, como disse Kissinger, ainda está no centro da história, forte e resiliente.

Domie Lennon
Pesquisadora em ciências políticas e econômicas, leva a UFRJ no coração e papel e caneta nas mãos. Escritora aqui na Feedback Magazine e na Obvious Magazine. Gosta de rock, cinema, é flamenguista, petropolitana, perdida e sem foco, adora escrever e não tem dúvidas de que a música e o conhecimento nunca serão demais. Estuda todos os idiomas que estão a seu alcance e não resiste a parar para ouvir franceses conversando na rua. C`est tout!

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