O MMA está chato

O MMA está chato

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Este ano o UFC fez 20 anos. A festa de comemoração, claro, é um evento repleto de estrelas: Georges St. Pierre defende seu cinturão contra Jhonny Hendricks, Chael Sonnen faz o co-main event contra Rashad Evans e ainda outros bons nomes. São vinte anos que se misturam com a história do MMA em si, que se expandiu e ganhou o mundo junto com a organização. Com sua hegemonia, o UFC padronizou o MMA, mas não vejo nisso essas flores todas que vendem por aí.

 

O esporte cresceu sim, mas foi podado também. O UFC não tem culpa alguma nisso, antes que imaginem algo parecido, apenas faz sua parte, faltam as outras partes, que os novos fãs sequer imaginam quais poderiam ser, vide a unicidade atual.

 

“Padrão”, a chatice vem daí. Incomoda existir um padrão e nada fora dele. Até os árbitros e juízes vem atuando de forma padronizada. Fosse ainda este padrão mais familiarizado com as raízes do esporte, até amenizaria minha crítica, mas não, é constituído de conceitos recentes, construído a pouco, dado totalmente ao lado mais esportivo e menos marcial do que se entende por luta. Em outras palavras, na migração do Vale-Tudo para o MMA, afrouxamos bastante, todos nós, de fãs a profissionais do esporte, lutadores ou não.

 

Hoje, no herdeiro do antigo Vale-Tudo, não vale muita coisa. O tão louvado e pretendido padrão nas regras ultrapassou a regras somente e formou uma nova cultura no meio. Com isso, o esporte que se criou na diversidade agora beira a monotonia.

 

É possível enxergar o resultado dessa nova cultura observando o “mantra” de qualquer evento atual: Lutadores iguais em estilo e estratégia, que tentam as mesmas finalizações e as mesmas quedas; árbitros que interrompem a luta cedo demais, como se bater e apanhar fosse coisa feia; comentaristas que sempre concordam e não dizem muito mais do que você já sabia; golpes ilegais como nunca se viu; além da irritante desvalorização da luta de solo e supra valorização da trocação – basta 10 segundos de menor movimentação no solo para o árbitro já bater palmas e pedir ação.

 

Afinal, quando dois lutadores sobem no octógono (ringue ninguém quer saber mais) a intenção principal é se sobrepor física e tecnicamente ao adversário ou dar um show aos fãs?

 

Só se fala em show no MMA. As regras visam o show, o árbitro quer show, os lutadores querem dar show, os jornalistas querem destacar o show… Nem parece que o papo são lutas reais. Show dava Bruce Lee em seus filmes, Van Damme também. Um dia o mundo enjoou deles, logo depois de, vejam só, verem lutas reais num tal de UFC.

 

Falta realidade no MMA atual. Por vezes, temos a certeza que se apenas deixássemos os dois caras que acabaram de lutar 15 minutos, divididos por três rounds de cinco, lutarem até um não aguentar mais, o vencedor não seria aquele apontado pelos juízes.

 

Isso não é bom. É a esportividade, no sentido burocrático e regrado, falando mais alto do que a marcialidade que envolve uma luta. Não é balé, não é ensaiado, é luta, porrada! Foi por isso que BJ falou que ele era lutador e Georges St. Pierre um atleta, antes da segunda luta entre os dois. Captei perfeitamente sua mensagem, e foi uma pena ele ter perdido antes mesmo do quinto round (o que não interfere na questão).

 

O próprio termo “luta” foi esvaziado com a padronização e popularização do MMA. Antes, dizíamos que treinar e lutar boxe ou kickboxing era interessante, mas para “fazer um Vale-Tudo” o lutador precisava de algo mais. Não me parece mais assim, hoje existe uma fórmula, um estilo MMA de lutar, que subtrai o “mix” que inicia a sigla. MMA não pode ser um estilo de luta, um cara não pode chegar hoje e treinar MMA. Isso deturpa o próprio conceito da coisa, derruba a premissa de mistura de artes marciais. Não é uma mistura real, é um resuminho de duas ou três, adaptadas ao local do combate. Em suma, uma nova “arte”.

 

Perdeu metade da graça, com isso. Por isso digo que temos muitos lutadores iguais. Os mais novos não vieram de uma carreira sólida em outra arte, eles simplesmente treinam esse resumo de técnicas e se lançam ao octógono. As regras, que formam a cultura do esporte, não deveriam favorecer a proliferação desse lutador “castrado”.

 

Até para a escolha da divisão de peso parece existir um padrão a seguir. A condição fisiológica única de cada lutador, como ser humano, dá espaço a análises profissionais de altura, alcance e estrutura, a fim de enquadrar cada um na categoria que teria mais vantagem, baseado nos padrões dos tops de cada categoria à época.

 

Esse enquadramento é importante, considerando as diferenças de peso entre as divisões, o problema é que praticamente nenhum lutador luta sequer em categoria próxima de seu peso de origem. E a julgar pelos brasileiros que migram para o UFC, todos já chegam imaginando trocar de categoria em busca de obter vantagens físicas. Mas a questão é: nem sempre é isso que acontece. A mágica não funciona para todo mundo, tão bem. Tenho a impressão que a grande maioria dos lutadores se sairia melhor lutando em categoria mais próxima de seu peso original. Do contrário, Gleison Tibau deveria ser o melhor entre os leves, visto o brutal corte de peso que faz a cada luta, nítido na “carcaça” sempre superior a dos adversários, e não é bem assim. Cain Velasquez é outro exemplo. O campeão peso-pesado do UFC poderia facilmente cortar peso e lutar até 93kg, mas isso não seria necessariamente o melhor para ele. Nos pesados ele é o cara mais rápido, mais até que Cigano, outro pesado leve, conforme vimos nas duas últimas lutas entre eles.

 

Velásquez é exemplo também para quem exalta o show em detrimento da eficiência. Na trilogia com o brasileiro Cigano, mostrou que não teme lutar feio e fazer simplesmente o certo para obter a vitória.

 

Tibau, o melhor em cortar peso, não é o melhor da categoria. Frankie Edgar já foi.

Tibau, o melhor em cortar peso, não é o melhor da categoria. Frankie Edgar já foi.

 

No caso dos brasileiros, cortar peso parece ter substituído as desculpas na hora da derrota. A categoria de baixo será sempre uma melhor “casa”. A prática tem se tornado quase um vício, uma moda entre os lutadores tupiniquins. A maioria não entendeu que isso não faz parte da nossa cultura esportiva, não combina com os atletas que fabricamos por aqui, versados principalmente em Jiu-Jitsu. Os wrestlers americanos fazem isso desde sempre, nós não, eles sabem copiar as coisas certas de nós, já o contrário não acontece.

 

Quando assistir algum evento nacional e notar algum lutador mais talentoso, ao enquadrá-lo no nível internacional, exercício comum dos fãs, lembre-se de considerar uma, as vezes duas, categorias abaixo. É o que geralmente acontece.

 

Até o Combate, canal pago especializado em lutas, nem isso é mais. É especializado em UFC, “a emissora oficial do UFC no Brasil”. Eventos japoneses, outros eventos americanos, eventos de kickboxing, não querem mais saber. É UFC para todo lado, variando somente se a ZUFFA resolver comprar alguma nova organização. Aí ficaremos com os tapes.

 

Enfim, das regras a quantidade de organizações, de treinadores a lutadores, a diversidade que tanto me atraiu no início desse maravilhoso esporte, aos poucos foi sendo abandonada em prol do que chamam de “profissionalização”. Prefiro chamar de “monotonização”.

 

Ok, continuarei um fã hardcore, que assiste tudo quanto é evento e lê as notícias hora a hora, que acompanha outros esportes vinculados ao MMA e outras produções que cercam o meio (documentários, realitys), mas seguirei torcendo em silêncio por novos ares. E que venham em breve!

 

P.S.: Existe uma grande chance do chato ser eu mesmo, mas acredito que quem viveu o tempo onde o MMA tinha dois pólos completamente distintos e independentes – PRIDE e UFC – vai me entender.

Fernando Henriques
Idealizador e editor desta revista, Fernando Henriques é um consumista informacional. Formado bacharel em Ciências da Computação, encontra na Comunicação um elo natural. Viciado em séries, filmes, rock, MMA, política e desafios.

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  • Danyel P Lorenzo

    Concordo em partes.

    É inegável que a profissionalização do esporte o deixe um
    pouco mais monótono, obviamente os atletas de hoje não são os guerreiros de ontem. Mas quem iria aguentar levar a rotina do lutadores de antigamente. O próprio Royce desistiu do seu tri campeonato, por não aguentar lutar sua última luta no GP do UFC.

    Arona após esmigalhar a mão na cara do Wanderlei, teve sua faixa preta questionada por ter sua guarda passada, até então pelo faixa marrom Shogun, naquele fatídico GP na época áurea do Pride. Eu adorava os GPs, mas não há lutador que aguente foi uma época boa mas
    hoje em dia não cabe mais. Isso é profissionalização, capitalismo e
    crescimento. Nós gostamos de eventos de qualquer espécie, somos amantes de lutas, mas para a luta ser lucrativa, precisa de mais do que alguns amantes, precisa atingir a massa. E assistir uma luta de 15 minutos, onde os lutadores acabados não davam nem um soco por minutos não é para qualquer um. O UFC tem seus méritos e seus defeitos, como qualquer grande empresa, o show faz parte mas não podemos negar que se não fosse Dana White e sua trupe ainda estaríamos atrás de VHS, ou esperando o que o Marinho e a Ana Hissa nos salvassem com suas reportagens, em um pedacinho de programa nas madrugadas da SporTV.

    Coluna sempre show.

    Abração,

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      Realmente, Danyel, os GPs se perderam no tempo e não caberiam de forma alguma no nível de competição de hoje. Talvez somente nos moldes do PRIDE – se for para ter mais de uma luta numa noite, que seja somente a semi-final e final. Ainda assim, não é uma fórmula boa para o EUA.

      Claro que o UFC foi importante e o padrão que eles imprimiram popularizou o esporte, reconheci isso no texto e não quis diminuir o feito do Sr. White e sua turma, que são ótimos em marketing e afins. O grande problema é que ninguém parece querer promover eventos nos moldes (culturais) mais antigos. Todo mundo quer ir pelo caminho do UFC, falta um pouco de coragem. E falta os japoneses, principalmente. O UFC pode até chegar bem na Ásia, mas para lotar um Saitama Super Areno com 60 mil pessoas como antigamente, é preciso um evento mais próximo da cultura marcial deles.

      O grande João Alberto Barreto lançou um livro recentemente que postula uma crítica similar.

      No mais, obrigado pelo comentário e elogio.

  • Douglas Eduardo

    Nunca gostei disso. Sei lá, na época que começou a fazer sucesso, parecia esporte de playboy de apartamento.
    Embora haja uma coisa ou outra legal, prefiro o meu boxe.
    E sim, eu já tentei assistir lutas de MMA mas sempre achei que ele parecia agradar um outro tipo de público que eu não estava inserido.

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      Provavelmente essa época a que você se refere em relação ao sucesso do esporte é um tempo recente, onde a sigla atual MMA já é mais popular que o antigo nome, “Vale-Tudo”. Fosse este momento meados da década de 90, você jamais se atreveria a comparar tais lutas com algo para “playboys”. E ainda hoje isso é um erro de percepção.

      Sim, hoje o esporte é mais ameno e regrado, porém ainda é o mais próximo que temos de um combate real. Ok, não é para você (não entendi a questão do público em que está inserido e que não faz o tipo do MMA), curte mais o Boxe, que é também um esporte ótimo, mas dizer que é para “playboy de apartamento” é demais. Soa como se fosse coisa para molengas, e se você curte boxe, sabe que o MMA é bem mais complexo, competitivo e menos molenga.