O Guia e a Matemática das Prévias Americanas

O Guia e a Matemática das Prévias Americanas

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As previas para escolha dos candidatos a presidente começaram na América. Em artigo passado, tratamos a possibilidade de o candidato oriundo da cultura pop conquistar a preferência do universo de eleitores que se entende mais conservador, tudo segundo a “profecia” de Bill Whittle. Nesse procuraremos demonstrar como ocorre o processo e que contas os candidatos podem fazer.

 

As primeiras prévias, no estado de Iowa (1º de fevereiro), terminaram com um empate técnico no partido Democrata entre Hillary Clinton (49,8%) e o professo socialista Bernie Sanders (49,6%). Ainda assim, a candidata carrega 23 delegados (decididos até no cara ou coroa), contra 21 de seu adversário, para a convenção do partido em julho. O’Malley, com 0,6% dos votos, não obteve delegado algum e abandonou a disputa.

 

Do lado Republicano, Ted Cruz, o candidato da proposta de flat tax de 10% (que levaria ao fim do IRS, a Receita Federal deles), apoiado pelo movimento conservador Tea Party, obteve a maioria (27,7%) dos votos e “derramou o primeiro sangue”. O enorme contingente de voluntários garantiu a mobilização necessária para levar oito delegados à convenção do meio do ano. O fenômeno Donald Trump (24,3%) e o senador pela Flórida, Marco Rubio (23,1%), obtiveram sete. O neurocirurgião Ben Carson (9,3%), sensação do início da corrida, mas carente de substância e “energia” no acirramento dela, esvaziou e terminou Iowa com três delegados.

 

Rand Paul, filho do médico mais conhecido pela sua “pregação” econômica, Ron Paul, obteve apenas um delegado (4,5%) e também desistiu (sendo um libertário, assim como seu pai, deve “transferir” a maioria dos votos que faria nas prévias seguintes à Ted Cruz, ainda que o entendimento de um libertário sobre a função do Estado, ou mesmo da própria existência do mesmo, seja conflitante com os posicionamentos da política externa conservadora).

 

Jeb Bush, ex-governador da Flórida, irmão do ex-presidente George W. Bush e, até então, candidato preferido da executiva do partido Republicano (espaço que aos poucos Rubio deve ocupar) obteve um delegado com seus 2,8% de votos.

 

Ok, isso todo mundo sabe e estampou os jornais na última semana. Mas que cazzo são esses delegados, por que existem e o que fazem nessa dita convenção?

 

Por Que?

 

Ativistas dos partidos, políticos locais ou membros de comitês de cada candidato ganham delegação a partir das votações estado a estado para, com isso, representar a sua federação na convenção nacional. A escolha em primárias não é necessariamente um processo equivalente à tradução das pesquisas nacionais. O partido escolhe seu candidato, não o público. Tal processo é desenvolvido para que aquele que concorra à presidência efetivamente represente o que defende a agremiação. O trabalho de partidos também consta em uma agenda de convencimentos, não apenas na tradução do espectro médio do entendimento popular.

 

A corrida emula de muitas formas o que será o confronto com o candidato final do outro partido e, então, “depura” aquele mais resistente a ataques, com militância mais engajada e maior capacidade de terminar vencedor em novembro. Não traduz necessariamente “o melhor”, mas aquele que possui maior chance de vitória “em potência”, sob condições de desgaste e diferentes cenários em cada ente da Federação.

 

Também existe para que as diretorias executivas dos partidos tenham algum tipo de controle e interferência sobre o nome final. Por exemplo: a última vez que o establishment do partido republicano não emplacou o seu principal candidato (ou um candidato que, ao menos, tenha um ideário em convergência com a executiva da vez) foi em 1964, quando Barry Goldwater derrotou Nelson Rockfeller.

 

O desenho com que foi concebido, estado a estado, no decorrer de meses, e pelos motivos citados acima, colabora para um afunilamento e desistências, polarizando a disputa. No mais constante, chegamos em junho com um candidato definido antes da convenção.

 

Convenção republicana que começa com alguma dúvida sobre o candidato não ocorre desde 1976, quando o presidente Gerald Ford (assumindo após a renúncia de Nixon) derrotou Ronald Reagan. No lado democrata, ainda mais distante: 1960, quando delegados enfrentaram uma nomeação disputada por John F. Kennedy contra Lyndon Johnson e Adlai Stevenson.

 

Votação

 

Tecnicamente há uma diferença entre “primárias” e “caucus”, os dois modos de tiragem de delegados. A maioria dos estados realiza primárias, que são eleições diretas, com urna e votos secretos. Primárias podem ser “abertas” ou “fechadas”. Na primeira opção, qualquer cidadão residente no estado pode votar, ainda que não filiado ou mesmo filiado em partido rival ao que está tirando delegações (não parece adequado, mas tem funcionado bem para eles. Se assim fosse no Brasil, estaria eu nas primárias do PT votando para que Sibá Machado, ou Suplicy, fosse o candidato). Nas “fechadas”, apenas eleitores locais e filiados.

 

O caucus ocorre em forma de assembleias (ou reuniões preliminares) e em etapas. São votados de modo aberto e visível nessas assembleias menores, que ocorrem em escolas, ginásios ou prédios públicos. Há a designação de delegados dos condados, dos distritos, para, então, chegarem aos delegados do Estado, que serão os participantes das convenções.

 

As caucuses estão se tornando menos frequentes e mais estados aderem ao modo das primárias. Idealmente, um debate aberto, público, em forma de assembleia, foi o modo original concebido para a república da América operar – em maior ou menor contingente. A própria fundação do país começa num formato mais ou menos assim. Em anotação em seu diário, que consta em fevereiro de 1763, John Adams já faz uso do termo com sua conotação moderna: uma sala cheia de fumaça onde candidatos para eleições públicas eram pré-selecionados de modo privado:

 

This day learned that the Caucas Clubb meets at certain Times in the Garret of Tom Daws, the Adjutant of the Boston Regiment. He has a large House, and he has a moveable Partition in his Garrett, which he takes down and the whole Clubb meets in one Room. There they smoke tobacco till you cannot see from one End of the Garrett to the other. There they drink Philip I suppose, and there they choose a Moderator, who puts Questions to the Vote regularly, and select Men, Assessors, Collectors, Wardens, Fire Wards, and Representatives are Regularly chosen before they are chosen in the Town…

 

Entretanto, com os milhões participantes atuais, o modelo foi perdendo espaço. A lista final de delegados e sua filiação é pública, assim como o resultado de suas votações locais.

 

Audiências e assembleias públicas estão na essência da criação da América. Diferente de conspirações de gabinetes, as caucuses promoveram participação abrangente

Audiências e assembleias públicas estão na essência da criação da América. Diferente de conspirações de gabinetes, as caucuses promoveram participação abrangente

 

Modelo Democrata

 

4.764 delegados democratas escolherão seu próximo candidato a presidente, mas apenas 85% (4.051) desses que chegarão à convenção do partido, serão eleitos ao decorrer das primárias e caucuses. Diferente dos republicanos, existem 713 delegações concedidas aos ditos “superdelegados”.

 

Em 1984, ano que Walter Mondale foi esmagado pela reeleição de Ronald Reagan (que o derrotou em 47 dos 50 estados), o processo de nomeação foi alterado para incluir superdelegados – membros “oficiais” do partido eleitos para este fim e membros do parlamento. Em tese, esses delegados estão descompromissados com qualquer candidato, diferente dos eleitos nas primárias, e podem apoiar quem desejarem na convenção – tornando a influência do establishment deste partido maior.

 

O modelo democrata foi desenhado para ser proporcional, mas, como quase tudo no sufrágio americano, tem alguma particularidade “exótica” para nós brasileiros: qualquer candidato que receba 15% ou mais dos votos recebe um número proporcionalmente equivalente de delegados deste estado. Se tiver menos que 15% (tal qual O´Malley semana passada) não leva delegado algum.

 

Modelo Republicano

 

Republicanos terão 2.472 delegados na convenção e os nomearão de três modos, elevando a complexidade de escolha ao paroxismo:

 

- Modo Proporcional: tal qual ocorreu em Iowa, a proporção de indicações recebidas por cada candidato se refletirá no número de delegados que este carregará. A margem de corte é 2%. Menos que isso, como por exemplo, Carly Fiorina, não recebem delegado algum.

 

- Modo Winner-Take-All: o vencedor carrega todos os delegados do estado, mesmo que tenha feito apenas um voto a mais que o segundo colocado. Ganhar a Califórnia, estado com maior número de delegados (172) e que funciona sob esse modelo, produz um resultado desproporcional no peso da escolha. Mais de 10% dos delegados necessários são conquistados pelo vencedor, mesmo que tenha ocorrido um empate técnico.

 

- Modo Híbrido: como se já não fosse suficiente, há uma mistura dos dois modos acima. Um proporcional, mas com índice fixo para o vencedor. Por exemplo, Texas (155 delegados): o vencedor fica com 50% dos delegados e a outra metade é dividida entre os demais candidatos que atingiram pelo menos 2%. Até a indexação é variável estado a estado, como Minnesota, que adota 85% para o vencedor, e Tennessee, que pratica 66%.

 

O resultado das primárias e caucuses influenciam, sobremaneira, os escrutínios e assembleias seguintes, a ponto de termos de relativizar as pesquisas nacionais na tentativa de aferir a força dos candidatos. Uma vitória na Carolina do Sul (50 delegados, modelo winner-take-all) colocará (ou recolocará, como Gingrich 2012) qualquer candidato no páreo.

 

Uma das inúmeras assembleias preliminares do caucus do partido Democrata, no estado de Washington (2008), ocorrendo em refeitório de colégio.

Uma das inúmeras assembleias preliminares do caucus do partido Democrata, no estado de Washington (2008), ocorrendo em refeitório de colégio.

 

Calendário

 

Preparamos uma planilha que comporta todos as primárias e caucus de ambos os partidos, em ordem cronológica (atenção para 1º de março, a “Super Terça”) com a quantidade de delegados por ente da federação, o modo de aquisição de delegados republicanos, e quantos superdelegados democratas constam, que, recordando, não serão escolhidos nessas datas.

 

 

Matemática Republicana

 

Como os Democratas já afunilaram sua disputa a dois candidatos e são caudatários do modelo proporcional, “não há” matemática a ser feita. Entretanto, ainda que não acredite nessa possibilidade, é bom que Bernie Sanders atinja um número significativo sobre Hillary entre os delegados eleitos, pois, quero crer, a maioria dos superdelegados já têm a sua opção.

 

Entre os republicanos, simularemos a conta a ser feita pelo senador Ted Cruz, vencedor do caucus de Iowa e candidato por quem o autor deste artigo está torcendo.

 

A nomeação requer 1.237 delegados. Destes, segundo estimativa feita por Ben Shapiro, 1.037 estão nos ditos “estados vermelhos” (aqueles em que os republicanos ganharam em pelo menos três das últimas quatro eleições presidenciais), onde Cruz tende a produzir mais apelo. Apenas 115 virão do modelo winner-take-all puro, que poderia gerar uma vantagem maior ao candidato mais conservador nos estados mais conservadores. Entretanto, apenas 309 vem de modo proporcional puro, onde divide delegações, tal qual no caucus do dia 1º deste mês. Para Shapiro, Cruz tem de sair desses estados com cerca de 800 delegados.

 

Nos estados roxos, em que há equilíbrio de tendência democrata e republicana, Cruz começou bem: ganhou Iowa. Nas demais federações entendidas neste espectro (Nevada, Flórida, New Hampshire, Ohio, Carolina do Norte e Virgínia) terá de conseguir, pelo menos, mais 90 delegados. Dos 324 delegados desses estados, 162 virão do sistema winner-take-all e Marco Rubio tende a arregimentar a maior parte, principalmente por seu domicílio eleitoral (Flórida – 99 delegados).

 

O modelo em que se convenciona alocar “cor” aos estados de acordo com a performance eleitoral dos dois principais partidos americanos.

O modelo em que se convenciona alocar “cor” aos estados de acordo com a performance eleitoral dos dois principais partidos americanos.

 

Nos estados azuis, onde há uma convergência mais ao “centro” e Democratas têm vencido, ocorrerá a tiragem de 778 delegados. Trump, que estará razoavelmente bem representado em todos os lugares e, principalmente, Rubio, terão vantagem sobre Cruz nesses locais – mais notadamente em Nova York. Cruz precisará sair desses estados com 200 delegados. Ou seja, provavelmente terá de vencer na Califórnia e arrebanhar todos os seus delegados para consolidar a candidatura.

 

New Hampshire, na próxima terça feira, 9 de fevereiro, deve contar com o “último tiro” de Jeb Bush. Com toda a família convocada, um resultado maiúsculo, ainda que não vitorioso, tende a manter o establishment do partido dividido entre ele e Rubio, o que favoreceria Ted Cruz, com baixos índices no estado e já mirando o winner-take-all da Carolina do Sul. Trump tende a confirmar favoritismo. Se não o fizer, vai começar a “desbotar” e a profecia de Bill Whittle não se confirmará, favorecendo, assim, o candidato apoiado pelo Tea Party.

 

Um processo com tamanha dinâmica, ainda que não saia daqueles que se esperava que estivessem na ponta, só trará um verdadeiro favorito após a Super Terça, com tiragem de delegados em 13 locais. Se a conta parece apertada para Ted Cruz, seus milhares de militantes voluntários, se forem fazer diferença, farão nesse dia, promovendo uma força de trabalho que dinheiro algum pode pagar. Agora, se não sair da Super Terça com significativa vantagem, não deve vingar.

Merlin A.
Engenheiro pela PUCPR e empresário em Curitiba.

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