O Futebol e o Mensalão

O Futebol e o Mensalão

4

Uma das coisas que mais me incomodam no comportamento do brasileiro, no que se refere à política, é esta mania de tratar de política como se trata de futebol. A pessoa escolhe um partido e/ou ideologia política para “torcer”, não faz muita questão de entender a teoria ideológica (aliás, os próprios partidos abandonaram a ideologia, pois não faz muita diferença mesmo), defendem seus partidos (ou atacam os outros) como se estivessem num campeonato, não questionam atos suspeitos dos membros importantes do seu “time” e o pior, mesmo com uma mudança na linha ideológica ou de discurso, parece que ficam com vergonha de “mudar de time”, de ser um “vira casaca” e continuam agarrados àquela escolha inicial, mesmo que ela não mais represente os seus ideais.

 

Isto sempre existiu no Brasil (aliás, em alguns outros países também, inclusive de primeiro mundo), porém, a coisa tomou uma proporção gigantesca com o advento da Internet e das redes sociais.

 

Vejamos todo o burburinho sobre a prisão dos condenados do caso chamado “Mensalão”.

 

À despeito das atitudes midiáticas e arbitrárias do ministro Joaquim Barbosa que, na minha opnião, não fazem bem para a instituição (judiciário), os réus do mensalão estão onde deveriam estar. Porém, seus simpatizantes e correligionários ainda continuam inventando desculpas (ou perpetuando mentiras a fim de que elas virem verdade). Vamos abordar algumas delas:

 

“Eles são inocentes” / “São presos políticos” / “Não existem provas” – lembro-me muito bem quando do estouro do escândalo (até porque fui um dos que se decepcionaram com o PT), a primeira coisa que os acusados fizeram foi dizer que “não era para compra de voto, era distribuição de caixa 2 de campanha”, ou seja, não alegaram inocência, apenas quiseram “trocar o crime” por um que teria pena mais branda e que, segundo as palavras deles mesmos, “todo mundo faz” (Mas não era o PT que iria fazer diferente?). Durante o processo, existiram provas materiais, testemunhais e circunstanciais que levaram à condenação. Apesar de quererem atrelar a decisão a uma só pessoa (o ministro Joaquim Barbosa), já que é mais fácil desqualificar uma pessoa do que várias, os réus foram julgados por um colegiado (cuja maioria foi indicada durante as gestões do PT!), tiveram ampla possibilidade de defesa num processo em que a própria defesa não procurou a absolvição (que seria muito difícil de provar), mas sim tentou desqualificar algumas acusações (como a de formação de quadrilha), para que pudessem ser aplicadas penas alternativas e mais brandas. Não são presos políticos, são políticos presos e ponto final.

 

“Os réus do mensalão mineiro ainda estão soltos” – bem, aqui podemos dizer que eles deram o “azar” de estarem no meio de um processo que envolvia autoridades que são julgadas por crimes comuns no STF (no caso os deputados federais João Paulo Cunha, Pedro Henry e Valdemar Costa Neto – posteriormente José Genoíno, que entrou como suplente em 2013) e acabaram sendo “arrastados” para a instância maior, antes de passarem pelas instâncias menores, o que iria fazer com que o processo se arrastasse durante vários anos, podendo inclusive existir prescrição de crimes. Porém, ao invés de reclamarem que o processo correu rápido demais, deveriam era exigir a mesma velocidade para os outros casos.

 

“Eles têm uma história” – sim, tanto o PT quanto o Genoíno, o Dirceu e o finado Gushiken têm uma bela história de luta pela democracia (assim como o Fernando Henrique, o Covas, o Serra, entre outros), porém, boas ações passadas não são passaporte para cometerem erros futuros e no máximo servem de atenuante para abrandar penas. E se alguém desconsiderou e não respeitou a própria história, foram eles mesmos.

 

De um outro lado, chega a ser deprimente ver os “anti-petistas” comemorando a condenação e prisão dos mensaleiros enquanto membros dos seus partidos estão envolvidos em escândalos que superam (em valores, engenharia, envolvidos, etc.), em muito, o mensalão do PT.

 

Só para citar os dois últimos casos recentes, as cifras envolvidas no escândalo de corrupção do Metrô do estado de SP e no caso dos fiscais do ISS da Prefeitura de São Paulo, fazem os mensaleiros petistas parecerem garotos que furtaram chicletes no supermercado (não que o montante desviado seja agravante ou atenuante, quem rouba um chiclete ou rouba 1 milhão comete o mesmo crime). E é difícil imaginar que o governador Geraldo Alckmin, que gosta de ter todos os detalhes das principais obras ao seu alcance, por conta de seu perfil centralizador, ou o senhor Gilberto Kassab, cuja família “coincidentemente” opera no ramo dos negócios imobiliários, não estivessem ao menos cientes da existência dos esquemas que desviaram cerca de 1 bilhão de reais dos cofres públicos.

 

Alckmin e Kassab.

Alckmin e Kassab.

 

No meu mundo ideal, neste momento, quem estaria comemorando a cassação dos mensaleiros seriam os próprios petistas, enquanto os simpatizantes dos demais partidos estariam envergonhados e cobrando da Justiça a investigação dos membros dos seus próprios partidos envolvidos em esquemas de corrupção, fosse para provar uma possível inocência deles, fosse para fazer uma limpa no seu partido e assim, uma limpa na política em geral.

 

Mas como aqui “o bom é ganhar”, mesmo que seja roubado, continua cada um fiscalizando a limpeza do rabo do outro, enquanto o próprio está sujo, esquecendo-se que, se cada um cuidar do seu, todos estarão limpos.

Wellington Moura da Cunha
Paulistano de nascimento e cidadão do mundo por vocação. Trabalha atualmente com TI, porém se interessa, literalmente, por todo tipo de assunto, o que faz dele um "palpiteiro" de marca maior. Consegue ser cético e ter ao mesmo tempo o otimismo de Cândido, achando que no final tudo dará certo. Entre suas paixões estão a música, a literatura e as conversas com amigos numa mesa de bar, regado a uma boa cerveja. É autor do blog Botecoterapia.

Leia também...

 
Dê mais vida a Feedback Mag., para sua imagem aparecer ao lado de seu nome nos comentários, cadastre-se no Gravatar usando o mesmo e-mail com o qual você comenta aqui na revista. Leva 2 minutos.
 
  • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

    Wellignton, fiquei com somente uma pulga atrás da orelha em relação às suas colocações nesse texto: Que atitudes do ministro Joaquim Barbosa você julgou autoritárias?

    Vendo por aqui, do fundo da minha irrelevância, acho que ele apenas faz seu trabalho. O que não é motivo de glória, pois milhares de brasileiros fazem os seus todos os dias, mas nessa terra desacreditada, e com razão, da política, isso já é muito. Por isso as tonalidades midiáticas do caso, mas nem muito por conta dele, acho eu – apesar da personalidade esquentada.

    • Wellington Cunha

      Fernando,
      A transferencia para Brasília por exemplo, foi uma atitude autoritária, desnecessária e totalmente midiática. Aliás, até a data escolhida para executar os mandados de prisão (véspera do feriado da República) foi pensado de uma forma midiática. Acho que atitudes como estas acabam reforçando o discurso de que eles são presos políticos, de que existe perseguição, etc.

      Inclusive, se eu fosse adepto de teorias da conspiração, eu poderia dizer que isto foi planejado para dar uma “deslegitimada” na prisão.

      • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

        Barbosa é progressista assim como os petistas, portanto deve entender o desvio de conduta deles como uma falha ainda maior, uma “traição”. Claro que isto não justifica uma atitude fora dos padrões legais, digo isso apenas frisar como é absurdo petistas em geral acusá-lo de “agente das forças conservadoras”, ou algo do tipo.

        Pois bem, sobre os pontos que você apontou, é realmente estranho, mas não justificam qualquer afirmativa que leve os condenados ao patamar de presos políticos. Isso é uma excrescência mal cheirosa, visto que o partido que nos governa é “deles”.

  • Andre Vitor Sfc

    ótimo texto e parabens pela coragem de tocar neste vespeiro.