O fracasso do “Fim da História”

O fracasso do “Fim da História”

5

Por mais óbvia que a afirmação pareça, mais do que nunca ela merece ser dita: Fukuyama estava errado.

 

Francis Fukuyama (1952), um dos mais influentes teóricos da economia política norte-americana, consagrou-se com sua tese a respeito do “fim da história”. Para Fukuyama, o fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) representaria o fim das crises geopolíticas mundiais e o marco da supremacia da democracia liberal ocidental, que tentaria reduzir os conflitos a longo prazo, sendo a melhor forma de conduzir o sistema internacional para a paz. Fica patente sua capacidade prospectiva digna de médiuns de circo.

 

Francis Fukuyama (1952).

Francis Fukuyama (1952).

 

Inúmeras são as evidências de que o sistema internacional caminha na contramão da previsão de Fukuyama. Os gastos correntes norte-americanos crescentes com orçamento militar no pós-Guerra Fria, o aumento exponencial das operações militares americanas em território estrangeiro, o aumento substancial de guerras civis por todo o mundo, a não tão imprevisível balança de poder protagonizada por China e Rússia no Conselho de Segurança das Nações Unidas, a dita “virada à esquerda” dos países latino-americanos com a eleição de partidos de esquerda moderada, entre outros diversos indícios de que a paz, a estabilidade internacional e a supremacia da ideologia liberal ainda são objetivos distantes (assim como a inconsistente relação entre as três coisas).

 

Caso os argumentos supracitados não sejam suficientes, o déjà vu da Guerra Fria que estamos vendo atualmente no leste europeu me parece o golpe de misericórdia nas teorias orgânicas de Fukuyama. Em novembro de 2013, Viktor Yanukovich – então presidente ucraniano pró-Russia – decidiu ceder a pressão do urso russo e não assinar um acordo de livre comércio com a União Européia. O acordo – que como qualquer acordo de livre comércio – prometia melhorar a conjuntura econômica da Ucrânia, que passa por uma inegável crise social, fruto das pressões econômicas do FMI e do governo oligárquico e repressivo conduzido por Yanukovich. A decisão presidencial em não aderir ao acordo obviamente despertou a insatisfação da população, que sabe exatamente quais são suas demandas e seus problemas, porém nem sempre sabe as melhores formas de resolvê-los. É iniciado então um processo de insurgência popular extremamente plural, com reivindicações e proposições dos mais variados tipos (desde reivindicações pró-ocidente e de extrema-direita, passando por levantes pró-Russia e pró-socialismo).

 

Como nenhum fenômeno social de considerável significância global passa despercebido ao olhar ganancioso e imperialista das potências ocidentais, os governos do ocidente liderados pela atual potência hegemônica e seu clubinho militar do atlântico norte (cuja manutenção e atividade no pós-guerra fria é outra evidência do fracasso do “fim da história”) trataram rapidamente de inflamar o levante no seio do leste europeu – lugar de importância geoestratégica considerável. Rios de dinheiro são injetados nas ONGs ocidentais atuantes na Ucrânia, com mais do que suficientes indícios deste tipo de financiamento. Guatemala, Chile, Brasil, entre outros episódios demonstram a vasta experiência norte-americana em investidas na desestabilização de regimes democraticamente eleitos por meio do financiamento de insurgências internas. Como forma de retaliação, defesa e busca pela manutenção de seu interesse local, a Rússia envia tropas para a Criméia – território autônomo ao sul da Ucrânia com 60% da população de etnia russa – e acirra os ânimos dos analistas internacionais. Realistas em êxtase.

 

Vladimir Putin e Barack Obama, os donos da bola.

Vladimir Putin e Barack Obama, os donos da bola.

 

Se pararmos para refletir de maneira diferente, a Guerra Fria de fato nunca acabou. A Guerra Fria, como conhecida, caracterizava-se por uma suposta bipolaridade na geopolítica mundial. De um lado, capitalista, EUA e Europa. Do outro, socialista, a URSS. A guerra pelas vias de fato não existiu, limitando-se a jogos de espionagem e financiamento de guerrilhas por toda a periferia global (fato que dava o caráter “frio” da guerra). Pois bem, a URSS acabou, a Guerra Fria acabou, e o que seus antigos protagonistas passaram a fazer? Jogos de espionagem e financiamento de guerrilhas por toda a periferia global. A verdade é que a partir da fase de amadurecimento do capitalismo monopolista das potências centrais, cada qual a seu modo, a verdadeira guerra fria se deu entre centro e periferia. A verdadeira disputa se dá pela acumulação acelerada de riqueza – extremamente necessária para a manutenção de nosso modo de produção – e pelos meios de produção de consensos, extremamente necessários para a legitimação deste modo de produção.

 

Retornando a questão da Ucrânia. Este é, bem superficialmente, o cenário estabelecido no leste europeu, território que fora hotspot da Guerra Fria por muito tempo. Como sempre, a população padece em meio as disputas pela hegemonia regional. De um lado; a União Européia – ainda cabaleante da crise a qual tenta superar – buscando ampliar espaços de influência em conjunto com a OTAN e seu velho sonho de estacionar suas tropas na fronteira russa. Do outro; um regime oligárquico decadente buscando, por meio da força bruta (tudo que ainda lhe resta além de um relevante poder de veto no Conselho de Segurança), garantir suas zonas de influência política, econômica e ideológica.

 

Caso consideremos, ainda assim, que a teoria de Fukuyama a respeito do fim da história esteja certa, provavelmente a história em questão é da Marvel. E estamos assistindo a cenas espetaculares depois dos créditos.

Luã Braga
Luã Braga é graduando em Defesa e Gestão Estratégica Internacional e Pesquisador Associado ao Laboratório de Simulações e Cenários da Escola de Guerra Naval. Sua Pátria é o mundo inteiro. Sua Lei, a Liberdade.

Leia também...

 
Dê mais vida a Feedback Mag., para sua imagem aparecer ao lado de seu nome nos comentários, cadastre-se no Gravatar usando o mesmo e-mail com o qual você comenta aqui na revista. Leva 2 minutos.
 
  • VICTOR FORTUNATO

    parabens meu amigo, belo ponto de vista! SEJA BEM VINDO!

  • http://www.feedbackmag.com.br/ Ringo Estrela de Almeida

    Emir Sader não teria escrito melhor, e olha que isso não é elogio.

  • Pedro

    Cara, você só pode estar brincando.

    Só pra você pensar em um dos vários absurdos que cometeu: se os líderes “ocidentais” (eu adoro esse termo..ahahhaha) tivessem reprimido de verdade o Putin, ele teria retirado suas tropas da Criméia e desistido da ocupação da região. O que a Rússia está fazendo (anexando território) vai de encontro ao acordo internacional feito em 94.

    Ainda, se são os líderes “ocidentais” que buscam controlar a Ucrânia, o que você me diz da base militar à serviço da Rússia no território da Criméia?

    Você não percebe que o Putin só está fazendo peraltices porque se sente impune? Se os “líderes capitalistas” fossem tão fortes como você supõe em sua teoria, você acha mesmo que Putin estaria agindo da maneira que agiu? Será que ele não tentaria uma solução diplomática ou mesmo ficaria quietinho na sua? Será que ele não pensaria um milhão de vezes antes de invadir a Criméia?

    Além disso, quem mais uma vez causa mortes e fere a paz é a esquerda. E isso só foi possível com o consentimento do presidente ESQUERDISTA norte-americano. Falando nisso, não coloque o Obama dentro dos “líderes ocidentais” se você estiver se referindo a “líderes liberais”, por favor.

    E, na boa, falar que guerra civil (em países socialistas) é culpa do capitalismo é falácia. E das brabas…

    Sinceramente, você precisa se informar mais. No final do comentário deixo algumas sugestões…

    E só umas considerações básicas:

    – governo concentrado e opressivo é típico de esquerda, socialismo; governo descentralizado e liberdade são típicos da direita. Vamos evitar usar termos que não conhecemos, ok?

    - você chama as ditaduras de Cuba e Venezuela de esquerda moderada? Nem vou responder a isso…

    - a China só cresceu porque abriu o mercado. Então, não a chame de socialista. Se assim não fosse, ela iria ficar igual a Cuba, quebrada…. E só pra não perder oportunidade, cerca de 400 milhões de reais (por ano) o seu país (Brasil) investe nessa ditadura, sabia disso? Já ouviu falar do “mais médicos”?

    Deixo algumas recomendações:

    Livros sugeridos: Guia Politicamente incorreto da história do Brasil e do mundo; história politicamente incorreta da esquerda; o mínimo que você precisa saber para não ser um idiota.

    Blogs sugeridos: American Thinker; Rodrigo Constantino, Reinaldo Azevedo e Felipe Moura Brasil na Veja; e website do Instituto Ludwig Von Mises.

    Há muitos outros, mas dá pra começar com esses…

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      A China não é mais socialista no termo literal economicamente, ou seja, não concentra mais todos os meios de produção no Estado. Foi ela a inaugurar o modelo que tentam replicar por aqui, o tal “Capitalismo de Estado”, um Keynesianismo requentado e mais robusto. Mas, ainda assim, acredito ser ponto pacífico que ainda é justa chamá-la de Comunista. O Comunismo, como você deve saber, vai além da seara econômica. Lá vigora uma ditadura comunista, não mais socialista economicamente apenas.

      • Pedro

        Sim. Acabei exagerando nas palavras. A questão é que capitalismo de Estado ainda é capitalismo….