O fim da hibernação russa

O fim da hibernação russa

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Independente do fracasso do projeto socialista da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas em 1991, a Rússia sempre esteve ali, firme e forte.

 

Os EUA foram muito sortudos ou oportunistas ao adentrarem ao conflito da Primeira Guerra Mundial, em 1917 e sendo um dos vencedores da Primeira Guerra, já aos 45 do segundo tempo, ganhando assim, força inicial para lutar novamente na Segunda Guerra Mundial, onde, por sua vez, consolidaria seu poder através do financiamento da reconstrução dos países europeus e, assim, impondo seu projeto econômico para o mundo.

 

Sabemos que a saída da Rússia na Primeira Guerra e a entrada do EUA no mesmo ano mudaram o rumo da história que nos traz a este cenário atual. E se Rússia tivesse triunfado e EUA nunca tivessem entrado na guerra?

 

Os EUA são atores recentes na história mundial, com pouco mais de dois séculos. É sim, de se respeitar seu tamanho crescimento e toda a sua politicagem, se tornando independente de uma potência no auge da revolução industrial, ao contrário de países latino-americanos que se tornaram independentes de potências decadentes, é notável seu poder de barganha com os países europeus em decadência, é notável seu projeto de integração territorial por meio de ferrovias e todos os territórios conquistados por meio de acordos com seus vizinhos. É notável a maneira como este país se apropria de mentes brilhantes e como vende seu american way of life até hoje. É notável como conseguiram afastar os interesses europeus da América, território inquestionavelmente submisso aos seus comandos. De um jeito ou de outro.

 

Mas e a Rússia? O que sabemos da Rússia? Ao que constatamos, Rússia nunca precisou se tornar independente porque já era um Império. Antes de se tornar um império, a Rússia era uma composição de tribos eslavas desde os anos 800, apenas. Após, entidades políticas, como o Principado de Vladimir Suzdal, passaram a existir, já datando do ano de 1157. Já pelo ano de 1237, os russos já tiveram que lutar contra sua primeira invasão, realizada pelos mongóis, que saíram vitoriosos. Do que sobrou das invasões mongóis, formou-se a língua russa e os estados russos modernos.

 

Ilustração da invasão mongol no sul da Rússia. | Crédito: russobras

Ilustração da invasão mongol no sul da Rússia. | Crédito: russobras

 

De um lado então, temos um Estado formado recentemente, que conseguiu acumular poder rapidamente, demonstrando todo seu potencial e, presente hoje como a principal hegemonia de poder no mundo atual. Por outro lado, temos uma potência secular na Europa, sendo uma das que disputou espaço com a grande metrópole, Inglaterra, mãe do Estado que os atropela desde o fim da Guerra Fria.

 

Rússia se encontra entre as grandes potências europeias desde a queda de Napoleão e sempre teve seu avanço temido por Inglaterra e França, posteriormente, da Alemanha também. O Grande Urso, rei das terras, buscava através de guerras nos Bálcãs, saída para o mar, pois geopoliticamente, estaria presa a expandir seu poder somente por terra caso não conquistasse as águas, disputando então, espaço e poder com a Grande Baleia, a Inglaterra.

 

Esta questão da saída para o Mar se prolonga até hoje, quando vemos potências como os EUA intervindo no conflito recente na Ucrânia. A Ucrânia é o território geograficamente estratégico que dá à Rússia a tão desejada saída para o Mar Negro, através de sua base militar conhecida pelo nome de Sebastopol. Essa situação de tentar manter suas bases militares em Sebastopol se arrastam desde as guerras do norte, pelos anos de 1700 aproximadamente, passando pelo conflito da Crimeia, até a questão recente da Ucrânia.

 

Notem que os rivais da Rússia mudaram, mas a questão continua ser tentar embarrar um forte poder europeu e asiático, a Rússia. Através de grandes anexações territoriais e bem estratégicas, a Rússia compunha seu império em 1721, que durou até 1917 quando se iniciou a Revolução Bolchevique.

 

Vladimir Ilitch Lenin, líder da Revolução Bolchevique. | Crédito: intoxicacoesideologicas

Vladimir Ilitch Lenin, líder da Revolução Bolchevique. | Crédito: intoxicacoesideologicas

 

Notem que, há cem anos atrás, tínhamos um vasto império russo e que hoje, temos um hegemon que consolidou seu poder, de fato, há apenas 24 anos. Pensando por este lado, apesar do rápido crescimento do poder pelos EUA, temos algo recente contra algo sedimentado e secular, a Rússia.

 

Será mesmo que a Rússia não está, neste momento de conflito com a Síria, ganhando força para disputar o poder mundial novamente?

 

Temos aqueles que dizem que a China estaria vindo como um novo hegemon, dado seu grande crescimento econômico e abertura econômica, fazendo do seu comunismo, uma economia mista entre o capital aberto e a economia fechada. Porém, eu apostaria mais em um ressurgimento russo, dado que a Rússia investe pesado em armamentos e apresenta uma postura mais ameaçadora e não obedece ao que mandam os EUA, visto no recente conflito na Ucrânia, onde EUA impunham sanções à Rússia e esta não voltou atrás por causa destas ameaças.

 

Sabemos que Obama não procura ter uma postura mais coercitiva com relação à Rússia, mas um próximo presidente a frente dos EUA, pode botar tudo a perder e atiçar um novo conflito em potencial entre Rússia e EUA, algo controlado desde a Guerra Fria, que quase nos trouxe o conflito possível, mas improvável, de guerra nuclear.

 

O mundo não se encontra em um dos melhores momentos para se esquentarem os ânimos entre EUA e Rússia. Temos que grandes potências tendem a estar envolvidas em todos ou quase todos os maiores conflitos do globo terrestre e, embora estejamos vendo a China se mexer ao lado da Rússia contra o Estado Islâmico na Síria, podemos observar um grande avanço russo nas relações internacionais. É como se o Grande Urso estivesse saindo do seu período de hibernação.

 

Resultado da investida russa na Síria. | Crédito: Getty Images.

Resultado da investida russa na Síria. | Crédito: Getty Images.

 

Neste ano já vimos Rússia realizando ataques aéreos à Síria e, recentemente, aumentando as ofensivas na região. Neste ano também, Putin disse reforçar os investimentos em armamentos nucleares e, segundo Jean-Paul Baquiast, especialista francês, em caso de guerra nuclear, os EUA seriam aniquilados pela Rússia em questão de segundos, pois há formas de destruir todo o território norte-americano em segundos.

 

Há quem diga que Putin quer ser um novo Czar. Será o ano de 2015 o ano da retomada de disputa de poder entre EUA e Rússia?

 

Não sabemos como ficará a questão síria atual, mas vemos claramente um avanço do poder russo sobre a região e seus interesses estratégicos, dado que a Síria, que era um dos países mais estáveis da região até pouco tempo, e ainda é aliada da Rússia, desde a União Soviética. Enquanto China busca um interesse econômico na estabilidade da região, Rússia busca a entrega de armas químicas sírias para si, a fim de impedir uma intervenção militar norte-americana no país. Tudo muito romântico pelo que se vê de fora, mas por trás das cortinas, é claramente uma tentativa de duas grandes novas potências, de afastarem os interesses norte-americanos dos seus interesses em expansão de poder e zonas de influência. Daqui a pouco, prevemos uma volta de uma doutrina Monroe reversa. Já que repetiram tanto aos anos de 1823 que a América deveria ser para os americanos, que fiquem com a América e larguem o oriente para quem é do oriente. Mas o mundo do poder é assim mesmo. Ditados que são alterados de acordo com os interesses particulares do próprio criador. Por isso, soberania, seria a capacidade de ditar as regras. O jogo muda, mudam-se as regras. E quem puder mudar, que mude mesmo. Simples assim.

Domie Lennon
Pesquisadora em ciências políticas e econômicas, leva a UFRJ no coração e papel e caneta nas mãos. Escritora aqui na Feedback Magazine e na Obvious Magazine. Gosta de rock, cinema, é flamenguista, petropolitana, perdida e sem foco, adora escrever e não tem dúvidas de que a música e o conhecimento nunca serão demais. Estuda todos os idiomas que estão a seu alcance e não resiste a parar para ouvir franceses conversando na rua. C`est tout!

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