O Espetacular Homem-Aranha

O Espetacular Homem-Aranha

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Se tratando do Homem-Aranha, que podemos considerar um dos personagens mais populares da Marvel Comics, não existe pouca coisa a se falar. Grandes fases, coadjuvantes importantes, acontecimentos que marcaram a história do personagem e grandes artistas que definiram o que ele é hoje. Isso tudo tratando só dos quadrinhos, por que ele sempre se mostrou igualmente popular em outras mídias, como televisão, com suas séries animadas, jogos para várias plataformas de videogame e PC, uma franquia no cinema com três filmes de grande bilheteria e até mesmo um musical de sucesso na Broadway.


Ter apenas um artigo não faria jus ao que o Amigão da Vizinhança, Cabeça de Teia, Inseto (apelido esse que é sempre corrigido pelo próprio Homem-Aranha quando é chamado por um vilão) ou Aracnídeo (sim, esse é o biologicamente correto) já fez pela sua editora e pela força que ele tem no subconsciente da população. Aqui começa uma série de artigos que comemora o retorno do personagem aos cinemas com um novo filme, O Espetacular Homem-Aranha (The Amazing Spider-Man, 2012).


Pôster de O Espetacular Homem-Aranha, com Andrew Garfield e Emma Stone.

Pôster de O Espetacular Homem-Aranha, com Andrew Garfield e Emma Stone.


A Origem


Quem conhece um pouco da origem dos personagens clássicos da Marvel, sabe que na maior parte das vezes elas estavam ligadas a radiação. O Hulk foi criado em um acidente com uma bomba de raios gama, o Quarteto Fantástico ganhou seus poderes graças a um acidente com raios cósmicos e o Demolidor sofreu um acidente com lixo radioativo que lhe rendeu seus poderes. Não é por menos, na época se vivia o auge da Guerra Fria e sob um constante medo de uma guerra nuclear. Para a população daquela época, esse medo era como hoje é o medo do descontrole dos transgênicos ou da má aplicação das pesquisas de célula tronco. Nesse contexto, Stan Lee criou a maior parte dos super-heróis da Marvel Comics da década de 1960. Sendo assim, em 1962, Lee foi até o seu editor apresentar um novo herói que havia criado junto a Steve Ditko, o seu nome era Homem-Aranha.


Peter Parker (atualmente foi introduzido um nome do meio, passando a se chamar Peter Benjamin Parker) era um adolescente órfão, que frequentava o high school (equivalente ao nosso 2º grau ou ensino médio) e morava com os seus tios Ben e May Parker. Ele era o clássico nerd que adorava ciências e era ignorado por todos, inclusive pelas garotas. Por esse motivo, estava solitário em uma feira de ciências na qual era apresentado um experimento com radiação. Sem ninguém perceber, uma aranha foi irradiada por acidente no laboratório e picou Parker, dando a ele os poderes que o permitiriam se tornar o Homem-Aranha. Com a história em mãos o editor só pode fazer o que achou mais plausível, rejeitou a ideia e disse que o personagem não poderia ser publicado.


Na década de 1960 todos os super-heróis seguiam um padrão mais ou menos parecido, eram altruístas, seguiam uma moral rígida e não tinham problemas com sua vida pessoal, eles eram nada mais nada menos que um símbolo de perfeição. O Homem-Aranha, já na sua origem, não apresentava nenhuma dessas características, pelo contrário, ele era diferente de todos os outros personagens que existiam até então. Ao descobrir seus poderes, Parker não pensou em ser um herói, mas sim ganhar dinheiro desafiando um lutador de luta livre – resistindo há três minutos no ringue com ele, ganharia 100 dólares. Peter não só vence o desafio, mas também chama a atenção de um produtor que o convida para participar de um programa de TV. Para a apresentação, inspirado em seus poderes, Peter Parker cria um uniforme, um lançador de teias artificial e se batiza de Homem-Aranha. No final da apresentação, nos bastidores, ele simplesmente deixa um ladrão que ele poderia deter fugir, apenas por achar que isso não era problema seu. Alguns dias depois, ao chegar em casa, Parker descobre que seu tio Bem foi assassinado por um assaltante e revoltado resolve persegui-lo. Quando o bandido é encurralado pela polícia em um armazém abandonado, o Homem-Aranha entra para capturá-lo e tem uma surpresa. O ladrão era o mesmo que ele deixou fugir alguns dias antes, após a sua participação no programa de TV, sendo assim, ele podia ter evitado a morte do Tio Ben.


Desse dia trágico em diante, tomado pela culpa, Peter Parker decide se tornar um herói. Essa origem está muito bem adaptada no filme Homem-Aranha (Spider-Man, 2002), com a direção de Sam Raimi. A essência do herói é contada, apenas com pequenas modificações por questões de narrativa e por causa da grande diferença entre os cinemas e os quadrinhos.


O Duende Verde foi o vilão no filme de 2002.

O Duende Verde foi o vilão no filme de 2002.


Ainda na adaptação feita para o filme de 2002, a aranha que pica Peter não é radioativa e sim alterada geneticamente, refletindo um “medo” mais atual e modernizando a sua origem. Outra diferença que podemos ver é a teia orgânica, sendo parte do conjunto de poderes que Peter Parker ganhou após o acidente, que na visão do diretor, é mais plausível do que um adolescente criar um lançador de teias artificial em casa.


Por se tratar de um herói um tanto diferente para os padrões da época, com o seu símbolo sendo uma aranha, o que poderia na opinião do editor, assustar as pessoas e principalmente por ser um adolescente, que até então só ocupavam as páginas dos quadrinhos como ajudantes dos super-heróis principias (eram conhecidos como sidekicks), o editor recusou o personagem. Porém com a insistência de Stan Lee, a primeira história do Homem-Aranha foi publicada na última edição de Amazing Fantasy #15 (1962). Na visão do editor, já que a revista seria cancelada, não haveria problemas em publicá-lo.


No mês seguinte, para a surpresa do editor, a revista que contava a origem do Homem-Aranha foi um sucesso de vendas e ele ganharia a sua revista própria. Sem querer Stan Lee, com a sua nova proposta de herói, iniciou o que seria quase um padrão na Marvel Comics. Heróis e histórias cada vez mais refletiam a realidade e permitiam uma identificação cada vez maior do leitor com os personagens. Um exemplo disso é que as histórias da editora quase sempre são ambientadas em locais reais. Por exemplo, Peter Parker mora em Forest Hills, um bairro que fica no Queens, um dos cinco distritos que formam a cidade de Nova York.


Capa da Amazing Fantasy #15, primeira revista a publicar uma história do Homem-Aranha.

Capa da Amazing Fantasy #15, primeira revista a publicar uma história do Homem-Aranha..


Com grandes poderes


Ao ser picado por uma aranha radioativa, segundo a visão de Stan Lee, você ganha os seguintes poderes: força sobre-humana, velocidade, resistência, enorme agilidade, habilidade de aderir e escalar paredes e o bom e velho sentido de aranha, que previne de perigos. Para simular as teias dos aracnídeos, Lee idealizou que um lançador de teias teria sido criado pelo próprio Peter Parker, graças ao seu conhecimento avançado em ciências. Durantes os anos seguintes, vários outros escritores adicionaram alguns poderes extras para o Homem-Aranha. Durante uma fase, o Amigão da Vizinhança fazia “tudo de teia”, para resolver os problemas em suas aventuras. Se caísse de um lugar muito alto, paraquedas de teia, para se defender de golpes, escudo de teia, para não tomar choque, luvas de teias. Essas histórias foram tão marcantes que no primeiro desenho da Marvel realmente animado, que foi o do Homem-Aranha de 1967 (isso se não considerarmos os desenhos “desanimados” que haviam sido lançados pela Marvel até então), ele usava esses truques com teias contra os vilões o tempo todo.


Em Maio de 1984, com o interesse de fazer um acordo comercial com a fabricante de brinquedos Mattel, a Marvel decidiu lançar uma saga para dar maior visibilidade aos seus personagens. Nessa sequência de histórias, batizada de Guerras Secretas, todos os principais heróis e vilões da editora são reunidos e enviados para outro planeta, onde o Homem-Aranha, por ter o seu uniforme rasgado, é obrigado a reconstruí-lo em uma máquina que ele encontra em um laboratório abandonado. Com o tempo ele descobre que o uniforme respondia aos seus pensamentos, mudando para outras roupas e aumentando seus poderes, força e habilidade. Na verdade, o que ele não sabia é que a roupa se tratava de um ser simbiótico, que tempos depois quis dominar o corpo de Peter. A saga do uniforme negro é apresentada (e muito mal adaptada) no terceiro filme do Homem-Aranha (Spider Man – 2007). Depois de ser abandonado por Peter, o uniforme se une a Eddie Brock e assim nasce o vilão Venon.


Capa americana de uma edição da Secret Wars, focada no novo uniforme.

Capa americana de uma edição da Secret Wars, focada no novo uniforme.


Em 1989 a Marvel Comics publicou a saga Atos de Vingança, na qual os vilões decidem trocar de adversários para conseguir finalmente subjugar os heróis. Um dos acontecimentos desse arco de histórias foi os poderes extras que o Homem-Aranha ganha em um acidente de laboratório (sim, outro acidente confere poderes a Peter Parker), mas dessa vez ele ganha poderes cósmicos. Na verdade, ele foi inundado pela Força Enigma ou Unipoder, que é uma forma energética que vaga pelo planeta e se funde a usuários em momentos de grande necessidade. Os poderes extras desaparecerm logo após o problema que ameça a humanidade ser resolvido. Essa força aumenta muito os poderes do Homem-Aranha, permitindo a ele voar, disparar raios com as mãos, além de ter aumentado a sua força e resistência física.


Na edição de Amazing Spider-Man #30 (2001), um personagem chamado Ezekiel aparece com poderes muito parecidos aos do Homem-Aranha, afirmando que Peter Parker na verdade tinha sido escolhido pela aranha que picou ele, e não outra pessoa para dar os seus poderes. Uma ideia mais mística do que o conceito de ficção científica que havia antes. Peter e Ezekiel enfrentam juntos uma critura chamada Morlun, que era uma espécie de predador de “Homens-Aranha”. Algum tempo depois essa criatura volta a atacar o Cabeça de Teia na saga O Outro, em The Amazing Spider-Man, de #525 até #528 (2005). No Braisl essa série de histórias foram publicadas nas edições 60, 61, 62 e 63 da revista O Homem-Aranha, em Dezembro de 2007.


Nessa história, o Homem-Aranha literalmente morre ao enfrentar e vencer Morlun, porém no lugar onde deveria estar o corpo de Parker, é encontrada apenas uma casca vazia. O seu verdadeiro corpo então forma um casulo pendurado em alguma ponte perdida de Nova York e Peter Parker confronta sua “aranha interior”, sendo obrigado a aceitar poderes que até então desconhecia. Quando ele retorna, descobre que tem novos poderes, como visão noturna, maior controle de suas propriedades adesivas da pele e melhoradas percepções sensoriais, tais como ser capaz de sentir as vibrações que viajam através de sua teia. Porém, atualmente, esses poderes foram esquecidos por não terem agradado muito aos fãs e não aparecem mais em suas histórias.


Morlun é um dos vilões mais poderosos que o Homem-Aranha enfrentou.

Morlun é um dos vilões mais poderosos que o Homem-Aranha enfrentou.


Logo após os efeitos da saga O Outro, o Homem de Ferro (Tony Stark), criou um novo uniforme para o Homem-Aranha. Este novo uniforme possuía várias novidades tecnológicas, incluindo até quatro braços cibernéticos. Além disso, a roupa também conseguia ser à prova de balas de até certo calibre. Ela foi utilizada durante a saga Guerra Civil, onde Parker ficou inicialmente ao lado de Tony Stark, porém, quando ele muda de lado e se volta contra o Homem de Ferro, volta a utilizar seu antigo uniforme.


Existem várias histórias em que o Homem-Aranha tem algum poder extra ou adquire novas habilidades, fora as realidades alternativas ou mesmo histórias que se passam no futuro, como em Homem-Aranha 2099, porém o Amigão da Vizinhaça já tem aproximadamente 50 anos de histórias em seu currículo, e comentar uma por uma, em qual ele acontece alguma variação em seu poder, fica quase impossível.


E na próxima edição, digo, artigo…


Uma marca importante nas histórias do Homem-Aranha é que Peter Parker é tão importante quanto o seu álter ego e por esse motivo ele teve coadjuvantes de peso. Durante vários anos personagens importantes tiveram espaço em sua vida, eles ajudaram a defini-lo como o herói que é hoje. No próximo artigo falaremos um pouco mais sobre eles.

Carlos Nani
Carlos Eduardo Nani é fã de cinema, quadrinhos, rock, livros, ciência e tudo mais que possa gerar um bom debate e novas ideias. Estudante do 5º período de Comunicação Social na Universidade Augusto Motta, com habilitação em Publicidade.

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  • Ricardo Martins

    Quando comecei a ler A Marvel, o herói que me conquistou logo de cara foi o Homem-Aranha. Não é difícil entender seu sucesso. Diferente da maioria dos outros heróis, ele é gente-como-a-gente: sofre de amor platônico, estuda, trabalha e tá sempre sem grana, é jovem e tem interesses humanos verdadeiros, não é um herói machão ou obcecado, é responsável, mas falha e se arrepende muitas vezes. A identificação é certeira, pois entendemos sua vida. Junte isso a um grande carisma, e está feita a fórmula de um grande personagem. Sua galeria de vilões e coadjuvantes também é exemplar, e suas histórias das fases clássicas, principalmente as escritas por Stan Lee são até hoje alguns dos melhores momentos dos quadrinhos em geral.