O “Capo” na TV – A entrevista de Lula à Kennedy Alencar no <br/> SBT

O “Capo” na TV – A entrevista de Lula à Kennedy Alencar no
SBT

0

Na semana seguinte a um boato que se espalhou na Internet, de que Silvio Santos daria uma banana definitiva ao Governo e liberaria Rachel Sheherazade para opinar novamente, colocando ao seu lado a partir de então, como colega de bancada no “Jornal do SBT”, vejam só, a apresentadora Eliana (aquela mesmo dos programas infantis de outrora), tudo para bater no PT e no governo federal, veio o choque de realidade. Não era Eliana ou Sheherazade que víamos na tela, mas Lula, ao lado do intragável Kennedy Alencar.

 

O boato que correu não tinha fundamento algum, naturalmente, e quem o compartilhou é muito burro ou muito ingênuo. O Jornalismo da emissora, que tem rompantes de qualidade vez ou outra, têm em seu quadro atual, como top em política, o tal Kennedy Alencar, que veio da Rede TV! com status de gente grande, depois de Seu Silvio, o patrão amado de Danilo Gentili, ceder às pressões do governo petista e calar Sheherazade.

 

Seria maldade de minha parte imaginar que a notória proximidade entre Alencar e PT tem alguma coisa a ver com isso, afinal, ele só tem um irmão que é do dono da “Gráfica Fantasma” denunciada pelos Antagonistas por ter supostamente lavado dinheiro da última campanha de Dilma. Não sou maldoso, deve ser uma coincidência que não tem nada a ver com uma suposta imposição do Governo para que a emissora equilibrasse seu discurso em relação ao PT – pois é fato, independente do irmão, que Kennedy é simpático ao partido.

 

O início da entrevista, exibida em 05/11/2015, evidencia isso. E talvez corrobore a suspeita maldosa que sem querer expus acima. Foi uma rasgação de seda ridícula, que se estendeu lá pelo meio a entrevista, quando Lula disse que Kennedy poderia ser presidente do Brasil.

 

A entrevista como um todo é uma sacanagem tão grande, por ignorar os principais temas em que Lula está envolvido no momento (o projeto político continental do PT, que envolve o Foro de São Paulo, hoje exposto até por Lula; a corrupção endêmica do partido, que sustenta tal projeto; o enriquecimento repentino de seus familiares; o boneco “pixuleco”), abordando-os de forma branda e mutilada, que sequer animo em comentá-la. Uma grande prova de que Francis, o Paulo, estava certo quando dizia que entrevista – via de regra – é a pior forma de jornalismo.

 

Lula não é mais para ser debatido, é para ser gozado. Não tem respeito ou credibilidade alguma, segue um ignorante, que não tinha como ficar rico de outra forma senão pela via ilegal. Um lobista. Um ex-presidente que se reduz ao papel de lobista, conforme já me parece ter ficado claro com as informações que temos hoje e atestam sua proximidade com grandes construtoras como Odebrecht e OAS e a defesa das mesmas fora do país. Um acinte à Nação, certamente, que vê seu ex-presidente reduzido a este pífio papel. De Garret Walker a Remy Danton, imagine.

 

Por isto mesmo atenho-me apenas a três momentos importantes da entrevista, que completa durou quase 50 minutos, e comento-os:

 

1) Quando diz que não sabe ainda se sairá candidato a presidente em 2018, Lula mente. Mente para amenizar a situação de seu partido, que hoje dividi-se (REDE) para sobreviver. Até o mais simples eleitor petista sabe e conta com Lula em 2018, é sua última esperança, de forma que sua justificativa para possivelmente concorrer (sic), transcrita abaixo, é uma reles demagogia de síndico de prédio:

 

“[Kenmedy Alencar: Se houver necessidade o Sr. será candidato?] O que que eu posso dizer para você, Kennedy. Se houver necessidade de defender um projeto que fez com os pobres fossem vistos nesse país, que incluiu milhões e milhões de pessoas, para defender, se eu perceber que ele vai correr risco, você não tenha dúvida que eu estou disposto a ser candidato.”

 

Não é lindo? Quer dizer, ele não gostaria de retornar à presidência, mas para defender os pobres – sempre em nome deles – fará este sacrifício. Veja que, pela construção da oração, o desejo de vê-lo concorrer passa a ser de toda a sociedade de bem, que, naturalmente, quererá defender os pobres. Quanto pieguismo, Meu Deus! É impressionante saber que ainda existem pessoas que caem num papo tão furado quanto esse.

 

Mais adiante, só para fechar esse ponto e dar a exata noção das coisas a você, nobre leitor, Lula me sai com essa:

 

“Eu sou grato ao carinho do povo, então, é o seguinte: Para defender esse povo, eu faço qualquer coisa. Pra defender o direito do pobre entrar na educação, na Universidade, eu faço qualquer coisa. Pra fazer com que os pobres subam mais um degrauzinho na ascensão social eu trabalharei 24 horas por dia.”

 

E você aí pensando que colocar medo para coagir era uma prática que funcionava apenas com crianças (Pai para o filho: Se você for ali, o Bicho-Papão vai te pegar). E não é isso que o discurso do ex-presidente alude, ao dizer que sua presença na política nacional, em seu mais importante cargo, é necessária para defender certas conquistas? Pois, claro, se outra pessoa de outro partido ali estiver, vai mandar os pobres catarem coquinho.

 

2) E quando Lula danou-se a falar mais de Educação, revelou que lhe faz falta sim, um diploma universitário, apesar dele achar tal ausência um diferencial a seu favor (!). E disse Lula:

 

(…) E é por isso que nós aprovamos 75% do royalty do Petróleo para a Educação, que era para tentar acabar de uma vez por todas, zerar com o déficit educacional que existe nesse país. Eu conto sempre uma história… Você não acha absurdo, que eu sendo o único presidente que não teve diploma universitário, sou o presidente que mais fez universidade no país? Que mais fez escola técnica? Você não acha absurdo que este país aqui, que foi descoberto em 1500, só foi ter a primeira universidade em 1922? E que Santo Domingo, que foi descoberto em 1492, já tinha universidade em 1507? Você não acha que a elite brasileira brincou com a educação desse povo, menosprezou, sempre trabalhou com a ideia de que pobre não tinha que chegar na universidade?

 

[O grifo é meu, claro.]

 

Lula errou feio. Ou melhor, errou quem passou essa colinha para ele. Imagina se demoraria 422 anos para termos uma universidade em nosso solo. Demorou um bocado sim, mas bem menos do que ex-presidente diz e não por sermos mais atrasados que Santo Domingo – os letrados brasileiros, numa época de poucos cursos universitários disponíveis e pouquíssima gente a sua procura (isso no mundo todo), estudavam em Portugal. A nossa elite inteirinha formou-se além mar, no que lá havia de melhor, e por isto mesmo não íamos tão mal quanto se pensa até o advento da República, no fim do Século XIX.

 

Sobre a primeira universidade do país: O “Collegio do Salvador da Bahia”, ou Colégio dos Jesuítas da Bahia, foi fundado em 1553 e funcionou até 1759, quando os jesuítas foram expulsos das terras da Coroa. Nele, no Século XVII, funcionavam duas escolas de ensino superior: o Colégio dos Jesuítas, para a formação de sacerdotes e bacharéis em Artes, e a Aula de Fortificação e Artilharia, para a formação de engenheiros militares.

 

Ora, o que define uma universidade mesmo? Segundo o Priberam, melhor dicionário disponível na Web, “Conjunto de escolas de instrução superior onde se professam ciências ou letras”. Ponto para os Jesuítas. Lula reprovado novamente.

 

Tivemos, ainda na Bahia, a primeira faculdade de medicina do Brasil, fundada por D. João VI em 1808, quando da vinda da Família Real Portuguesa para cá, fugida de Napoleão. Bem antes de 1922, não?

 

Já a Universidade Federal do Paraná, reconhecida pelo Guinnes Book de 1995, não sei porquê, como a primeira do país, foi fundada em 1912 e inaugurada em 1913. Ainda que tivesse pego sua cola no Guinnes, Lula estaria errado.

 

3) Mas sem dúvida a parte mais impactante da entrevista foi a sintomática resposta de Lula quando perguntado por Kennedy se temia ser preso:

 

“Eu não temo ser preso porque eu duvido que tenha alguém nesse país, alguém, do pior inimigo ao melhor amigo meu, ou qualquer empresário, pequeno ou grande, que diga que um dia teve uma conversa comigo, ilícita. Duvido. Então.. Eu tenho a consciência tranquila.”

 

Veja, ele diz duvidar que alguém venha a delatá-lo. Repete por duas vezes, em 10 segundos, que duvida. Ele duvida, senhores. Duvida com convicção. Por que será?

 

É a fala de um “Capo”, de um chefe de máfia, não de um ex-presidente. É a fala de alguém que confia na fama que tem. Mas não esta fama que o Povo conhece, de metalúrgico bufão, uma outra, aliada ao PT, que Celso Daniel conheceu da pior forma. Que outros, como Joaquim Barbosa também conheceram.

 

Entretanto, se pesa para o lado “gangster”, este talvez tenha sido um dos poucos momentos onde Lula foi verdadeiro. Ele foi categórico ao dizer que ninguém dirá que teve alguma conversa “estranha” com ele, o que não significa que elas não existiram ou que não a tiveram em seu nome. Do contrário, diria: “Jamais me relacionei de forma ilícita com ninguém”, ou algo parecido. Não disse. Já entendemos.

 

Assista você mesmo:

 


Link Youtube

 


Link Youtube

 
Nota de rodapé: O mais estranho nesta fatídica entrevista não foram as perguntas em si, muito menos as alopradas repostas, mas o fato de vermos no canto da tela o termo “Jornalismo SBT”. Jornalismo?

Fernando Henriques
Idealizador e editor desta revista, Fernando Henriques é um consumista informacional. Formado bacharel em Ciências da Computação, encontra na Comunicação um elo natural. Viciado em séries, filmes, rock, MMA, política e desafios.

Leia também...

 
Dê mais vida a Feedback Mag., para sua imagem aparecer ao lado de seu nome nos comentários, cadastre-se no Gravatar usando o mesmo e-mail com o qual você comenta aqui na revista. Leva 2 minutos.