O ano passa mais devagar para os idiotas

O ano passa mais devagar para os idiotas

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O ano está quase acabando e nem parece, foi tudo tão rápido nesse 2014. Aliás, nossas vidas passam cada vez mais rápido. A quantidade de informações que recebemos, ou estão à nossa disposição, nos fazem enveredar por um ritmo que ancestral algum poderia imaginar. Os que são ávidos por leitura, que se alimentam dela, têm hoje seus pratos cheios. Não é muito difícil encontrar um montante de letras para vidrar os olhos na internet. O próprio Facebook, se bem utilizado, cumprirá um ótimo papel de “agregador de conteúdo”. O meu é assim. E conheço gente que vai além, que “explora” os amigos sem permissão, gratuitamente. Não foram uma ou duas pessoas — foram três! — que declararam a mim já não mais visitar com a mesma frequência os sites de jornais e revistas, pois, com tão boa timeline, usam amigos como curadores de conteúdo. Amizade deve servir para algo, afinal.

 

Eu sou um que gosta de ler, ver, ouvir (não mais com tanta frequência) e, estão sentados?, estudar. Trabalhar também, entre hobbies e obrigações. Muito está à minha disposição, mais, certamente, do que posso processar e absorver. Mas e daí? Tento processar, absorver e reproduzir, claro, muito do que vem à mim. Por isso o ano passa rápido. Jornadas de oito horas já não são suficientes para o trabalho que tentamos executar, buscando excelência; e as horas livres não são mais livres, uma vez que a vida moderna, ou pós-moderna, que seja, nos faz mesclar tais horários. Você trabalha e “vive” nos mesmos ambientes, não tem mais clara separação — em casa você lê e-mails de trabalho, no trabalho você lê e-mails pessoais. E quer saber?, não vejo mal nisso. O trabalho — bem feito — me gera prazer similar ao consumo de livre entretenimento; e tudo que não é livre entretenimento, que normalmente não seria considerado “coisa de trabalho” (uma leitura que aumente conhecimento, mesmo aparentemente fora de nossa área de atuação principal — Ciências Políticas e Filosofia, no meu caso), acaba por convergir naquilo que é, comumente, considerado trabalho. Caminhamos, e eu tento correr nesse aspecto, para cada vez mais sermos profissionais de corpo inteiro, de hora a hora do dia, mas não para nos sentirmos escravizados, como os trabalhadores dos primórdios da Revolução Industrial, primordialmente de fábricas, e sim realizados, uma vez que o trabalho também nos “realiza”. Sério: eu me divirto trabalhando; meu semblante se abre quando a possibilidade de atuar num projeto interessante aparece. Mas existe também um q maiúsculo de agonia nisso tudo. Pelo menos em mim, que é o sentimento de sempre poder fazer mais e melhor, não fosse a costumeira falta de tempo. E não pense o leitor que é um problema de organização, é um “problema” de querer fazer mais do que se pode fazer.

 

Me sinto sempre impedido pelo tempo, por isso não curto envelhecer. Meu aniversário é um sinal de que meu tempo para fazer tudo que posso fazer está diminuindo. E mesmo considerando que eu não possa muito, e que talvez minha autoestima me traia nesse sentido, assumo o papel de “mulher traída”: eu quero poder, eu sinto que posso. Só precisaria de um dia com mais de 24 horas.

 

Nessa cenário, a agonia é inevitável. Vivo o tempo todo tentando burlar o tempo, inspirado no antigo Unibanco, atual Itaú, que dizia ser 30 horas.

 

E a leitura, então? Sempre em falta. Se não toco todas as ideias que tenho, mas pelo menos algumas transformo em projetos reais, não leio nem a metade do que gostaria e deveria — os filmes e as séries já reduzi drasticamente, em prol do estudo sério daquilo que não sei nada, ou quase nada: Comunicação, filosofia e Política; e daquilo que preciso saber mais no momento: Tecnologia. A excelência que busco, e penso que você também, leitor ávido, demandaria mais livros, mais apostilas, mais docs (documentários são uma espécia de EJA para algumas coisas que não temos tempo de aprender através da leitura de tudo aquilo que leu quem produziu/dirigiu o doc e resumiu para nós), mas a realidade nos impõe algumas barreiras intransponíveis: é preciso dormir, comer, dar atenção aos demais seres vivos…

 

E é por tudo isso que o ano passa rápido demais, e também por tudo isto que o idiota é mais feliz. Tem mais tempo, é mais “livre” (não no bom sentido), sorri mais — demais, na verdade, por dois motivos: a) o ignorante é mais feliz porque ignora as mazelas da vida; b) não lhe é necessária uma piada tão bem trabalhada, que não entenderia, qualquer uma serve.

 

O idiota não sofre a agonia de não saber mais do que gostaria saber, porque ele não quer saber de nada. Não reclama da falta de tempo, porque não faria nada de grandioso se o tivesse demais. Vive a vida para consumir banalidades, tem a TV como maior fonte de informação e vota no PT (desalmado!). Pobre de nós, que lemos, e somos obrigados a conviver sob o mesmo “teto” dos que não leem e viver a agonia (outra) de ter o mesmo “poder” de voto que eles. Mas isto é outro assunto. Ressalto então o outro lado, para que você, não-idiota, não sofra ainda mais: via de regra, o idiota é mais facilmente engando e menos endinheirado. Vive a vida que precisa viver, não tem a possibilidade de inventar uma vida para si. A cada ano. A cada nova virada que o Destino (Deus, Alá, Buda ou o Cosmos, pode escolher) lhe impõe. Se é preciso se reinventar, o idiota reinventa a mesma vida medíocre. Coitado. Nós não — só chegou aqui quem é “nós” –, podemos mais, podemos fazer coisas novas, as vezes sem abandonar as velhas, e ver, no final do ano, que tudo passou rápido demais. Ainda bem!

 

(Os que não gostam de ler não passam do primeira parágrafo e sequer verão eu os chamando de idiotas aqui, fato que evitará alguns comentários desagradáveis.)

 

Mas, enfim, o ano passou rápido e o lado bom é que as agonias também. Que comece mais um, e que a agonia de não poder “fazer tudo que eu queria fazer” reinicie. Quem a detém, pode mais.

Fernando Henriques
Idealizador e editor desta revista, Fernando Henriques é um consumista informacional. Formado bacharel em Ciências da Computação, encontra na Comunicação um elo natural. Viciado em séries, filmes, rock, MMA, política e desafios.

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  • Cida Santos

    E é por tudo isso que o ano passa rápido demais, e também por tudo isto que o idiota é mais feliz. Tem mais tempo, é mais “livre” (não no bom sentido), sorri mais — demais, na verdade, por dois motivos: a) o ignorante é mais feliz porque ignora as mazelas da vida; b) não lhe é necessária uma piada tão bem trabalhada, que não entenderia, qualquer uma serve. (não gostei muito radical nesse ponto ) até agora sempre gostei muito dos seus textos mais esse ai acho q foi muito radical e frio ao extremo , quando abrimos uma revista eletronica ou um jornal… é para lermos grandes matérias e não chamar o eleitor de idiotas acho de uma grosseira que não tem tamanho devo ser idiota mesmo pq estou lendo e relendo pra ter a certeza de que não estou enganada ,não tem nada a ver felicidade com idiotice e muito menus com um sorriso. Efim me juguem

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      Eu não falei que quem ri é idiota. Disse que o idiota “sorri mais”, e depois complementei com um “demais”, indicando que é idiota quem ri à toa, em demasia, por qualquer coisa.

      Esse raciocínio vai na linha da frase costumeiramente atribuída à Clarice Linspector, “Os ignorantes são mais felizes”, que versa pela constatação de que a vida é uma merda e que quanto menos se sabe das coisas (política e afins), mais feliz se consegue ser.

      Releia mais uma vez por esta ótica, e entenda sempre meus textos como seguindo a linha politicamente incorreta. Acredito que as pessoas precisam ser confrontadas as vezes, e os jornais e revistas podem e devem cumprir esse papel.

      • Cida Santos

        Agradecida pela resposta desculpas se não entendi vou ler de novo sim e tirar proveito pra mim e minha profissão, como já sabe sou uma amante dos seus textos belissimos, escreve como ninguém e coloca os fatos realmente como eles são, as vezes é sutil no que fala e outras vezes é muito contundente no que diz muito obrigada e continue assim com seu raciocínio lógico, ha uma pergunta vc já leu? o livro A lógica das palavras??? muito bom valeu abs.

        • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

          Não li. Mas vou procurar saber dele.

  • almarcaljr

    Como passou rápido! Acho que estou me tornando nem um pouco idiota!

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      Você, certamente, não é nem um pouco idiota. Abraços!

  • Josemilson Jr

    O ano passa rápido, mas os dias são longos.