Novo ano, novo começo

Novo ano, novo começo

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Começa um novo ano e nós já pensamos no que podemos fazer de diferente, comigo é assim também, mas geralmente, acabamos por não cumprir tudo que projetamos. Em 2010 ingressei em uma jornada complexa, decidi que dessa vez eu faria valer os votos de mudança de vida que todos temos em nossas mentes a cada novo ano. Meu objetivo era simples, claro, mas nada fácil. Eu queria “apenas” me tornar um lutador, a princípio um especialista em grappling.


Grappling é o que chamamos de luta agarrada, onde as técnicas envolvidas são de projeção (quedas), alavancas, torções e estrangulamentos. Sem golpes traumáticos (socos e chutes). Diversas artes marciais podem ser definidas como artes que priorizam o trabalho de grappling, dentre elas, o hiper popular jiu-jitsu brasileiro e os olímpicos judô e wrestling.


Entendendo meus “Porquês”


Os motivos que me levaram a pensar em lutar não vieram do nada, eu tinha uma ótima motivação. Como bom programador que sou, ao longo de mais ou menos 4 anos sem atividades físicas, somente uns 10 minutos de futebol por ano em retiros da igreja, acabei por adquirir uma respeitável barriguinha. E não somente isso, ao final de 2009 eu me via com 24 anos e 115 kg, tudo bem que tenho 1.93m de altura, mas eu estava meio sedentário. Nunca fui fã de malhação ao estilo academia, esse lance de puxar ferro ao som de música eletrônica não é meu estilo. Eu quero, e sempre quis, fazer algo mais em tudo que decidi fazer na vida, portanto eu não iria apenas emagracer, eu iria virar um atleta.


Mas qual LUTA praticar?


Essa era a questão. Eu sou um aficionado por lutas desde de criança, MMA é o meu esporte predileto assim como o futebol é a paixão do resto do país. Desde o primeiro UFC, disputado em meados de 1993, sou fã do esporte. Royce Gracie finalizou todos os adversários nas três edições do UFC que venceu, desde então eu tenho um apreço especial pela luta de solo. Quando assisto MMA prefiro ver o desenrolar da luta no chão, naturalmente a minha escolha seria uma luta de solo.


A arte escolhida foi a não muito popular luta livre esportiva, praticada no Brasil desde a década de 20, porém há muito tempo renegada pela grande mídia em função do crescimento do jiu-jitsu. A luta livre e o jiu-jitsu são artes que possuem técnicas muito parecidas, tendo o quimono, e a cultura, como o grande diferencial entre elas. O jiu-jitsu, assim como o judô, é praticado com quimono, a luta livre sem. Eu não queria vestir um quimono para lutar, queria algo mais prático, sou um cara prático, queria estar o mais próximo possível do MMA, mas sem os golpes traumáticos (leia-se “porradaria”) que poderiam prejudicar os outros campos da minha vida (um olho roxo aqui, um nariz avariado ali, pode atrapalhar bastante).


Treinar, treinar e treinar


Para alcançar meu objetivo, eu sabia de uma coisa, tinha que treinar muito. Até aqui tudo bem, era “só” treinar, o problema é que esse “só” envolve muitas coisas. O primeiro adversário que identifiquei nesta minha jornada foi o tempo. Eu queria evoluir rápido e para isso quanto mais treino melhor, porém enquanto outros caras treinam todos os dias, as vezes em dois horários, eu só poderia treinar a noite e apenas dois dias por semana.


Tenho família, tenho que sustentá-la com meu trabalho, não posso de forma alguma deixar essa atividade de lado para treinar. Desde o começo tive essa consciência, a luta para mim é uma atividade paralela, um hobbie de luxo. Portanto, o tempo da LUTA será sempre o tempo que sobra, e às vezes até este escasso tempo é furtado por alguma necessidade extrema ou emergência, coisas da vida. Tive que me contentar em realizar meu objetivo com as ferramentas que tinha, ou buscar uma solução alternativa.


Como encontrar a tal solução alternativa?


Eu sabia que mesmo treinando pouco tempo, em uma eventual competição, eu teria que enfrentar os caras que “comem” tatame todo santo dia. Por isso pensei em complementar o meu treinamento através de um estudo teórico da luta. Comecei a aproveitar qualquer tempo livre para estudar posições através de fotos e vídeos, ler dicas de grandes campeões e assistir muitas aulas em vídeo. Uma dica que deixo para os iniciantes é buscar o conhecimento “extra” em cima das dificuldades obtidas no treino. Isso é importante para não se perder, não dar passos maiores que as próprias pernas.


Competições


Eu sempre quis competir, desde o primeiro dia que pisei no tatame para treinar. Entendo aqueles que treinam somente para se exercitar, ou mesmo aqueles que apenas não curtem competir, afinal, é um esporte amador e você tem que pagar para participar de uma competição. Mas para mim é algo pessoal, tenho gosto por competição (importante frisar, não sou um daqueles sádicos que fazem tudo para vencer). Gosto de competições sadias onde às vezes vencemos, outras vezes perdemos, faz parte do jogo.


Falando em competições, acho que o ano de 2010 foi bom para mim, com 4 meses de treino participei de uma competição de luta livre esportiva em Campo Grande, Rio de Janeiro. Lutei na categoria +100kg, faixa-branca, e fiz apenas uma luta. Venci, mas não me convenci! Bom, o importante é que fui campeão, minha primeira medalha.


Apesar do triunfo eu senti bastante o gás, cansei em impressionantes 5 minutos de luta, a vitória veio na raça mesmo. Após essa experiência resolvi me preparar melhor para então competir novamente. Foram seis duros meses de ralação, era corpo e mente integrado, pensando no meu objetivo que agora tinha evoluído, além de lutador eu queria ser campeão. Treinei bastante as quedas, e principalmente as defesas dela, algo que não é comum para iniciantes, porém muito importante em competições.


Em Outubro era a hora de voltar, me inscrevi na Copa Budokan e no Campeonato brasileiro de jiu-jitsu sem kimono. O desejo de ser campeão era pequeno perto da vontade de lutar, de me testar, de apenas participar de um evento onde grandes atletas participam também. A Copa Budokan era em um sábado, e uma semana depois o Brasileiro. Eu me inscrevi nos dois para aproveitar o ritmo, acho que deu certo.


O Triunfo


A Copa Budokan é uma competição de luta livre tradicional, uma das maiores do Brasil, nela os atletas se enfrentam apenas divididos por peso, sem distinção de faixas. Na primeira luta eu fui bem, venci um atleta da Relma Team, porém na segunda, apesar de defender bem as quedas, fui finalizado por um faixa-marrom que fez a luta mais dura do campeão do evento. Fiquei satisfeito, mas triste com o resultado da finalização: um braço muito dolorido.


Durante a semana que seguiu eu não treinei, nem dava. Pensei em guardar todas as forças para o brasileiro, uma competição que apesar de nacional, me dava mais chances de título, pois era dividida por faixa. No dia da competição acordei sem vontade lutar, fui até o local do evento com esse sentimento, acho que era o gosto da derrota anterior, mas chegando lá tudo mudou. O clima de competição no ar, evento grande, vários tatames, atletas se “pegando”, rapidamente eu já estava ligado. Então, três lutas depois, cada uma de seis minutos, sendo a final uma luta de superação, o adversário da final havia me vencido na primeira luta, me sagrei campeão brasileiro de jiu-jitsu sem kimono na faixa-azul, categoria pesadíssimo (+97kg).


O sentimento de satisfação era maior que tudo naquele momento, eu sentia que tinha conseguido, que podia me considerar um lutador, dez meses depois do início de um sonho, eu poderia dizer que estava realizado.


Veja o vídeo da última luta, a final do campeonato brasileiro, eu sou o cara barbudo:



Acho que o saldo final de 2010 foi positivo, não emagreci muito, mas venho me tornando um bom lutador, os resultados e os elogios de gente entendida do assunto me dão essa certeza. Aquele papo de sedentário ficou para trás, agora eu sou atleta!


Espero ter inspirado vocês, leitores, a começar algo novo em 2011, buscar um sonho mesmo. O meu continua, o próximo passo, além de me graduar cada dia mais, é fazer uma luta de MMA só para sentir o clima e poder contar aos meus netos! Aguardem!! OSSSSS!!

Fernando Henriques
Idealizador e editor desta revista, Fernando Henriques é um consumista informacional. Formado bacharel em Ciências da Computação, encontra na Comunicação um elo natural. Viciado em séries, filmes, rock, MMA, política e desafios.

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  • http://www.orkut.com.br/Main#Profile?rl=mp&uid=14688699427283805611 Bruna

    ótimo relato!

  • SONIC_PVT

    Parabéns Rapá!!! acompanahva (de leve) o outro trabalho seu no blog, e no video deu pra ver que o SPRAWL ta muito bom!!!

    Abs e continue Forte nos Treinos!!

    • Fernando Henriques

      Valeu Sonic!! Vou continuar firme, pode deixar!

  • Specter_PVT

    Salve Fernando!!!

    Começou muito bem nessa jornada fantastica que é o mundo das artes marciais

    muito sucesso e treinos em 2011!

  • http://www.sosumulas.blogspot.com Jorge Costa

    Parabens pelo relato e superação. Sempre fico receoso e apreensivo com suas lutas e sempre sofro com elas mas está no seu sangue a luta livre e te desejo boas lutas e várias medalhas.
    Abraços

    • Fernando Henriques

      Obrigado Pai! Pode ficar tranquilo que eu não vou me machucar.

  • Diego de Lacerda

    Que BUNETÉNHO! =]

  • Diego de Lacerda

    Eu estive lá, eu vi, eu presenciei e o pior de tudo, essa gravação tremida é minha…rs

    PARABÉNS meu amigo, você mereceu!

    Grande abraço.

  • Kadu

    Ola eu disputei também a copa budokan que você mencionou acima. Gostaria de saber se por acaso nao poderia colocar todos os videos os quais filmou no youtube para mim ter acesso pois eu acabei nao filmando nada nenhuma luta nem mesmo as minhas. e parabéns pelo campeonato de jiu jitsu sem kimono. Esse que voce ganhou na final ganhei dele em alguma luta dessa 19ª copa budokan. e pelo que vi o “gas” melhorou muito no final dos videos nao parece exausto … desde ja grato kadu

    • Fernando Henriques

      Você é o Kadu do ES, o campeão dos pesados? Pode deixar que vou postar os outros vídeos no youtube.

      • Kadu

        Sim eu mesmo. Alias o grande problema é que nao tenho conhecimento de praticamente nenhum outro campeonato ai do Rio. Agora so sei que vai haver um em campos no mes de fevereiro e proximo que irei é no ADCC no mais campeonatos ai no Rio fico sem saber por exemplo esse campeonato brasileiro de jiu jitsu sem kimono nem tomei conhecimento. Caso tenha algum campeonato bom se puder me avisar ficaria grato.

        • Fernando Henriques

          Kadu, com certeza vou lhe avisar, será muito bom para a luta livre ter um representante com o seu nível nos melhores campeonatos do RJ. Vamos manter contato por e-mail.

          • Kadu

            ok so me mandar um email para que possa ter você
            nos contatos. Ja tem algum evento circulando ai no rio?
            porque antes existia copa rip dorey e diversos mais nao
            to vendo nada no site ta dificil.

  • Fernando Henriques

    Kadu, já te enviei um e-mail. Manteremos contato por lá, volte sempre aqui na revista. Tem conteúdo novo sempre, inclusive sobre MMA.

  • http://www.7tacas.com.br LUO

    MUITO BOM MEU MANO FERNANDO! PARABENS, SER GUERREIRO É ISSO AI MESMO! BJJ FOR EVER

    DEUS TE ABENÇOE, PAZ!

    LUO

    • Fernando Henriques

      Valeu Pregador Luo, obrigado pela força. Vou seguir em frente!