Nossos tempos

Nossos tempos

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Muita chuva no Rio de Janeiro. Amanhece e um cachorro machucado aparece na porta de um conjunto de casas.

 

Cidadão Y passou pelo canino e resolveu cuidar dele. Levou ao veterinário e fez todo o procedimento ao resgatar um animal abandonado. Atitude louvável.

 

Ao optar por cuidá-lo, Y deveria ter consciência que “a responsabilidade será sua até encontrar um novo lar para ele”. Guarde essa informação, mais para frente ela será de muito valor.

 

O tempo passou e entre os moradores das casas o cidadão X percebe que o animal está aos cuidados de cidadão Y, mas não dentro da casa do mesmo. Torna-se uma espécie de guarda compartilhada entre os moradores, mesmo aqueles que não gostariam de cuidar de um animal.

 

E o direito individual do cidadão Y em proteger e zelar pelo animal não permite a restrição no direito coletivo de X e de outros moradores. Afinal, quem assumiu a responsabilidade de cuidar foi Y.

 

Após novas reclamações o cachorro invade a casa de X. E agora? Antes o direito coletivo era respeitado, agora nem o individual. Novamente o cidadão X pede que Y resolva a situação, mas ao que parece este considera seus direitos superiores aos demais.

 

Talvez Y não tenha percebido que estamos em um regime Democrático de Direito onde temos direitos e deveres individuais e coletivos. Inclusive algo recente em nossa trajetória republicana chamada “liberdade de expressão”. Esta que X preza tanto para que não retrocedamos jamais, foi colocada em xeque.

 

X, como qualquer ser humano, perde a paciência e de dentro de sua residência profere xingamentos ao vento, talvez de raiva por considerar que nunca fosse exposto numa situação desse tipo. Logo ele, um cidadão correto e cumpridor das leis.

 

Então Y, como muitos canais gostam de dizer, um “cidadão do bem”, expõe em uma rede social toda a situação de forma que quem lesse consideraria X um ser humano que maltrata animais, que proferiu xingamentos direcionados e por fim anuncia – passado toda essa situação – a procura de um abrigo para o cachorro.

 

Como poderia? Cidadão X que sempre ajudou quando pode. Não tinha tempo para parar em casa, pois passava mais tempo fora, trabalhando, e no trânsito, ser caluniado dessa forma em uma rede social! E o pior, sem poder ter qualquer tipo de defesa.

 

Nesse momento X lembra-se dos mais diversos casos de calúnias em redes sociais e suas consequências… Reputações destruídas, vidas ceifadas por puro oportunismo de um discurso de ódio. É chegada a hora de denunciar ao delegado. O mesmo descaracteriza o crime de incitação ao ódio devido aos xingamentos ao vento do cidadão X.

 

Seria preciso um linchamento ao X em praça pública para que o delegado agisse? Talvez. Nunca saberemos.

 

A história do cidadão X poderia ser sua. Poderia ser minha.

Guilherme Monteiro
Guilherme Monteiro é graduando em Defesa e Gestão Estratégica Internacional / UFRJ. Ariano. Acredita na gestão colaborativa como forma de desenvolvimento individual e coletivo. "Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos, mas não há hoje no mundo um muro que separe os que têm medo dos que não têm medo". (COUTO, Mia).

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  • Gabriel

    Se o cidadão X fosse “inteligente”, ele iria manter a calma e a paciência diante dos fatos ocorridos, para simplesmente não perder a razão diante do possível descontrole emocional dele e iria tomar as medidas cabíveis, além de desmentir o cidadão Y por calúnia é claro. As pessoas (a maioria) são superficiais, julgam pelas aparências e pela propaganda(maquiado ou não), e junto com seus valores familiares, políticos, religiosos e até pelo seu psicológico. Mas não significa que a propaganda difamatória de Y seja imutável, e que ela (sociedade) seja totalmente injusta. O sujeito X se fosse uma pessoa instruída e sociável, de acordo com os valores morais daquela sociedade, iria facilmente desmentir Y, e colocar o povo contra ele. Mas se fosse numa sociedade diferentemente daquela q eu citei, por exemplo a sociedade de povos fortemente influenciado pelas aparências e pela ignorância que nela consiste (pode ser o que for, religião, políticas..), sem educação e superficial como a nossa (periferias do nosso Brasil), realmente seria difícil mas não quer dizer impossível!

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      Penso da mesma forma. Ciente do post, prontamente iria responder, ou, se bloqueado, responder em minha página mesmo.

      Os discursos diversos compõem as sociedades, quando somente um lado fala, não é bom. Claro que, existem situações que é mesmo difícil responder – gente famosa, por exemplo, que é caluniada dia e noite –, mas quando der, tem que responder e contar a verdade/seu lado.

      • Guilherme Monteiro Santos

        Gabriel e Fernando, obrigado pelos comentários.

        Concordo com ambos sobre a importância na pluralidade de narrativas.

        De fato a propaganda difamatória não é imutável, contudo o “assassinato de reputação” uma vez feito não há justiça que faça essa reparação. Um caso emblemático é o da Escola Base: http://tribunadaimprensa.com.br/?p=85220

        Gostei da ideia de uma sociedade melhor, mais tolerante e cidadã. Ao mesmo tempo não vejo somente as periferias brasileiras inseridas na superficialidade e ignorância, mas também os territórios “privilegiados”.

        Entramos em um dilema onde a lógica do sistema atual é essa e me parece que hoje o Brasil está muito distante de uma possível mudança, apesar de não ser algo impossível.

  • Geisa

    Acho que essa confusão de direitos e deveres não é de hoje. Sinto ser algo do ser humano, da essência do individuo. Onde apontar o erro do outro e a falta de cumprimento dos deveres alheios e mais fácil do que se auto-avaliar!
    A calúnia também é algo a se preocupar mas antepassado. Como jovem e curiosa, me impressionei com o poder que a Internet nos dá. Acho que realmente não temos noção de como uma foto compartilhada ou um desabafo pode afetar a vida de terceiros. É tudo muito fácil, prático e inconsequente. Será que estamos mesmo preparados para uma inclusão tão rápida assim?! Será que não é necessário nenhum tipo de instrução para obter uma fonte de comunicação com o mundo nas mãos?! O individuo Y fez a melhor escolha expondo seus problemas ao mundo? Ou seria melhor ele ter sentado e esclarecido o caso de forma direta e adulta com o individuo X? Era necessário que todos os seja amigos nas redes sociais soubessem de seus problemas e será que ele usou esse poder de propagação da rede da melhor forma? Acho que não tênis noção da arma que nos é dada. E como todo artefato, pode agir pro bem ou pro mal.
    Outro, e último, ponto que quero abordar é o fato da rapidez e perspicácia da era digital nos levar à superficialidade. Quantas vezes Lemos só uma manchete e formamos opinião? É errado, imaturo e indevido. Mas acontece e devemos tomar muito cuidado para não agirmos ou propagarmos ideias rasas como acontecido no caso acima.
    Paraben, Guilherme! Um ótimo texto, uma via problematização e sensibilidade.