Nem tão ninjas assim

Nem tão ninjas assim

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Sabe o Mídia NINJA? Não é tão ninja assim, afinal, pois depois de posto a mesa pública suas conexões com a ONG “Fora do Eixo” – de Pablo Capilé -, que os vinculavam indiretamente, porém claramente, ao partido que comanda o executivo federal, vem agora matéria do jornal O Globo desnudar o que os mais atentos já haviam percebido: não se distingue jornalista de ativista na empreitada.

 

Na matéria, dois trechos saltam aos olhos, o segundo uma fala do tal Pablo Capilé:

 

— “Invadimos a Câmara Municipal!” Uma explosão de vivas e aplausos tirou o terceiro encontro da Mídia Ninja (de Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação) no campus da UFRJ, na Praia Vermelha, da encruzilhada do impasse.

 

— Fazemos uma cobertura ao vivo, em tempo real, chapa quente. Nossos atos de jornalismo são multifacetados, parciais, com impressões e avaliações de cada um — sintetiza Pablo Capilé.

 

Capilé assume parcialidade, para tristeza dos novos fãs, e o outro anunciou a invasão da Câmara Municipal do Rio de Janeiro (Invadir é vandalismo, não?) em primeira pessoa. Só faltou dizer que estava lá em espírito. Somente por esses “detalhes”, já se esvai qualquer selo de independência e imparcialidade.

 

Não se nega, com isso, a utilidade de alguém por-se entre uma horda manifestante e transmitir a agitação ao vivo, online. Informação é sempre útil. Mas nega-se, tacitamente, a ufania causada nas massas pela auto proclamação do grupo como “mídia independente”, que só convence aqueles que querem muito descobrir uma mídia assim por aí, esquecendo ter muito mais a se considerar no assunto “imprensa livre”, e iriam abraçar qualquer uma que se declarasse como tal. Alguém pensava, de verdade, que um grupo de jovens que sai as ruas e consegue transmitir os protestos de um celular ao vivo por horas é somente um “grupo de jovens engajados”? Pior que pensavam. Espero que não pensem mais. Pois engajados eles são sim, mas não somente. Essa conexão custa caro, bastante caro a julgar pela qualidade. O site receptor custa grana também para ser mantido. Tudo tem custos, que uma simples vaquinha entre amigos não paga.

 

Em busca de antecedentes, você, propagandeador do “midialivrismo” do coletivo (eca) Mídia NINJA, teria notado que eles cobriram as tenções com os índios Guarani-Kaiowá no Mato Grosso. Cobriram também o Forum Social Mundial. Ou seja, não são um movimento que surgiu do nada junto a estes protestos. E… Quem pagou todas essas viagens?

 

Eles inovaram na forma de transmitir, imersos na massa, mas de independentes nunca tiveram nada. Ok?

 

Que continuem as transmissões, e que você - se espectador deles - não continue a ser um mané.

Que continuem as transmissões, e que você – se espectador deles – não continue a ser um mané.

 

Fora o anúncio, também veiculado na matéria de O Globo, do objetivo de buscar agora recursos federais para crescer, o que não é crime, nem pecado, nem feio, nem nada, só diminui ainda mais o caráter independente que é vendido, mas nunca existiu.

 

E antes que reclamem, como eles reclamam, da parcialidade da Globo, do interesse do conglomerado em desmoralizar os “Ninjas”, em não perder espaço, referência, confiabilidade… Existe esse caráter sim, o que não invalida que os dados verídicos desmentem – agora até para os menos atentos – o mito de independência louvado pelos próprios “Ninjas” e comprado cegamente pelos ingênuos manifestantes que continuam tomando as ruas do país. É cobra comendo cobra, e nenhuma mais nobre que a outra.

 

O mito da imparcialidade jornalística, mais um conto brasileiro

 

Não reclamo de haver preferência para um viés ideológico, que remete diretamente para um viés partidário, dentro de um veículo de comunicação, pois este pode até ser imparcial, ou tentar ser, mas seus construtores, os jornalistas, através de seu conteúdo, nunca serão.

 

Toma-se por assertiva, mais uma vez, a análise feita pela nossa colaboradora Nathália Caltabiano, ao atestar em artigo publicado aqui que imparcialidade jornalística é hipocrisia.

 

Mas o problema não é ter parcialidade ideológica, pois a maioria tem, o problema é mentir e dizer que não tem. Os veículos, quanto maiores forem, possuem chances de serem parcialmente imparciais, de respeitarem o contraditório (mantendo colunas ideologicamente opostas, por exemplo). E este contraditório não morreria ainda que eventualmente em editoriais seus comandantes manifestem-se publicamente em favor deste ou daquele, partido ou político, em momento eleitoral. Cabe ao leitor acostumado com diversidade opinativa, julgar-se favorável ou não. O veículo estaria sendo mais ético do que dizer não ter candidato e tudo que for publicado desmentir isso. Agora, isso se houver um interesse real em manter a pluralidade, o que não percebemos na maioria dos grandes.

 

A independência (nos moldes que esperam os manifestantes) hoje reside apenas em pequenos veículos espalhados pela internet, fundo de quintal mesmo, como é a Feedback Magazine, fruto de cabeças pensantes que amam, de verdade, a pluralidade.

Fernando Henriques
Idealizador e editor desta revista, Fernando Henriques é um consumista informacional. Formado bacharel em Ciências da Computação, encontra na Comunicação um elo natural. Viciado em séries, filmes, rock, MMA, política e desafios.

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  • Marciel Gomes

    Fernando com relação ao financiamento do “ Mídia Ninja “ concordo com você. Sou completamente a favor dos protestos, você sabe disso, mas depois que li o texto, confesso que o Mídia Ninja já mais não me agrada, mas mesmo assim eles vêm indiretamente ajudando com as transmissões e independentemente de seus objetivos, estão sendo grandes aliados. No momento em que o país se passa, acho que a sua própria ideologia é o que menos importa para as pessoas. Uma boa parte da população não suporta mais tanta manipulação da mídia, as pessoas não estão preocupadas do onde eles vieram e com isso o próprio Mídia Ninja está pegando essa barca e crescendo a seu favor.

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      É como falei, Marciel, aproveite o trabalho deles, se é o que deseja, mas tenha consciência do que representa, qual ideologia eles professam, de que pensamento são próximos etc.

      Sobre manipulação da mídia, sabe que não sou 100% a favor dessa visão. Não é questão de manipulação, é questão de viés ideológico, interesse financeiro indireto (produzir conteúdo para este ou aquele segmento, como o súbito abraço – ou tentativa de – da Globo aos evangélicos). Não vejo nada demais nisso também, comentei no texto anterior (http://www.feedbackmag.com.br/isso-a-globo-nao-mostra-bonde-do-senso-comum-2/) que senão gostamos temos que fazer nossa parte, os Ninjas buscaram fazer a deles, só que se venderam como independentes. Minha posição foi mostrar que não é bem assim.

  • Nathália Caltabiano

    Fernando, realmente o grande problema pra mim é as mídias não ‘tomarem as frentes’ que gostariam. Elas ‘fingem’ ser imparciais e enganam os desavisados que acreditam que estão lendo um texto isento de parcialidade. Infelizmente as pessoas ainda não sabem interpretar textos e muito menos diferenciar ideologias, ainda mais ideologias mascaradas. E é por isso que as coisas estão como estão.

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      Pois é, Nathália. Interpretação de texto é um dos grandes problemas do Brasil, impressionante.