Nem Rock tampouco in Rio: 30 anos de muita música e ainda <br /> mais dinheiro

Nem Rock tampouco in Rio: 30 anos de muita música e ainda
mais dinheiro

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Trinta anos depois, ainda há uma galera que reclama de Ivete Sangalo, por exemplo, estar no line up de um evento que, segundo essa galera, deveria apresentar apenas Rock.

 

Acontece, amiguinhos, que desde sua primeira edição em 1985 o Rock in Rio sempre foi um festival de música. MÚSICA. Na primeira edição, tivemos no mesmo palco Elba Ramalho, Iron Maiden, Gilberto Gil, Ozzy Osbourne, Erasmo Carlos e James Taylor, entre outros. Eu era apenas um futuro rockeirinho de um ano de idade à época, portanto é biologicamente impossível que eu me lembre se existiu mimimi acerca disso. Mas meu sogro, que esteve lá e assistiu diversos desses shows, me conta que as pessoas estavam muito mais preocupadas em acompanhar aquele grande evento, que seria o primeiro deste tamanho na América Latina, do que ficar discutindo o nome ou função do mesmo.

 

Até então era difícil haver grandes shows de apenas um artista, imagine um festival!

 

Em 1991, na segunda edição, a história se repetiu. Line up eclético, que ia de Guns N’ Roses, Sepultura e Megadeth a George Michael, Ed Motta e New Kids on the Block. A essa altura, o próprio evento já tinha colocado o Brasil no circuito das grandes turnês mundiais. Mas como festival ainda era a principal referência.

 

Apesar de as pessoas já estarem acostumadas a ver seus ídolos mais de perto, ver todos juntos no mesmo lugar, às vezes no mesmo dia, ainda era uma coisa que só o RIR proporcionava. Por isso, ainda aguardava-se um George Michael sem hostilizar uma Elba Ramalho (relato de uma amiga de trabalho que foi uma das milhares de pessoas que esteve no Maracanã conferindo se era verdade que a Elba costumava se apresentar sem calcinha – deixando a Elbinha à vista com seu vestido esvoaçante – enquanto aguardava o então grande astro pop, George Michael). E nada de contestar o nome, pelo menos nada que fosse digno de discussão.

 

Rock in Rio, o retorno

 

Eis que em 2001 o Rock in Rio volta poderoso e triunfante. Apesar do hiato de 10 anos a força do mesmo só aumentou, como se tivesse passado um tempo treinando numa sala do tempo de Dragon Ball, onde esses 10 anos foram uns 100 pelo menos. Dessa vez, a Cidade do Rock era uma verdadeira cidade. Enorme, imponente, com seus palcos diversos, com shows simultâneos e estilos próprios. E justamente aí já começava a reclamação dos xiitas, que começavam a se criar.

 

Um desses palcos “secundários” era a Tenda Brasil, que obviamente trazia só música brasileira, e meio que tirava alguns artistas do Palco Mundo, o principal. Sair do palco principal os demarcava como menores. Isso segundo a crítica e alguns desses artistas que, em sua maioria, eram incentivados pela mesma crítica e por um grupo de artistas que simplesmente boicotaram o evento por terem sido convidados a tocar em ‘horários ruins’. Curioso que isso nunca foi questionado antes. Eu, caso fosse um desses artistas, ficaria lisonjeado em ser convidado a tocar no mesmo palco que meus ídolos e influências, e não me sentiria nem um pouco diminuído em abrir o show deles. Mas eles preferiram ‘se valorizar’ do que aproveitar a chance de subir ao palco principal do maior evento da América Latina e um dos principais do mundo. Enfim, essa coisa de ‘palco menor’ não pareceu impedir que uma galera acompanhasse empolgadíssima aos shows de Tihuana, Tianastácia e Plebe Rude ao mesmo tempo que alguma outra coisa rolava no ‘palco principal’. Digo isso com a propriedade de quem esteve lá, do alto de seus 16 aninhos, e viu tudo in loco.

 

Ainda sobre os palcos, chegamos ao mais polêmico dessa edição: A Tenda Eletrônica. Me lembro que meus amigos questionavam a existência de um palco de música eletrônica num evento que tinha rock no nome. O que acontece é que esse estilo tinha crescido e ganhado força durante o período em que o festival tinha ficado ausente. Além disso, o festival agora tinha concorrentes, o maior deles, pelo que lembro, era o Hollywood Rock que teve duas edições incríveis no meio dos anos 90. Portanto, o RIR tinha que se reciclar pra não ficar pra trás, além de angariar novos fãs. Medina é um visionário. Sempre foi. E sabe como poucos multiplicar dinheiro. Ele estava ali expandindo sua marca. Sim, o Rock in Rio se tornara uma marca, e transgredira. Já não era mais apenas um festival de música, tampouco um festival de rock (coisa que nunca fora).

 

Tenda eletrônica no RIR 2015

E a tenda eletrônica esteve presente também na edição deste ano

 

Porém, em 2001, ainda havia pouco espaço pros chatos darem voz a discussões inúteis nas redes sociais que mal existiam. Por isso, o assunto nem foi muito longe, morreu cedo. O que rendeu mesmo à época, a ponto de marcar negativamente o festival daquele ano, foi a distribuição do line up. A fim de manter a linha eclética de sempre e sendo surpreendido pela recusa de alguns artistas de se apresentarem em horários ‘alternativos’, a organização acabou cometendo um dos maiores (senão o maior) erro da história do festival: colocou Carlinhos Brown no mesmo dia e palco de Guns N’ Roses. O resultado todos nós lembramos.

 

Talvez tenha começado aí a grande discussão que originou esse artigo. Muito começou a se discutir sobre a escalação de artistas que não condiziam com a suposta ideia do evento.

 

Uma pequena observação antes de seguir com a dissertação: a partir desse ano, o festival passou a acontecer com mais frequência e além-mar. Surgiriam o Rock in Rio Lisboa e Rock in Rio Madri. Isso consolidou ainda mais a ideia de uma marca, muito além de um festival de música. Dezenas de souvenirs foram vendidos a peso de ouro, desde camisas com a logo até, PASMEM, blocos de lama (!!), que seriam da Cidade do Rock original de 85. Portanto, não só a ideia do Rock no nome passou a ser “fictícia”, quase um nome artístico, como também o ‘in Rio’. Rock in Rio Lisboa. HEIN? Rio Lisboa?! Fim da observação.

 

O festival continuou eclético nas edições recentes

 

Quando o festival voltou a acontecer no Rio em 2011, trouxe artistas que estavam em alta naquele momento e que já até haviam tido chance nas edições internacionais e corresponderam à expectativa, como Ivete Sangalo. Estilo musical à parte, essa é uma artista vencedora de prêmios internacionais, que viria a se apresentar até no mítico Madison Square Garden em NYC. Ainda assim, questionava-se sua presença ali. “Isso não é rock!”, eles disseram. Amiguinho, o que é rock? É ter solo de guitarra? Pois Ramones na maioria do seu repertório não o tinha, e no show da Ivete há. Não vou nem entrar nessa questão. Além disso, como já disse previamente, Medina é um visionário que sabe multiplicar dinheiro. Ivete arrasta multidões. Dá audiência, e veja só, dá o que falar. Mesmo que essa falação seja acerca de sua presença merecida ou não naquele evento. Enquanto vocês mimizentos discutem, Medina, Ivete, emissoras de TV, e centenas de patrocinadores enchem os bolsos ao passo que centenas de milhares de fãs esvaziam os seus pra vê-la no (ainda) maior palco da América Latina.

 

Foi assim em 2011, 2013 e agora em 2015. Foi assim com os RIR Lisboa, Madri e Las Vegas. Será assim nos próximos? Provavelmente. Vai fazer com que a organização mude de postura? Óbvio que não. Desde Carlinhos Brown que o evento vem sofrendo essa perseguição (infundada, diga-se de passagem) e a cada edição vem se superando e aperfeiçoando para que possa continuar mantendo sua tradição de ser um festival de música tão monstruoso e ousado que consegue transformar lama de trinta anos atrás (ou não, porque né, como provar/analisar?) em cifras. Pra alegria dos fãs de música e da crítica especializada que sempre terá assunto. Mas muito mais pra alegria da família Medina e dos patrocinadores que continuarão a lucrar com tudo isso e muito mais do que possamos imaginar. Queiram vocês mimizentos ou não.

Thiago Amaral
Nerd inveterado. Entretanto, apaixonado por esportes, especialmente futebol. Professor de inglês e jornalista wannabe. Consumidor voraz de cultura pop. Conhecido no underground como pai da Alice.

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  • Yuri Tavares

    O grande Problema com fundamento ou não está na palavra rock no nome, onde pessoas com conhecimento superficial sobre a história do evento fatalmente irão comparar com Master of rock, Rock in ring, Monster of rock dentre outros que fazem bastante juiz ao nome, acho que o grande problema está nessa questão!

    • Thiago Amaral

      Yuri entendo seus argumentos, porém vou dizer a razão de não concordar por completo. Existem muitas coisas que não condizem com nome e não necessariamente caracterizam algum tipo de ‘propaganda enganosa’. Pra ficar só no campo dos festivais que você citou, o Monsters of rock não traz apenas ‘monstros’ do Rock, que na minha concepção deveriam ser os caras clássicos, sem muito espaço pra coisas novas ou que não se encaixassem em Rock n’ roll puro, de raiz.
      Isso nos leva de volta a um ponto que citei no texto: a definição da palavra em si. O que é rock? O que é clássico? Existem tantas bandas assim que preencham esses quesitos ainda na ativa? E o mais importante: DÁ RETORNO FINANCEIRO?
      Sobre a questão do marketing, novamente, é uma jogada financeira. É preciso vender o evento e de um jeito que haja apelo visual de forma atrativa. Pense num headbanger padrão. (Foi difícil imaginar? Pra mim foi. Não tenho um conceito visual de headbanger que não seja estereotipado. Pelo menos não um só. Mas enfim) Você acha que o que ele consome, em geral, venderia? Além do mais, é preciso amarrar o evento a um conceito. Tipo, Lollapalooza é alternativo/indie; SWU é sustentável e por aí vai. Todos tem uma cara. E mesmo assim não trazem só um estilo musical.
      Em suma, tudo se resume ao lucro, conforme expus no texto. É preciso ser atrativo e ter objetivo pra que invistam e que haja retorno.

      • Yuri Tavares

        Sim e volto a chamar a atenção pro início do comentário, discussões com idéias superficiais estão cheias nas redes, essa é mais uma, onde quem posta algo negativo sobre algo, acha que é detentor da verdade e as vezes se baseando em um fragmento de algo que leu sem nem saber a procedência toma aquilo como verdade, é se tiver quem o apóie piorou, mais um hater, mas concordo com quase tudo, aquele adolescente revoltado que acha que seu estilo musical é foda e quem não gosta não é digno de viver muitos de nós já foram assim quando vê um comercial ou algo que passe pra ele aquele idéia de algo que está inserido no contexto musical que ele gosta quando pintar neste evento em questão qualquer outra coisa que não seja o que ele curte, BOOM the mimimi starts!

  • Anderson Xavier

    Thiago,

    fiquei duplamente feliz com o texto. Primeiro, pela qualidade e maturidade linguísticas. E depois, não menos importante por isso, a análise do evento. Enquanto quem faz a música, como o Andreas Kisser, está preocupado em agregar, em valorizar o caráter multicultural do país, os fãs radicais e, geralmente, senso comum, embora se acreditem altamente letrados, engajados e politizados, julgam, menosprezam e consegue a proeza de vaiar ícones da histórica cultural e musical brasileira.

    Parabéns!

    P.s.: Quando sair o próximo texto, divulgue e, por favor, me marque. Ler um bom texto sempre faz bem.

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      Anderson, diante da sua confissão de apreço por uma boa leitura, convido-o para, no espaço entre um texto e outro do Thiago, navegar pelo site e ler outros textos de outros autores. Abs.

    • Thiago Amaral

      Professor, fiquei lisonjeado em ver seu comentário aqui. Você não imagina o quão gratificante e incentivadoras foram suas palavras. Muito obrigado!
      Sempre que publicar algo ficarei feliz em convidá-lo a ler.