Nem a Liga da Justiça

Nem a Liga da Justiça

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Vendida, abandonada. A segurança pública no estado do Rio de Janeiro é assunto pra – pelo menos – dez ou doze períodos de altos estudos em Harvard ou Stanford.

 

Nota-se, com facilidade, o quão complexo é esse assunto em uma simples cena do cotidiano fluminense: Um policial militar com salário de miséria toma – sem pagar – um café no Starbucks mais próximo, esperando ansiosamente pelo fim de seu turno de carga horária desumana, para entrar no seu importado com bancos de couro e deixar (?) de lado a missão hercúlea de prover segurança – ou a sensação desta – ao povo que insiste em tê-lo como inimigo.

 

Uma cena. Um instante. Mil questões.

 

E, antes de ser apedrejado, peço perdão e paciência ao colega policial honesto e íntegro. Ao desafeto dos órgãos de segurança pública, também solicito compreensão. Longe de mim generalizar. A ideia nestas linhas é apenas abordar a complexidade do assunto.

 

Pra iniciar, temos que admitir que vivemos uma guerra civil. Violência urbana sempre haverá, de Paris a Nova Iorque. Armamentos de calibre .50 sendo apreendidos com relativa frequência, NÃO. E não mesmo. O policial parisiense não perde colegas de farda na queda de um helicóptero durante uma incursão. Isso é coisa pras Forças Armadas, Falluja, Afeganistão. Pois é. Não estamos longe disso.

 

O Afeganistão é aqui!


 

Que o digam as famílias de José Carlos Fernandes Garcia, Tiago Sarmento dos Santos, Michel Augusto Mikami e tantos outros que perderam o direito de viver tentando defender a vida de terceiros.

 

Segundo ponto seria entender como chegamos nesse nível, pra quem sabe, curar os sintomas: Guerra do narcotráfico. Roubos de carros, bancos, carros-forte. Tudo com o objetivo de angariar fundos pra investir em armas e munição que serão usadas aonde mesmo? Na guerra do narcotráfico.

 

Alternativas temos aos baldes, camaradas.

 

Legalizar a maconha? Talvez. Mas não esperem com isso o início de um conto de fadas. Traficante vende pó, skank, heroína, crack. Vai legalizar tudão? Chamem Rick Grimes, os zumbis estão chegando.

 

Desmilitarizar a PMERJ? Segue a mesma linha de ação do “tirar o pé” da opção anterior, com a possibilidade do aumento estratosférico da criminalidade.

 

E se resolvêssemos guerrear? Sim, enfrentar essa força adversa. “Um banho de sangue histórico”, diriam muitos. Amigos, vimos pouquíssimo ou nenhum sangue derramado em 2010 na ocupação do conjunto de favelas do Complexo do Alemão. A Rocinha foi tomada sem um único disparo de arma de fogo. A força bélica do Estado é monstruosamente maior – com o apoio das FFAA, óbvio.

 

É claro que essa guerra deveria começar lá na fronteira com a Colômbia, passando pelo controle do espaço aéreo – missão delegada pela presidente a Ricardo Fenelon Jr, genro do senador Eunício Oliveira, apadrinhado político do governo. O que me parece, há muito tempo, é que não há vontade política de por um fim nessas mortes e nesse escandaloso e desenfreado mercado das drogas que assola o estado.

 

O BNDES financia construção de estradas utilizadas por narcotraficantes na Bolívia, principal fornecedor de cocaína ao Brasil. O país investe – mal, muito mal – 1,24% de seu PIB em segurança. É uma das menores taxas no mundo.

 

Solução mágica? Mil desculpas, irmão. Não serei eu a trazer. Mas de maneira bem resumida vejo algo no rumo da educação; aumento do rigor nas penas e nas suas aplicações – indulto de natal pra detento é piada -; aparelhamento estrutural dos órgãos de segurança; e, o mais importante: uma mudança, gradativa que seja, no conceito de que o agente de segurança é o truculento, safado, inimigo e arrogante. Por mais que alguns o sejam.

 

Se o braço forte do Estado for descartado, a quem recorreremos quando a água bater na nossa canela? Nem a Liga da Justiça traz boas recordações ao pobre do carioca.

Kadu Bastos
Carioca, vascaíno incondicional, 25 anos, nascido em Duque de Caxias - RJ. Simpatiza com assuntos que envolvam segurança pública, direito criminal e psicologia forense.

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  • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

    Parabéns pela estreia, Kadu. Belíssimo texto, já deu para ver que você leva jeito.

    • Kadu Bastos

      Po camarada, brigadão. To meio enferrujado mas às vezes me inspiro. HAHA