Não

Não

2

Durante os seus 46 anos de vida, André nunca havia se sentido tão mal como nesse exato momento. Pessoa pacata, na visão de alguns era um covarde, pois não só fugia de qualquer briga, coisa que poderia se entender por seu corpo franzino, mas também pelo fato de não se impor às pessoas. Ele não conseguia dizer a palavra “não” para ninguém que levantasse a voz um pouco ou insistisse muito por algo que ele não queria fazer. Porém nessa manhã de segunda-feira ele levantou de sua cama com uma ideia que ouviu do seu psiquiatra na última consulta: “André, a vida é imprevisível. Arrisque-se!”. Hoje André seguiria esse conselho e tremia de medo só de pensar nas consequências.


Como todos os dias ele passou na padaria para tomar o seu café e, ao ir até o caixa para pagar a conta, resolveu dizer não para as ofertas diárias de balas para o troco que faltava e acabou pagando menos do que de costume. Espantado com o resultado positivo, resolveu dizer não para tudo e para todos. O chefe que gritou o nome dele e ouviu um “agora não”, em resposta disse: – “Quando puder venha aqui”. Para o amigo da baia ao lado, que sempre pedia para ele comprar seu almoço, um “não”, e dessa vez o amigo que foi comprar o almoço para ele. Para a secretária que sempre queria sair um pouco mais cedo, outro “não”, e ela nada fez além de voltar para sua mesa. E ao final de mais um dia de trabalho ele pode chegar à conclusão de que ao dizer “não” o mundo não acabaria, agora essa seria a palavra de ordem em sua vida.


Com toda certeza esse seria o dia mais feliz da vida de André, as pessoas não mais subiriam em suas costas e o fariam de escravo. A felicidade finalmente chegava em sua vida através de uma palavra tão simples de dizer, mas que ele levou 46 anos para poder falar de forma plena e confiante. Para ele seria o fim de uma era e o começo de outra, totalmente nova e revigorante. A era do “não”!


Ao voltar para casa, se sentindo um novo homem – como alguém convertido por alguma religião, ele se deparou com mais uma situação em que sua fé no evangelho do “não” seria colocada à prova. Um homem de má aparência, vestindo roupas velhas e com certo olhar vazio chegou até ele e anunciou o assalto pedindo sua carteira. Uma das mãos em baixo de um casaco sujo fazia entender que ele estava armado. Bem, essa situação pedia mais uma aplicação para a solução de todos os problemas da vida de André, ele disse a palavra “não” outra vez e virou as costas, continuou caminhando em direção a sua casa com um enorme sorriso no rosto e com a sensação de que agora sua vida realmente havia mudado.


Cinco passos depois, um estampido que ele não chegou a ouvir fazia seu corpo cair ao chão. Ali seria o final de seu fantástico dia e de sua vida. No necrotério ao lado de seu corpo frio, os legistas se perguntavam como o rosto de André ainda estampava um enorme sorriso de satisfação, como se ele tivesse o dia mais feliz de sua vida. Simplesmente eles “não” conseguiam entender o que havia acontecido.


Nota do editor: A Feedback Magazine apoiou o Concurso de Contos 2011 do Blog da Comunicação. Este foi o conto vencedor, totalizando 39,81% dos votos. A produção dos contos que concorreram foi realizada na disciplina Estratégias Discursivas em Comunicação, que faz parte da grade do curso de Comunicação Social da UNISUAM.

Carlos Nani
Carlos Eduardo Nani é fã de cinema, quadrinhos, rock, livros, ciência e tudo mais que possa gerar um bom debate e novas ideias. Estudante do 5º período de Comunicação Social na Universidade Augusto Motta, com habilitação em Publicidade.

Leia também...

 
Dê mais vida a Feedback Mag., para sua imagem aparecer ao lado de seu nome nos comentários, cadastre-se no Gravatar usando o mesmo e-mail com o qual você comenta aqui na revista. Leva 2 minutos.
 
  • http://www.ferreirakp.blogspot.com Kleiton Ferreira

    Carlos! parabéns pelo texto. E você tem razão quando afirma que dizer um “não”, as vezes pode mudar a vida de uma pessoa. Dizem os especialistas em desenvolvimento humano (psicólogos) que uma criança escuta um “não” mais de 600.000 vezes no seu 1º ano de vida. E muitas vezes o “não” é uma forma de ajudar. O final da história é trágico, mas sei que foi um final feliz. Alguém que ousou mudar, e por por isso pagou um preço. Mais uma vez parabéns pelo texto criativo e educativo.

  • Fernando Henriques

    Parabéns Carlos, pela vitória no concurso e pelo belo conto. Continue escrevendo e aparecendo por aqui. Abs