Não há “mocinhos” na Síria

Não há “mocinhos” na Síria

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Os brasileiros em geral parecem trazer em seu DNA um asco natural para com qualquer forma de poder instituído, o mal fadado “Sistema”. Se numa situação temos governo e rebeldes em conflito, os rebeldes serão apoiados automaticamente, sem mesmo antes entendermos quem são é o que querem estes rebeldes.

 

Foi assim com tão famosa e bem quista Primavera Árabe, iniciada em 2010 e aparentemente ainda não terminada. O grupo denominado Irmandade Muçulmana estava inserido em todas as manifestações “populares” que insurgiram no Oriente Médio, sendo o maior beneficiado após o êxito de muitas delas. Porém à época do irrestrito apoio ocidental aos rebeldes árabes, não obtivemos detalhamento do que exatamente eles propunham e sequer sabíamos o que era a Irmandade e como ela estava presente na massa. Hoje temos mais luz sobre os fatos e aqueles que ainda possuem sua bússola moral apontada para o lado certo, não tem coragem de apoiar tal organização.

 

Já aqueles que somente se opõem a qualquer forma de governo, seguem acreditando que os rebeldes se corromperam com o poder, como se essa abstração – “poder” – fosse o mal, e não as pessoas, suas ideologias e seus projetos de poder.

 

A verdade é que o atual conflito sírio, que já dura dois anos, onde temos de um lado do ditador Bashar Al-Assad e do outro a Irmandade Muçulmana (além da Al Qaeda), nos mostra como o Oriente Médio está imerso em lama. Em ambos os lados temos projetos e ideologias que em nada representam aquilo que prezam os ocidentais. Democracia, liberdade (religiosa principalmente), capitalismo, Estado menos forte, prosperidade, progresso, você não vê na Síria. Lá não há nada que um ocidental digno e consciente da cultura que representa, que o “pariu”, em seus conceitos e vórtices morais, posso louvar e apoiar. E numa situação dessa, com um ataque com armas químicas comprovado, os únicos “mocinhos” naquelas terras são realmente as crianças que agonizaram diante dos olhos de muitos de nós.

 

Não apoiar nenhum lado político é ser minimamente justo com aquelas crianças, uma vez que mesmo diante de diagnóstico da ONU, apontando realmente o governo de Assad como responsável, nunca saberemos com exatidão o que ocorreu.

 

Sob aquele território pairam muitos interesses, tentarei desenhá-los nos tópicos abaixo, para traçar um panorama da situação. Teorias serão expostas sem pudor, não se escandalize.

 

Obama e a Irmandade Muçulmana

 

Através de seu irmão queniano (quem diria, presidente da América com irmão africano, tempos modernos), Barack Hussein Obama seria indiretamente ligado ao grupo Irmandade Muçulmana.

 

Como assim? Parece e é realmente absurdo pensar que o presidente dos EUA teria interesse em derrubar um ditador islâmico não teocrático para favorecer a subida ao poder de uma organização totalitária islâmica. Mas como absurdos são comuns em tempos de guerra, não iremos ignorar este.

 

Uma matéria do site WND, publicada no mês passado, destrinchou o envolvimento de Malik Obama com organizações próximas ao terrorismo. Além de proximidade com a Irmandade Muçulmana, Malik seria secretário executivo da IDO (Islamic Da’wa Organization), organização criada pelo governo do Sudão – país considerado terrorista pelo Departamento de Estado dos EUA – que tem por objetivo espalhar o wahhabismo na África, uma vertente do islamismo defendida pela Al-Qaeda. A mesma matéria traz relatório e declarações da vice-presidente do Supremo Tribunal do Egito, Tehani al-Gebali, que acusa o presidente Obama de financiar o terrorismo naquelas terras, através de apoio financeiro a Irmandade Muçulmana. Tehani proferiu tais acusações em cadeia nacional de seu país, quando fez algumas revelações desta ligação e disse ter muito mais a revelar, num documento que ela chamou de “presente para o povo americano”.

 

Leia mais sobre isso neste artigo em português: “Comprovado: irmão de Obama é ligado à Irmandade Muçulmana”.

 

A descrença, diante de acusação tão grave como essa, é um primeiro sentimento natural. A falta desta informação em grandes veículos internacionais é um fator de reforço a essa descrença. Mas sabemos que os bastidores do poder reservam mais, bem mais, do que se lê em grandes jornais e revistas, a História nos conta isso, pois quando não mais interessa, absurdos deixam de ser e passam a integrar livros históricos. E dada a origem de Obama e o envolvimento de seu irmão, este sim, nada duvidoso, guardemos ao menos estas informações como suspeitas.

 

Malik mostra uma foto sua com seu irmão, tirada na década de 80. | Créditos: midiasemmascara.org.

Malik mostra uma foto sua com seu irmão, tirada na década de 80. | Créditos: midiasemmascara.org.

 

Os conservadores americanos, oposição ao governo Obama, comumente apontados por analistas políticos brasileiros como apoiadores de guerras indiscriminadamente e braços da indústria bélica, se posicionaram contrariamente a uma intervenção americana no território. Os libertários, que compõem a outra ala forte do partido republicano, defensores do PNA, naturalmente também se opuseram a uma intervenção. Os motivos são simples, e entre outros, a inegável verdade que ao confrontar Assad, os EUA iriam ajudar radicais piores do que ele.

 

Ann Coulter, comentarista política americana, chegou a declarar que na ocasião de um ataque, os EUA seriam a força área da Al-Qaeda na região.

 

O fato do governo de Assad proteger os cristãos sírios (coptas) também é um grande fator. Uma vez deposto o ditador, aqueles que inevitavelmente subiriam ao poder caçariam tais cristãos – como já vem fazendo grupos rebeldes em algumas cidades que dominaram. Análises apontaram que neste cenário, sem Assad, os cristãos de todo Oriente Médio ficariam desprotegidos e sob risco de serem erradicados.

 

Mas independente de tudo isso, e mesmo depois da Síria, sob orientação russa, se posicionar favorável a entrega das armas químicas de destruição em massa que possui (antes que falem, ninguém acredita que entregariam todas, mas já seria um gesto diplomático que sinalizaria algum freio daqui por diante), Obama continua obstinado a conseguir apoio para um ataque. Me pergunto de onde vem tamanha obstinação e só consigo pensar na Irmandade Muçulmana e na simpatia que Obama apresenta por esta. Por que Obama quer tanto depor Assad? Seria ele o único ditador assassino no mundo? Obama se lembra que Cuba e China ainda possuem governos extremamente autoritários? Não estou relativizando de forma alguma posturas claramente condenáveis, que observo não só na Síria, mas nestes outros países citados, apenas buscando uma reflexão maior para entender a gana em atacar que Obama apresentou neste caso, bem como a rapidez com que afirmou que o Governo Sírio cruzou a tal “linha vermelha”.

 

Seriam aqueles pouco mais de mil sírios mortos de forma degradante o verdadeiro estopim, ou seriam eles, as únicas vítimas no caso, apenas o pretexto? Irmandade Muçulmana e Malik talvez possam responder.

 

Por que a Rússia defende a Síria

 

A Rússia é detentora do monopólio de venda de gás natural para a Europa, sendo esta atividade de importância predominante em sua economia. A União Europeia busca há anos uma alternativa a este monopólio e os ex-comunistas (sic), ao mesmo passo, uma forma de mantê-lo. Adicionando Síria e Qatar a este cenário de comercialização de gás natural para a Europa, podemos entender o interesse primordial russo em defender o governo Assad.

 

O monárquico Qatar é um estado tão pequeno quanto rico, uma potência energética: petróleo e gás natural. Estima-se que o país tenha a terceira maior reserva de gás natural do planeta, atrás somente de Irã e Rússia. Considerando o monopólio de fornecimento russo para a Europa, e a vasta reserva no Qatar, seria bom para aqueles que querem acabar com o monopólio russo que o país governado pelos Al Thani possa fornecer gás natural diretamente para a Europa.

 

Existem outros fatores agravantes nesta disputa, como a descoberta de novas reservas sob Israel, Líbano, Chipre e Síria. Mas o fato é que o Qatar vem sendo acusado de financiar os rebeldes que buscam derrubar Assad. O motivo? O Governo Assad, sob proteção russa, impede a construção de um gasoduto que atravesse solo sírio para fornecimento para a Europa, que favoreceria o Qatar e prejudicaria a Rússia.

 

A Turquia, também na rota do gasoduto após a Síria, estaria de acordo com o empreendimento. Somente Bashar Al-Assad está no caminho. Os conflitos étnicos que vemos na síria seriam verdadeiros, mas insuflados por estes agentes externos interessados em por fim ao domínio russo. Aliada da Síria e do Irã, o esquema vigente beneficia a nação da vodka.

 

Mapa da região. (Clique para ampliar.)

Mapa da região. (Clique para ampliar.)

 

Os EUA, obviamente, são contrários à dependência europeia da Rússia. E existe ainda a Arábia Saudita, também fornecedora de gás, com interesses sob a Síria. Mas a total confiança russa em Assad pode ser explicada em função dessa briga pelo fornecimento de gás. Sem Assad, eles perdem monopólio importantíssimo para sua economia.

 

Assim, fica fácil entender como após vinte anos de silêncio – desde a queda do muro de Berlim e dissolução da URSS, oriundos do fim e derrota russa na Guerra Fria – a Rússia volta a se manifestar sobre questões no Oriente Médio, em oposição aos EUA. É o retorno de um cenário que trouxe muitas mazelas aos homens.

 

Vamos nos desculpar com George W. Bush?

 

É engraçado perceber que quando os EUA decidiu intervir no Iraque, sob a gestão de George W. Bush, as manchetes mundiais diziam que “Bush invadiria o Iraque”. Agora, na gestão Obama, “os EUA invadirão à Síria”. Sutil, porém relevante diferença.

 

Obama, ganhador do prêmio Nobel da Paz em 2009, não retirou por completo as tropas americanas do Iraque e Afeganistão, conforme alguns ingênuos esperavam, porém sua eleição retirou dos jornais as sucessivas e críticas notícias sobre os conflitos.

 

Sem querer justificar Bush Filho, que não precisa disso, é notória a diferença no tratamento dado aos dois últimos presidentes da América. Falando do Iraque, guerra tão criticada internamente quanto a do Vietnã, o motivo alegado para intervenção é do conhecimento de todos. Através de fotos de satélites os americanos afirmaram que Saddam Hussein tinha armas químicas com capacidade de destruição em massa. A suspeita era de que Sadam tinha armas capazes de liberar o famoso gás Sarim, o mesmo que a ONU acaba de confirmar ter sido usado na Síria. Só que após a invasão e tomada de Bagdá, tais armas não foram encontradas.

 

Em livre exercício de conjecturas, Alexandre Borges apontou em sua página no Facebook, assim que explodiram as notícias de um possível – agora confirmado – uso de armas químicas na Síria:

 

- A Síria e o Iraque são vizinhos, dividem 600km de fronteira.
 
- Bashar al-Assad, presidente da Síria desde 2000, é do partido Baath, o partido socialista islâmico, o mesmo do companheiro Saddam Hussein. O PT, é bom lembrar, tinha um acordo com esses bastiões da democracia.
 
- Quando da invasão do Iraque em 2003, as armas fotografadas por satélites militares não foram encontradas. Havia uma corrente entre analistas militares que defendia terem sido enviadas para a Síria com a ajuda da Rússia.
 
- Não há mais dúvidas que o governo sírio está usando armas químicas com as mesmas características das que foram procuradas no Iraque em 2003.
 
- Alguns analistas já admitem a possibilidade de que as armas usadas pelo governo sírio sejam as mesmas de Saddam.
 
- O governo Obama cogita invadir a Síria sem autorização da ONU e em busca do mesmo tipo de arma que o governo anterior buscou no Iraque há 10 anos. Mas é claro que estão dizendo que agora é diferente.
 
- Nada foi comprovado ainda, mas se for verdade que as armas existiam e foram mesmo enviadas para o governo sírio, o mundo vai pedir desculpas a George W. Bush?
 
A conferir.

 

Bush estaria certo todo esse tempo, enquanto você aqui no Brasil vivia arrotando análises geopolíticas que o condenavam tacitamente? Saddam Hussein, o mundo sabia, não era flor que se cheirasse, agora Assad até ontem gozava de melhor reputação. Mesmo ditador, tinhas ares republicanos e passava uma imagem mais ocidentalizada ao mundo – até verdadeira, pois ele estudou na Europa. Mas tudo parece ter caído por terra.

 

Não fosse Putin se meter e frear o ímpeto de Obama, hoje o mundo já estaria em guerra e o Brasil, vejam só, mais pendente para o lado sírio do que americano.

 

Владимир Путин, новый президент мира. (Vladimir Putin, o novo presidente do mundo.)

Владимир Путин, новый президент мира.
(Vladimir Putin, o novo presidente do mundo.)

 

Putin não é herói, antes que se enganem, muito menos Obama ou Assad. Não vejo mocinhos nessa história, mas eles existem, procurem melhor.

Fernando Henriques
Idealizador e editor desta revista, Fernando Henriques é um consumista informacional. Formado bacharel em Ciências da Computação, encontra na Comunicação um elo natural. Viciado em séries, filmes, rock, MMA, política e desafios.

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