Não acredito em nada disso

Não acredito em nada disso

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As contas que você pega são sempre ótimas, só que não. Quantas vezes você já teve que escrever algo que você simplesmente não acredita ou que detesta? É, meus caros, essa é a realidade de quem escolheu essa profissão ingrata. Muitas vezes, somos exatamente o contrário daquilo que estamos defendendo. Além disso, o cliente ainda pode exigir que você consuma somente aquele produto, para a nossa alegria.


Um dos jobs mais interessantes que fiz foi trabalhar nas redes sociais uma promoção que estava acontecendo. A ideia era escolher a mulher mais gostosa para ser a nova garota propaganda da marca, e meu trabalho era escrever sobre isso. Realizem: EU, que não gosto desse mundo de academia e futilidades, tendo que escrever sobre o que fazer para conquistar o gato, os pagodes que estão rolando no momento (o público-alvo eram as classes C e D) e as melhores dicas para deixar o corpo em forma. Me senti escrevendo para a revista Nova, só que com menos sexo.


Pior do que isso é pegar a conta daquele político que está sendo investigado. Deveriam avisar na faculdade que você entrega a sua alma ao diabo quando começa a trabalhar com publicidade. Ideologia? Pensamento crítico? Tudo lindo em teoria. Vai pensar nisso quando você tiver que entregar um relatório para um prefeito ou governador? É, agora ele que paga as suas contas, e você precisa achar ele lindo e maravilhoso, fingir que tudo está às mil maravilhas.


Muitas agências tem este como seu principal nicho. | Créditos: mslestrategia.com.br

Muitas agências tem este como seu principal nicho. | Créditos: mslestrategia.com.br


Também tem aquele job que você adora fazer, mas que o cliente tem TANTAS exigências, que você acaba ficando sem a menor paciência. Você quer escrever o texto e espera que tenham confiança na sua capacidade. Só que ele pede para você reescrever mil vezes, e dá vários palpites para mudar. Pois é, jovem gafanhoto, a vida é muito dura para os #socialmediadadepressão. Confiança é algo que ou o cliente não tem ou ele não tem. Nesses termos. Não tinham contado isso ainda? Ah, desculpa…


Claro que nem sempre a gente pega clientes que fogem às convicções. Às vezes, por algum motivo mágico, o job é perfeito e você super se identifica com ele. Aí vem a agência e coloca a menina da criação porque ela supostamente entende melhor do que você daquele assunto. Oh Wait! Mas você é o analista de mídias sociais e deveria fazer o trabalho! É, isso também acontece – e muito –, mas já é assunto para um outro artigo.

Lívia Lamblet
Lívia Lamblet é jornalista, analista de mídias sociais e (metida a) Escritora - lançou um livro este ano. Carioca, moradora de Niterói, é altamente viciada em internet e tecnologia. Proprietária da página Analista de Mídias Sociais da Depressão e de dois perfis do Bukowski (Twitter e Facebook), além de um blog onde (acha que) fala sobre comunicação e mídias sociais. Enfim, vive de mimimi no Twitter.

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  • Anderson

    Lívia, sou designer e também sofro com isso. O pior é que eu tenho que acabar conhecendo o assunto a fundo para poder criar com propriedade.
    Mas até que eu dou mais sorte que você e pego mais serviços que me identifico.
    Texto muito bom Lívia, continue sua saga rs

    • Lívia Lamblet

      Sabe, o mais difícil é falar sobre aquilo que você não se identifica. Mas é legal, é desafiador! Boa sorte pra gente! =)

  • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

    Lívia, discordo em um ponto, sobre o pagode e as classes C e D. O estilo já foi muito popular nestas classes, mas hoje, nem lá, rsrsrs.

  • https://www.facebook.com/mariana.bonfim Mariana Bonfim

    Lívia! 
    Parabéns pelo texto. Concordo totalmente com você. Muitas vezes temos que deixar nossas ideologias pessoais de lado em nome do business… Haja estômago. Mas faz parte e mesmo assim continuamos na luta defendendo o uso das mídias sociais para fins publicitários. Abraços