Morreu, Playboy!

Morreu, Playboy!

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A forças policias do Rio de Janeiro conseguiram um feito, abaterem o mais procurado traficante do estado, conhecido como Playboy, devido as suas origens incomuns para o ramo — não era “nascido e criado” em favela.

 

Mas parece que a família do traficante vai pedir indenização ao estado. Alegam que seu ente, coitado, foi executado.

 

Pois é, o tal era apenas o mais importante traficante do Rio e, como pode?, não teve chance nem de oferecer o famoso “arrego” dessa vez. Aí, deu no que deu, deu no que sempre deveria dar em casos assim, de quem escolhe viver “pela bala”.

 

Este fim, na verdade, é o fim natural desta “profissão”. A morte, e muita mais que uma simples morte, mas uma morte “suja”, num beco, ao lado de uma vala ou dentro de um barraco, fria e sem nenhuma pompa, sem nenhum valor, é aonde o banditismo deveria levar.

 

Alguns conseguem driblar — ou comprar — o destino e sair pela tangente. Mas, vez ou outra, os astros se alinham e algo dá certo, as instituições policiais funcionam e o cabra bate as botas.

 

Um tio de Playboy, ao jornal Extra, declarou o seguinte:

 

- “Ele não era covarde, tinha o coração bom, ajudava a comunidade, dava cesta básica, remédio, fazia Natal na comunidade. Era uma pessoa que tinha um lado ruim, sim, mas tinha um lado bom. As pessoas só veem o lado ruim, criminoso. Mas criminoso tem família, filhos.”

 

Vemos aqui um nítida migração do “rouba mas faz”, de Maluf e quejandos, para o novíssimo “trafica e mata mas faz”.

 

Ah, vá!

 

E o tal tio, que pelas declarações que deu não deixou dúvidas de ser realmente um familiar de Playboy, de caráter similar, foi além:

 

- “Foi covardia o que fizeram com ele.”

 

“Como é que é?!”, foi o que exclamei mentalmente tão logo li a declaração.

 

Ora, será que este senhor enlutado de 62 anos também acha covardia vender drogas para menores de idade, ou mesmo recrutá-los para trabalhar no crime? Pois esta é uma “tradição” do tráfico de drogas, especialmente o carioca, da qual a facção e o bando de Playboy certamente não escapavam.

 

E será que, nesse tempo todo como bambambã de meia dúzia de favelas, Playboy não executou ninguém? Seria ingenuidade pensar que é possível se destacar nesta vida sem isso. E não terá sido também covardia, nobre tio, quando Playboy o fez? Quem os familiares de pessoas que foram prejudicadas pelos malfeitos de Playboy devem acionar judicialmente, Você?

 

Mas, pior que o esdrúxulo intento da família e que as declarações deste tio, é já ter notado nas redes sociais gente que dá apoio a tais posturas. Que acha certo, que afirma em alto e bom som, e nem tão bom português, que é isto mesmo que os familiares do dito cujo tem que fazer: processar o estado. Afinal, foi “queima de arquivo”, dizem, com uma certeza que não deveria lhes pertencer.

 

Já eu, que por infortúnio irreparável sou conterrâneo deste pária recém-desencarnado, acho o contrário. Para mim, era a família que tinha de indenizar o restante da sociedade, personificada na figura do estado, por ter posto em circulação um escroque desta estirpe, que tanto mal causou à sociedade — e provavelmente ainda causará, mesmo morto — nestes 33 anos que viveu.

Fernando Henriques
Idealizador e editor desta revista, Fernando Henriques é um consumista informacional. Formado bacharel em Ciências da Computação, encontra na Comunicação um elo natural. Viciado em séries, filmes, rock, MMA, política e desafios.

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