Missão: Pacificar o Complexo da Maré

Missão: Pacificar o Complexo da Maré

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Uma missão que, a primeira vista, parece complicada. Quando, porém, analisada com mais cuidado, nos damos conta de que ela é praticamente impossível.

 

A questão é: como pacificar um dos maiores complexos de favelas do Rio de Janeiro? São 15 favelas divididas entre três facções rivais, com cerca de 130 mil habitantes (IBGE, 2006). Localizado numa região estratégica da capital fluminense: às margens da Avenida Brasil, da Linha Amarela e da Linha Vermelha (as três principais vias que cortam a cidade). Tudo isso, somado a pujança comercial do complexo, a grande quantidade de armamento nas mãos de criminosos e o recurso financeiro proveniente do tráfico de drogas, transformam a missão de pacificação num verdadeiro “Trabalho de Hércules”.

 

Para deixar a incumbência ainda mais cabeluda, há um grande complicador: o prazo. 31 de julho – coincidentemente, logo após a Copa do Mundo.

 

Não é difícil perceber que uma missão como essa precisaria de um planejamento muito mais elaborado e detalhado do que o atual, além de um efetivo maior. Hoje, aproximadamente 2.700 homens do Exército e da Marinha ocupam a região. Contudo, desse total, um terço está sempre fora do Teatro de Operações, em liberação. O efetivo, portanto, reduz-se para algo em torno de 1.800 militares. Há, ainda, o rodízio das tropas nas patrulhas, deixando o efetivo “de fato” reduzido a cerca de mil homens. Ou seja, um militar para cada 130 habitantes. Um prazo mais longo e um maior número de militares seriam fundamentais no sucesso da missão. O mais importante, entretanto, é uma política de consolidação da segurança. Isso sim de vital importância para a manutenção da pacificação da região.

 

Armamentos pesados jamais serão suficientes para pacificar uma área que, há décadas, encontra-se em poder de criminosos. Além do braço armado do Estado nas ruas realizando patrulhamento ostensivo é importantíssima a implantação de saneamento básico, saúde, educação e tudo mais o que for preciso para que seja instalada, verdadeiramente, a presença do Estado.

 

Ou seja: somente tanques não resolvem, Governador.

Ou seja: somente tanques não resolvem, Governador.

 

E diante de toda problemática que é a pacificação deste turbilhão chamado Complexo da Maré (e tendo em vista a clara motivação política em virtude da Copa do Mundo e Eleições), o Comando da Operação encontra-se diante de uma encruzilhada: esmiuçar as favelas com baixo efetivo em busca dos traficantes, correndo o risco de engajar a tropa em combate, expondo seus militares a morte, ou realizar uma operação superficial (contentando-se em apenas causar prejuízo financeiro às facções e apreender pequenas quantidades de drogas e armamentos), que pode colocar em risco a confiança que a população deposita na missão e desmoralizar ainda mais os militares.

 

Pelo que foi visto até aqui, tudo indica que optaram pela opção supracitada, cimentando um caminho mais seguro até 31 de julho, haja vista que o único interesse, por parte do governo, é o político. Tudo visando à realização da Copa do Mundo, o jogo eleitoral e a preocupação com a opinião mundial (e não com a real situação da região).

 

Devido a pouca eficiência na repreensão a criminalidade e ao tempo de duração da missão, as tropas não tem conseguido conquistar a confiança dos moradores, que se encontram acuados entre as forças legais e os criminosos homiziados dentro do Complexo. Diante da perspectiva de que, após o Mundial, será deixada a mercê dos marginais que nem ao menos se deram trabalho de sair das favelas, a população se mostra resistente à ocupação, transformando-se em mais um obstáculo.

 

Numa análise fria da ocupação do Complexo de Favelas da Maré, observamos que ela é apenas fictícia, uma operação presença. Nada mais do que um subemprego das Forças Armadas para minimizar a onda de violência às vésperas da Copa do Mundo. E como todas as outras promessas realizadas em torno do Mundial, a segurança urbana no país do futebol continuará longe dos padrões da FIFA.

 

É com um grande pesar que vemos um país carente de saúde, educação e segurança, gastar bilhões em estádios de futebol para realizar uma festa para estrangeiros, enquanto vemos nosso desempenho cada vez mais pífio na educação, pessoas morrendo em corredores de hospitais, cidades isoladas no interior da Amazônia por falta de estradas, sertanejos sofrendo com a seca, mais de 50 mil homicídios por ano e crianças sendo perdidas para o tráfico. É hora do gigante realmente acordar e dar um basta a toda essa promiscuidade política que assola o país. Ou então, mantendo-se a atual situação, o Brasil, infelizmente, continuará sendo aquele velho país do futuro… Futuro do Pretérito.

Carlos Santos
Estudante de jornalismo, escritor amador, poeta de ocasião, cronista fortuito e colunista inconstante. Além de tudo, é um ex-comunista que dobrou a Direita.

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