Meu primeiro dia de treino

Meu primeiro dia de treino

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Há quatro anos participei pela primeira vez de um treino de Luta Livre Esportiva, em uma das academias mais tradicionais do estilo.

 

Apesar de ter planejado tudo com antecedência, não escondo que fiquei tenso desde quando me levantei de manhã sem saber o que este dia me reservava. O frio na barriga que senti o dia inteiro durou até o segundo anterior que pisei no tatame da academia Budokan, já no início da noite.

 

Este frio era um misto de ansiedade e medo do porvir, afinal, fora um treino de Jiu-Jitsu que havia feito na primeira academia que meu irmão treinou (treino este puxado por um faixa-azul), há pelo menos cinco anos, era o meu primeiro contato “oficial” com uma arte marcial.

 

Apesar do temor natural pelo desconhecido, estar ali treinando era algo que eu queria muito e havia preparado. Portanto, ao pisar no tatame as tensões foram embora e pude então sentir que estava feliz, sim, com a minha decisão de treinar.

 

Osss!

 

Cheguei cedo na academia, fui direto do trabalho, a aula era às 19:00h e às 18:30h eu já estava pronto aguardando seu início. Entrei no tatame, cumprimentei a todos com um tímido “boa noite” e fui logo destacando que era aluno novo. Lá já estavam uns cinco camaradas que aparentavam terem treinado há pouco (notei pelo nível de suor), dentre estes caras um deles se identificou como sendo o mestre responsável pelo treino daquele dia e pediu para que eu ficasse a vontade, me ensinou que ao entrar no tatame sempre devo cumprimentar com o famoso “Osss”. Gostei dessa recepção e gostei mais ainda do lance do cumprimento. Do fundo da minha ignorância não imaginava que a Luta Livre presava também esse lado marcial.

 

Um rosto familiar

 

O ambiente era aquele que vocês já devem imaginar, um tatame grande e meio encardido, havia a galera que estava lá do treino anterior e cada vez chegava mais gente. Um detalhe que pude notar era que a maioria dos caras treinavam naquele dia eram bem fortes e pesados, pra lá dos 90 kg, o que era bom pra mim, pois também sou pesado e queria treinar duro.

 

No meio destes caras grandões, conversando com o mestre, notei um rosto aparentemente familiar. Não, não era um conhecido meu, pelo menos não fisicamente, pois já cansei de o assistir lutar pelo computador (eventos baixados). Apesar do porte aparentemente excessivo para um atleta que costumava lutar na categoria até 66kg, eu sabia que era ele, ninguém menos que o maior campeão do Shooto, o Rei da Guilhotina Alexandre “Pequeno”. Fiquei muito feliz em saber que em meu primeiro treino iria dividir o tatame com um atleta de ponta renomado como ele.

 

Vai começar…

 

Na minha cabeça passavam diversas coisas, técnicas daquela antológica aula de Jiu-Jitsu, cenas de lutas de Vale-Tudo que já havia assistido, porém sabia que tudo isso era em vão, não significaria muito na hora do “rola”. São conhecimentos inespressivos para o nível de treino que acontece na Budokan, aplicar uma guilhotina, arm-lock ou americana em casa no seu irmão mais novo, ainda que este seja um praticante de BJJ, não significa conhecimentos reais de grappling.

 

Parte Física

 

Me surpreendi com o ritmo do treinamento, chamado de aquecimento, mas que vai muito além. O treino neste dia era puxado pelo mestre Álamo – aluno recém graduado faixa-preta pelo Grão-Mestre João Ricardo, responsável pela academia -, que variou e mesclou muito bem os exercícios de forma que foi possível trabalhar diversos músculos. Para mim era ótimo, tudo que eu precisava para entrar em forma e por isso fui prestando a máxima atenção para assimilar tudo aquilo que era passado e poder reproduzir sozinho posteriormente.

 

Teve um ótimo trabalho de alongamento, principalmente das pernas, corrida com varições para tocar o calcanhar e o joelho, e entre outros exercícios apreciei em particular a flexão abdominal e de pescoço. Exercício este (do pescoço) que eu nem fazia ideia da existência, mas que parece ser muito eficaz.

 

Um amigo do trabalho que também estava iniciando neste dia, ciente do meu sedentarismo de anos, surpreendeu-se com a minha performance em relação ao meu físico, pois executei tudo que foi pedido (sem nem uma roubadinha) acompanhando todos os demais. Mal sabe ele que após a corrida meu gás já tinha ido embora e eu levei todo o resto do treino na raça mesmo!

 

Posições

 

Após este exaustivo trabalho físico, sem nem a colaboração dos ventiladores de teto do tatame (por opção do mestre mesmo), houve uma divisão para treinar em separado os novos, nós, e os antigos. Os antigos aprenderam alguma posição nova que não pude observar e eu e mais dois novatos aprendemos a “Americana do 100kg” e a “Kimura a partir da guarda fechada”. Fomos orientados por dois companheiros mais antigos de treino. Um tempos depois o mestre veio até nós para conferir se havíamos assimilado corretamente e pediu para que mostrássemos uma das posições, prontamente executei a Kimura da guarda e acho que ele ficou satisfeito.

 

Ufa!

 

Bom, chegamos da hora do “rola”, o grande momento do treino. Eu estava tenso novamente, só que de uma forma diferente, na verdade diria que estava ansioso por este momento. Quando então o mestre foi até nós e solicitou que nos achegássemos mais para a beira do tatame, iriam começar os confrontos; que neste dia começavam em pé (era um treino “brabo”) e os novatos estavam fora.

 

O “ufa” ficou por conta deste caso. Ainda não conformados em não participar da brincadeira, chamamos o mestre e pedimos para rolar, ele informou que no primeiro dia era melhor apenas observar. Por isso: Ufa!

 

A ansiedade de “trocar força” era tanta que três meses depois já estava competindo por aí:

 

Link Youtube | Minha primeira luta, em Campo Grande – RJ. Uma guerra!

 

Hoje sou um faixa-roxa forçosamente parado pelos compromissos da vida, mas ainda um amante saudoso da Luta Livre, que não esqueceu nada que aconteceu no primeiro dia de tatame.

Fernando Henriques
Idealizador e editor desta revista, Fernando Henriques é um consumista informacional. Formado bacharel em Ciências da Computação, encontra na Comunicação um elo natural. Viciado em séries, filmes, rock, MMA, política e desafios.

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