Meu pai é um cara estranho, graças a Deus

Meu pai é um cara estranho, graças a Deus

14

Em 1952 nascia em Portugal os gêmeos de Maria do Carmo e Anibal, que viriam para o Brasil um ano depois, sendo um deles com a nobre missão de gerar este que vos escreve. Nasci em outubro de 1985, nove meses depois de um embalado Rock in Rio na sala do que viria a ser minha casa.

 

Português, de bigode e tudo, meu pai é o cara estranho culpado por muito do que sou.

 

Em casa, não era raro eu e meu irmão dizermos que nosso pai era mãe. Não por demérito materno, mas pelas constantes tentativas dele de participar de tudo que nos envolvesse e, se deixássemos, assumir todos os papeis. Pai, mãe, amigo, avô, avó, inimigo, professor, psicólogo e até companheiro de pelada.

 

De tanto amar, acaba por ser chato. O melhor chato de todos, pois não raro também abusamos dessa enorme vontade que o Seu Jorge tem em participar.

 

Herdei, felizmente para mim e nem tanto para os outros, seu caráter expansionista.

 

Meus amigos com muita razão acham ele estranho, por ser ultra protetor e tão sincero a ponto de incomodar. Sabe aquele sujeito que alguns tem vergonha de confrontar? É o meu pai. Sem querer, ele fala mesmo, face to face, e possivelmente magoa os mais facilmente ofendidos, porém é acima de tudo sincero e verdadeiro. Como não amar tamanha estranheza? Como não se inspirar por ela? Se é para faltar com “habilidades sociais”, que sejamos sinceros, ora, pois, conosco e com os outros.

 

Nossa posição de rebeldia frente ao mundo deve-se, fora os genes baianos passados via cordão umbilical, à esta postura super protetora de nosso pai, contra a qual reagimos instintivamente e consequentemente nos fez evoluir. Afinal, como iríamos crescer sem ter com quem nos rebelar?

 

Link Youtube | Coitados aqueles quem tem pais liberais.

 

A estranheza passa por ele e recebe nossos contornos. Tornar-se algo sublime, positivo, necessário. A chatice e a caretice o encontram pelo caminho e se resignam de vergonha, frente ao novo sentido que ele dá na aplicação delas na vida real, sempre benéficas para os que o cercam. Prestativo ao extremo, para nós, e passional assumido, é daqueles que defende os filhos sem saber da história e da culpabilidade deles. Não fosse nossa mãe, seriamos uns mimados. Mas não, não somos, aproveitamos o melhor de dois mundos em nossos pais.

 

Ainda na juventude, era taxado de estranho por seus irmãos porque ficava trancado no quarto lendo. Sim, já naquela época, trinta e poucos anos atrás… Iniciava-se o processo de desculturalização do Brasil, que culmina nos dias atuais, onde pessoas vão à TV dizer que livros são “tecnologias ultrapassadas”. Meu pai não, é um dissidente desses tempos malditos! Até hoje está sempre em busca de um novo livro, de um novo motivo para pesquisa. O saber, para ele, é puro prazer. Não é nada vinculado estritamente ao trabalho ou qualquer outro objetivo prático, como se prega por aí.

 

Amante da cultura em diversos níveis, se desdobrava para manter o que naquela época, muito mais do que hoje, era considerado descartável. “A TV a cabo dos meninos não!” Em dias de dificuldade financeira, cortava-se muita coisa lá em casa, mas a DirectTV permanecia firme e forte. Obrigado, pai, crescemos já cientes de que existe vida além de novelas e programas de auditório. Muito obrigado mesmo!

 

Foi nessa época que aprendi: cultura em primeiro lugar.

 

Tímido, traço natural de “caras estranhos”, rompeu essa barreira quando se matriculou comigo no meu primeiro curso de informática. Quando novo, acreditem, fui bem tímido e usava tal condição como desculpa para as mais variadas fugas. Dizia que não queria fazer o curso porque não queria ir sozinho. Resolvido o problema, o coroa disse que ia junto, e o que poderia se tornar uma situação ainda mais constrangedora para filhos bobos (aqueles que pedem pros pais pararem o carro longe da escola), acabou sendo o estopim para minha imersão no mundo tecnológico. Sem este curso, que meu pai fez questão que fizesse, não teria me formado em Ciências da Computação posteriormente.

 

Desastrado, outro traço de personalidades estranhas, me ligou desesperado no trabalho (estágio) quando acidentalmente caiu dentro do computador enquanto o HD daquele nosso Pentium 233 era formatado. Perdemos o computador, mas ganhamos uma piada.

 

No humor, a propósito, foi nosso grã-mestre. Se você ri com o Twitter do Rodrigo Cotton, agradeça ao Seu Jorge, piadista e sacana inveterado. Nos ensinou a não nos levar tão a sério, apesar de em muitos momentos se levar, e a tirar sarro de tudo e todos sem ultrapassar os limites do respeito.

 

Respeito, aliás, é conceito forte na família. Aprendido pelo exemplo. Que seria de nós sem o aprendizado correto do que é ter respeito ao próximo e principalmente a si mesmo?

 

Minha primeiro briga na rua foi incentivada pelo meu pai, um pacifista assumido, mas que não poderia se negar a ser justo quando viu seu filho importunado na rua ameaçar voltar para casa com princípio de choro. “Volta lá e dá uma porrada nele, não pode apanhar e ficar quieto.” A partir dali aprendi a me defender, na prática, na marra. Foi um dos ensinamentos mais importantes que carreguei pra vida, aplicando em diversos envolvimentos sociais: escola, esportes, trabalho, debates. O desafio aparece, e eu não fico quieto. Reajo.

 

Quando casei, do alto da minha consciente frieza, mantive os olhos secos diante de tanta felicidade. Mas meu pai não, ele é estranho e não tem medo de ser. Nas fotos oficiais, aquelas com a família, olhei para o lado e ele estava lá, ombro a ombro comigo, enxugando moderadas lágrimas. As fotos com ele são as que mais gosto desse dia – fora aquelas românticas, hein Priscila -, porque a emoção refletia através dele.

 

Valeu, velho!

Valeu, velho!

 

Quem me dera ser estranho como meu pai, que foi e é pai na medida certa. Com exageros propícios de quem ama de verdade. Espero a meu modo ser também um estranho cara legal para meus filhos.

Fernando Henriques
Idealizador e editor desta revista, Fernando Henriques é um consumista informacional. Formado bacharel em Ciências da Computação, encontra na Comunicação um elo natural. Viciado em séries, filmes, rock, MMA, política e desafios.

Leia também...

 
Dê mais vida a Feedback Mag., para sua imagem aparecer ao lado de seu nome nos comentários, cadastre-se no Gravatar usando o mesmo e-mail com o qual você comenta aqui na revista. Leva 2 minutos.
 
  • Lacerda Rodrigo

    Muito bom Fernando! Meus olhos se encheram de lágrimas (masculinas e conservadoras)!

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      Que isso, minhas palavras tocaram um coração conservador, me sinto honrado.

  • Nélio Oliveira

    Putz, muitas das passagens narradas são muito semelhantes às que eu vivi com meu falecido pai…

    Parabéns pro seu velho!

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      Que interessante Nélio, parabéns pra você também, ainda que com atraso.

      O seu parabéns foi transmitido ao meu velho, ele ficou todo bobo com o texto.

  • Leonardo Tigro

    Gostei muito Fernando, parabéns pelo pai que tem.

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      Valeu Léo, ele é parceiro e você amigão. Fique sempre por perto.

  • Leon

    Ele é show de bola…..

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      Valeu Leon, feliz Dia dos Pais atrasado pra você também!

  • THEREZINHA BARBOZA

    ACABEI DE LER E ESTOU EMOCIONADA… SEU PAI TE DEU O MELHOR…
    AMOR… TENTE IMITÁ-LO OU SEJA COMO ELE!
    TERÁ FILHOS MARAVILHOSOS QUE TE AMARÃO SEMPRE COMO VOCÊ AMA SEU PAI!!!
    ESSE ARTIGO FOI MUITO BOM… E O TEXTO TAMBÉM!!!
    PARABÉNS!!!

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      Obrigado Therezinha, tento fazer o melhor que posso, como pai e como filho. Abraços!

  • josenildo

    Pocha Fernando gostei do seu comentário e eu sempre pensei desta forma em ser um pai presente achei que estava ultrapassado mais que no fim fica uma grande lição é melhor ser presente do que ausente, valeu !!

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      Obrigado, Josenildo. Quando adolescentes, queremos um pouco de distância de nossas pais e isso é normal, pois ali criasse a identidade. Mas como o nosso papel é buscar se descolar, o dos pais é se fazer presente, se interessar, se preocupar. Ser pai é isso, afinal. Essa é a dinâmica familiar e não há nada de mal nisso.

  • Germano

    Parabéns pelo texto, Fernando. Gosto muito dele. Lembro também de uma história de que o seu pai levou você e o Rodrigo para ir a praia, vocês foram bem cedo…já era tarde e ninguém tinha notícia de vocês…depois sabemos que o seu pai deslocou o ombro. Sem contar um novo deslocamento do ombro ao espirrar e por aí vai. No dia do meu casamento meus amigos do trabalho também queiram conhecer seu pai, chamei ele, falando que queria apresentá-los aos meus amigos, que ele era famoso e tal, foi muito engraçado. Eles conheciam as histórias do seu pai…

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      Ele nos diverte. Essas duas deslocadas de ombro são inesquecíveis. Mas confesso que no dia, na praia, foi bem tenso. Quase se afogou junto com o Rodrigo.