Mark Hunt e Antônio “Pezão” – Técnicos, raçudos e loucos

Mark Hunt e Antônio “Pezão” – Técnicos, raçudos e loucos

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No dia seguinte da incrível luta entre os pesados Antônio “Pezão” e Mark Hunt (no UFN 33), vi nos fóruns da vida um pessoal “entendido” dizendo que a luta foi emociante, mas que pecou em técnica. Discordo.

 

Quem assistiu a luta inteira e não viu técnica nas ações de ambos os lutadores só pode estar com alguma deficiência visual. Só para começar, Hunt demonstrou – como sempre, aliás – uma técnica sublime para apanhar sem apanhar, se é que me entendem. Usava os ombros, o deslocamento, posicionamento lateral e tudo mais, que não as mãos, em ótimas defesas. Muito mais do que apenas receber o golpe em sua guarda fechadinha. Quer mais técnica em pé do que isso?

 

Pezão então, mostrou-se muito bem como um striker. Aliás, suas últimas vitórias revelaram isso, que ele muito mais do que apenas ser um ogro com sede de sangue, é um lutador certinho no quesito técnica.

 

Em muitas lutas anteriores, Pezão me enervou com uma postura sempre serena e pensativa, enquanto na infinidade do meu lar, em frente a TV, eu pedia para que ele “ograsse”. Ele parece que nunca acelera, vai sempre aos poucos, não brutaliza. Com aquele tamanho todo, é o que naturalmente esperamos. Mas ele preza sempre, sempre e sempre pela técnica. Pela ação recomendada pelos córneres, isso é um grande mérito do brasileiro.

 

E podemos dizer que Hunt tem um pouco disto também. Bem mais impulsivo e explosivo em suas lutas, nocauteador nato, Hunt também demonstra serenidade, no ataque e na defesa. Paciência. Ele parece sempre ansioso por arrancar a cabeça do adversário, mas não se precipita em fazê-lo. Espera a hora certa, e quando ela chega, ele aproveita cada golpe desferido com um sadismo que percebo de longe, através das luzes que emanam da minha TV.

 

E nessa luta com Pezão, terceiro no ranking dos pesados do UFC à época, essa hora chegou, e chegou novamente, e Hunt se divertiu, tirou o atraso anterior, mas Pezão permaneceu de pé. E a luta continuou, e Pezão teve seu momento, buscou encerrar o combate com tudo que tinha num ground and pound animalesco, mas Hunt continuou vivo no combate.

 

Dois guerreiros, uma luta épica e muitos fãs satisfeitos pelo mundo. Sem dúvida uma das 10 melhores do UFC nos últimos 10 anos. O resultado foi uma coroação do esforço do australiano em virar a luta (começou levando um atraso), mas em minha contagem Pezão venceu. No fim, o empate foi muito melhor do que a minha marcação. Foi mais justo, menos UFC (luta com cara de PRIDE e resultado também), mais épico e histórico. Só boas lutas terminam em empate na era atual, lutas com 10-8, com viradas, com massacres de um lado e outro.

 

Parabéns aos dois guerreiros do peso pesado, deram um show que ninguém esperava (lentos demais) e que os dois maiores nomes da categoria, Cigano e Velasquez, jamais proporcionaram. Entraram para a História.

 

Uma semana depois da luta Dana White apareceu na pesagem do "UFC: Johnson x Benavidez" com uma camisa que pedia um novo combate entre os dois. | Créditos: Evelyn Rodrigues.

Uma semana depois da luta Dana White apareceu na pesagem do “UFC: Johnson x Benavidez” com uma camisa que pedia um novo combate entre os dois. | Créditos: Evelyn Rodrigues.

 

Nota de rodapé: Nada do que descrevi e comentei é abalado pela constatação posterior de que o brasileiro Antônio “Pezão” lutou “dopado”. Assim como na luta entre Nick Diaz e Takanori Gomi no PRIDE 33, outro lutão que teoricamente ficou manchado pelo doping — por maconha, do americano –, o que vale mesmo é a experiência e emoção que tivemos ao assistir este belíssimo combate. Certamente o melhor de 2013, com doping e tudo.

Fernando Henriques
Idealizador e editor desta revista, Fernando Henriques é um consumista informacional. Formado bacharel em Ciências da Computação, encontra na Comunicação um elo natural. Viciado em séries, filmes, rock, MMA, política e desafios.

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