Mais João, menos Silva

Mais João, menos Silva

0

Silva acorda toda manhã sabendo exatamente o que fazer. O relógio desperta, o cobertor precisa ser removido, a roupa já está separada e o banho o aguarda. Ele se arruma, toma o seu café da manhã e sai. Então, uma conversa breve e descompromissada se estabelece no ponto onde ele espera o seu transporte, que, claro(!), está verdadeiramente abarrotado.

 

Depois de um bom tempo no trânsito, Silva chega na empresa de João, onde ele trabalha. E ali, com muita má vontade, faz o que lhe é mandado. Enquanto isso pensa “mas que chatice. Por que eu decidi trabalhar com isso?”. Porém, quando seus amigos o perguntam sobre os seus sonhos e anseios, lhe falta resposta. E quando o incentivam a investir nos seus talentos, ele dá uma desculpa qualquer porque não quer ter trabalho algum.

 

As horas demoraram muito a passar no seu trabalho monótono, mas, enfim, ele está livre! Todavia sua liberdade começa (que interessante!) com uma conversa desinteressada, um ônibus abarrotado e algumas horas de trânsito. Até que, finalmente, ele chega em casa e religiosamente faz as mesmas coisas, a saber: resolve algum probleminha doméstico, toma um banho, come alguma coisa e liga a TV. E ali, na frente dela, ele desperdiça todo seu tempo livre absorvendo tudo o que dizem nossos “grandes pensadores contemporâneos”, que se preocupam mais com animais e plantas do que com gente; que se solidarizam mais com bandidos do que com as vítimas; que querem mais saúde e educação, mas cobram isso do Estado; e que reclamam dos empresários porque acham que todos não passam de fascistas exploradores.

 

Tendo recebido sua dose diária de idiotice e já cansado, ele caminha até seu quarto e se deita na cama tentando se convencer de que teve um bom dia e de que sua vida tem algum sentido além da subsistência. E assim ele vai vivendo, pensando sempre no próximo final de semana, onde ele vai beber, xingar o bem-sucedido do João, tentar “tirar o atraso” com a baranga da Mariazinha e dormir até muito tarde.

 

Por falar no João, ele tem uma rotina um pouco diferente. Acorda mais cedo do que Silva, toma seu café da manhã, pega o seu carro e vai direto para a empresa. Essa companhia sempre foi o sonho dele. Quando ainda era garoto, ele queria ser um chef de cozinha porque gostava quando via pessoas contentes por causa da comida de sua mãe. Porém, João não recebera os dotes culinários dela e acabou tendo que se contentar em trabalhar com produtos alimentícios.

 

Mas, nem por isso, João faz corpo mole em seu trabalho. Pelo contrário, ele é o funcionário mais dedicado da sua pequena companhia. Ele acredita que sua empresa é uma maneira de servir a Deus porque oferece alegria às pessoas, seja por conta do emprego que as proporciona ou por conta das guloseimas que sua empresa produz.

 

Por isso, apesar de sair mais tarde do que Silva e muito cansado, João se dedica a se especializar em seu ramo de atuação e a investir em sua cultura geral. Aos sábados, ele faz sua terceira pós-graduação, duas vezes na semana ele tem aulas de culinária (só para tentar compensar sua frustração mesmo) e, além disso, está sempre lendo um bom livro.

 

Mas não se enganem, João também se diverte. E ele gosta muito disso! Ele adora levar seus filhos ao parque ou a uma peça de teatro infantil; está sempre acompanhando suas apresentações de ballet e campeonatos de futebol. No entanto, o que ele mais gosta de fazer é ter a companhia de sua esposa para uma boa atração musical ou em um jantar romântico.

 

João não veio de família rica, mas sempre foi um batalhador. E, pasmem, mesmo tendo conquistado diversos objetivos e tendo vencido na vida ele ainda tem muitos sonhos e ambições. Um deles é conseguir ampliar o seu projeto beneficente para crianças carentes, ao qual João se dedica com a esperança de poder oferecer um futuro melhor a diversos meninos e meninas que nasceram na mesma região pobre que ele.

 

O Brasil hoje está lotado de Silvas. Pessoas amarguradas que vivem por viver, sem objetivos, sem sonhos, sem vontade. Por outro lado, faltam “Joões”. Gente que sonha, que gosta de desafios, que acredita, que batalha, que não vê o trabalho como um fardo, que não se conforma com uma vida monótona, voltada apenas para a subsistência.

 

Mais João, menos Silva.

Pedro Henrique Franco
Pedro Henrique da Rocha Franco, nascido em 1991. Cristão, amante da leitura e apaixonado por futebol.

Leia também...

 
Dê mais vida a Feedback Mag., para sua imagem aparecer ao lado de seu nome nos comentários, cadastre-se no Gravatar usando o mesmo e-mail com o qual você comenta aqui na revista. Leva 2 minutos.