Luciano Andrade não levou fé, mas Glover sentiu o golpe mesmo assim

Luciano Andrade não levou fé, mas Glover sentiu o golpe mesmo assim

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Luciano Andrade, comentarista do Canal Combate e faixa-preta de Jiu-Jitsu que treina na mesma academia dos campeões do UFC Renan Barão e José Aldo (Nova União), disse, durante a transmissão do UFC 175, que a torção de cotovelo e ombro aplicada por Jon Jones em Glover Teixeira não ofertava perigo.

 

O golpe, que, aplicado no chão e da guarda por Frank Mir no UFC 36, forçou Pete Williams a desistir da luta, dessa vez, em pé, “apenas” causou uma lesão no ombro do brasileiro Glover Teixeira. Glover, no intervalo de um dos rounds, pediu que colocassem gelo em seu ombro direito, logo o da “patada”. Após a luta, Joe Rogan perguntou sobre isso e ele já com uma bolsa de gelo amarrada ao ombro confirmou ter se machucado no local.

 

Mas, mesmo com a declaração de Glover, inicialmente não me atentei para o fato causador da lesão. Somente quando o brasileiro confirmou ser a torção o motivo, em declaração à Tatame, que entendi. Na hora da transmissão – no Canal Combate – foi até engraçado: o locutor Rhodes Lima chamou atenção para o movimento de Jones, com alarde, e foi tranquilizado por Luciano e Kyra Gracie, especialistas no assunto. Luciano, para tranquilizar o amigo e os telespectadores, frisou que não haveria perigo no golpe e que Glover não seria finalizado na posição. Realmente, não foi, mas perigo teve.

 

É de estranhar que o referido comentarista, faixa-preta do mestre André Pederneiras, que por sua vez é faixa-preta de Carlson Gracie, ou seja, de uma linhagem próxima ao chamado Gracie Jiu-Jitsu – um Jiu-Jitsu mais puro, que tem hoje sua bandeira hasteada pelo filhos de Rorion Gracie (idealizador do UFC) – não conhecesse a periculosidade do golpe. Conforme a imagem abaixo reflete, é um golpe bem “old school”:

 

O próprio Jon Jones publicou essa imagem em seu Instagram oficial.

O próprio Jon Jones publicou essa imagem em seu Instagram oficial.

 

O grão-mestre de Luta Livre Roberto Leitão, que mesmo com quase 80 anos também dá seus treinos com a garotada na mesma Nova União, entre tantos outros dojos, é outro ancião da luta que ensina o golpe. Numa antiga edição da revista Tatame, na seção “Treino Aberto”, Leitão ensinou a posição juntamente com Rodrigo Artilheiro.

 

Na Luta Livre aprendemos a aplicá-lo, mas, realmente, não é daqueles mais fáceis de finalizar alguém. O movimento deve ser rápido e a pegada perfeita na altura do cotovelo do adversário. É raro ver alguém obter êxito e causar a desistência do oponente, mesmo em competições de grappling. Como também é raro vermos finalizações no calcanhar hoje em dia, o que não significa que a posição não seja eficaz. Neste caso, onde temos em Rousimar “Toquinho” uma exceção, são os lutadores que não possuem um domínio exemplar do golpe. Isso é perceptível na grande maioria das vezes que vemos alguém tenta-lo no MMA.

 

Mas não é uma comparação cabível, em muitos momentos no solo é possível entrar como uma chave de calcanhar, já com a torção de cotovelo e ombro, ou “Chave de ombro defensiva”, é bem mais difícil uma brecha para o encaixe – na verdade, é realmente um golpe para a troca de esgrimas, como executou Jon Jones, em pé. Quando treinava com frequência, havia sempre um “engraçadinho” a tentar executá-lo durante a troca de esgrimas.

 

E isto mostra apenas, além da falta de fé de Luciano Andrade, um especialista, num golpe antigo porém eficiente, que Jones é também um belo artista marcial quando o assunto é o grappling. O despretensioso movimento, executado aparentemente como um “tiro no escuro”, rendeu-lhe ainda mais vantagem na luta.

Fernando Henriques
Idealizador e editor desta revista, Fernando Henriques é um consumista informacional. Formado bacharel em Ciências da Computação, encontra na Comunicação um elo natural. Viciado em séries, filmes, rock, MMA, política e desafios.

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