Louco por um dia
2Não sou daqueles que tem um time em cada estado, acho desnecessário, até porque hoje em dia podemos acompanhar nosso time de qualquer lugar. Tenho um único time, um só coração, porém na semana passada cometi um ato falho, torci por um clube que não o meu. Perdoem-me, mas foi inevitável, todo mundo gritando, todo mundo torcendo, fui meio que levado por aquele bando de loucos.
Deixe-me explicar, na última quarta-feira, dia 04, estava em São Paulo a trabalho. Logo essa semana, logo quarta-feira, a cidade respirava a final da Libertadores (parecia que 70% população era corintiana), fervia. Ao voltar para o hotel após um dia estafante, resolvi encontrar um bom lugar pra comer. Bom e barato, um bar meio restaurante, um restaurante meio bar, é o que mais tem por lá. Só que a partir dessa decisão, todo o resto foi automático. Na verdade eu queria sim ver o jogo, mas não sabia ao certo pra quem torcer. O Boca é um eterno carrasco dos times brasileiros, só que não tenho mais 15 anos – época áurea para curtir futebol sem se importar muito com rivalidades, pelo menos foi assim pra mim. Torcer para outro time ganhar a Libertadores e igualar o feito do meu amado clube é algo meio impraticável hoje em dia. Ainda mais sendo este time o odiado “Curintias”, que está sempre envolvido em denúncias de favorecimento na CBF e terá em alguns anos um estádio novinho financiado pelo torcedores rivais.
Lembro que na década de 90 a Libertadores era sagrada, eu e meus colegas deixávamos de jogar bola naquelas noites para ver o São Paulo dar show com Palhinha, Müller, Válber e outros caras que os moleques de hoje nem sabem quem são, depois foi o Cruzeiro, que também jogava muito bem a competição, e por fim o Vasco e o Palmeiras, em 98 e 99, com duas campanhas emocionantes (São Marcos virou ídolo, não tem como esquecer). Era uma época em que eu ainda não tinha aprendido a odiar o time do próximo, mandamento comum entre os “amantes” de futebol.
Ninguém parava tudo pra ver Champions League, era a Libertadores que cativava, assim como outras competições continentais que colocavam de frente uma das maiores rivalidades da bola, Brasil x Argentina. Quando torcia pelo São Paulo, Cruzeiro, Vasco e Palmeiras, estava torcendo pelo Brasil, como em uma Copa do Mundo. Esse era o meu sentimento, só que o tempo foi passando, eu fiquei mais velho e esse simples ato de torcer por um time que não o meu soa como pecado pra mim. “Que estranho?” Foi o que pensei quando sentei e fiz meu pedido no bar, o jogo já estava rolando e a minha vontade de torcer pelo Corinthians Paulista aumentava a cada jogada do Sheik.
Link Youtube | Primeiro gol do Corinthians na final da Libertadores 2012.
Após o primeiro gol então, me entreguei, voltei a adolescência e compartilhei com ilustres desconhecidos a alegria de um gol. Por instantes pulei em silêncio, admirando tamanho amor por um clube. Só pensava que quando era menino, também me animava assim por qualquer gol bonito, voleio, bicicleta, tinha até um caderno onde anotava os melhores lances futebolísticos que já tinha visto na vida (óbvio que golaços contra o meu time eram ignorados).
O jogo seguiu e o Corinthians crescia em campo mesmo sob pressão. O chuveirinho do Boca assustava aos loucos e embandeirados torcedores alvinegros, mas o cheiro de vitória estava no ar. Eu quase pude prever o segundo gol, momento de consagração do maior vitorioso do futebol brasileiro atualmente (Emerson foi campão brasileiro pelo Flamengo em 2009, pelo Fluminense em 2010 e pelo Corinthians em 2012). Estava feito, consumado. Não só o primeiro título continental do Corinthians, mas o meu passeio momentâneo pela arte de torcer pelo Brasil, acima das rivalidades bairristas.
Acabo de chegar ao Rio e vim direto ao computador, contar essa história. Não tinha como ficar calado, eu não preciso, foi bom ser louco por dia. Na segunda-feira, hoje, voltei a rotina. O mundo continua girando e eu aguardando pela próxima oportunidade de viver momentos de alegria genuína com o futebol, não só de apreensão, tristeza ou raiva. O esporte existe para entreter, lembrem-se disso.
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FredGazim





