Limparam a cena do crime

Limparam a cena do crime

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Se já não era evidente, a votação de ontem no Congresso, que só terminou hoje (às cinco da manhã), com a aprovação do PLN 36 – projeto que, na prática, limpou a cena de um crime, como bem disse o deputado Rodrigo Maia –, expôs em outdoor: o crime, nestas terras, foi banalizado.

 

Se já não era suficiente termos grande parte dos deputados federais respondendo a processos, temos agora que dormir com a certeza de que a presidente reeleita, uma tal búlgara mequetrefe, cometeu um crime e não vai pagar por ele.

 

O PLN 36/2014 é um projeto de lei do Congresso Nacional, feito sob medida para salvar a presidente da república. Uma espécie de álibi forjado. Ele visa flexibilizar a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), alterando o cálculo da meta fiscal para que o Governo não a infrinja em 2014. Na prática, livra Dona Dilma de incorrer em crime de responsabilidade por improbidade administrativa e não cumprimento da lei orçamentária (fez mau uso do dinheiro público e gastou mais do que podia). Se tais crimes fossem configurados, inclusive, haveria a possibilidade de impeachment. Mas com 240 deputados a favor e 60 contra, e 39 senadores a favor e 1 contra, este absurdo caminhou para deixar de ser projeto e virar lei. O legado da Lei de Responsabilidade Fiscal e do Superávit Primário, que tão bem fizeram ao Brasil nos últimos 20 anos, apesar dos pesares, cai por terra.

 

Um sinal verde foi dado para todos os demais administradores eleitos no país, para relaxarem suas contas. O que esperar da população, diante tamanho acinte? Que pague seus impostos religiosamente? Piada. Muitos já não pagavam. Agora terão até moral para justificar seus crimes fiscais. Usarão o exemplo que vem de cima.

 

E tem mais. Como contar com um dos pilares da economia nesta era, a credibilidade, em cenário tão mal ajambrado? Se o governo Dilma já não inspirava credibilidade, agora então… Os desconfiados ganharam uma certeza: não se pode confiar no PT. E aqueles que já tinha essa certeza evoluíram também de percepção: não se pode esperar mais quatro anos para tirar esses criminosos do poder (repito: o crime foi cometido, apesar da mudança na lei para evitar sua punição).

 

Numa situação como essa, não há moderado que não pense em impeachment. Não há cidadão de bem, atento a política, pela direita ou pela esquerda, que não se levante indignado. É calamitoso o momento. Se as manifestações pós eleição tinham motivos para existir, estes foram multiplicados pela enésima potência. O grito de “Fora Foro”, “Fora Dilma” e “Fora PT”, agora, ganhará ainda mais força. Mas não contemos com Jô Soares. Simbolizando a mídia chapa branca dos tempos atuais, o Gordo declarou nesta terça-feira (02/12/2014), em seu programa especial semanal sobre política, com as “Meninas do Jô”, que o mais certo a se fazer era realmente mudar a lei. Para ele, um impeachment, nesse momento, não pegaria bem.

 

Ora, todas as leis podem ser mudadas e revistas em momentos oportunos, conforme a vontade popular expressa através de seus representantes. Mas não se pode, jamais!, mudar as regras do jogo depois que o jogo começou. A própria tentativa de tal constitui, de início, um segundo crime. Senão legal, moral. E é engraçado que quando mudam as regras de um campeonato de futebol com este em curso, a gritaria na sociedade é certa. Se fosse o Fluminense do apresentador o prejudicado, talvez ele reclamasse, mas como é o Brasil, e é o PT com a cabeça a prêmio, melhor deixar para lá.

 

De consolo fica somente o fato de que a oposição, depois de tanto tapa na cara, parece ter acordado. Tentaram por dois dias seguidos impedir que o crime fosse banalizado de uma vez no país, através do Congresso, presidido por um sínico Renan Calheiros. Aliás, sobre Renan, faltam-me até palavras para desmerecê-lo. Apesar do rico repertório que nossa Língua oferece, cada palavra que lembro parece insuficiente para expressar o quão nefasta foi sua participação nesse episódio. Não que se esperasse nada diferente dele, um dos símbolos do fisiologismo do PMDB e alicerce do Petismo desde muito, mas a falcatrua, dessa vez, foi requintada. A maneira como manipulava os regimentos, sob protestos da oposição, para dar cabo a votação do PLN, irritou qualquer um que não receberia 700 e poucos mil para votar “sim”. Ele lia o regimento, nós ouvimos o trecho, pela TV Senado, mas a interpretação que se seguia versava sobre algo totalmente diferente. Renan tratou todos nós, brasileiros, como idiotas. Pensa que quase ninguém viu seu malabarismo retórico de quinta para seguir como bom capacho do PT. No fim, mesmo como presidente do Congresso, deu um jeito de entrar no quórum necessário de 41 senadores e garantiu a votação.

 

Medite sobre a obviedade dita por Fábio Pegrucci que, em tempo de crise, é a mais pura sabedoria.

Medite sobre a obviedade dita por Fábio Pegrucci que, em tempo de crise, é a mais pura sabedoria.

 

E assim terminará o fatídico 2014. No apagar das luzes, mais um escândalo do foi PT exposto. Um escândalo que não pode ser chamado de ilegal, que não demandará CPI e abertura de inquérito, que não terminará com um julgamento televisionado no STF. Mas que é tão grave quanto um Mensalão ou Petrolão. PT, PMDB e demais linhas auxiliares ficaram nus diante do Brasil e nem se envergonharam, um agravante e tanto mesmo para essa turma. O esquema evoluiu de tal forma que o crime, além de banalizado, tornou-se legal.

Fernando Henriques
Idealizador e editor desta revista, Fernando Henriques é um consumista informacional. Formado bacharel em Ciências da Computação, encontra na Comunicação um elo natural. Viciado em séries, filmes, rock, MMA, política e desafios.

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