Lendas do Esporte – Mestre Romero “Jacaré” Cavalcanti

Lendas do Esporte – Mestre Romero “Jacaré” Cavalcanti

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Romero "Jacaré" CavalcantiEle é líder de uma das maiores equipes de jiu-jitsu do planeta. Já formou inúmeros faixas pretas campeões brasileiros, pan-americanos e mundiais, hoje solidifica o nome da Alliance nos EUA, onde ministra aulas e reside atualmente. Formado em Educação Física e com uma vida inteira dedicada à arte suave, Romero Cavalcanti, o “Jacaré”, abre a primeira edição do espaço Lendas do Esporte, aqui na @feedbackmag. O início como atleta, amizades dentro do esporte e outras curiosidades estão nesta entrevista com o faixa vermelha e preta pupilo do saudoso Rolls Gracie.


1. Mestre Jacaré, como foi o início do jiu-jitsu em sua vida e quem foi o seu primeiro professor?

O meu primeiro professor foi o Toninho que dava aulas para o Carlson, em Copacabana. Antes treinei um pouco com o Jaildo Gomes, aos 12 anos, irmão do Ivan Gomes, que também dava aulas em Copacabana, aonde eu cresci.


2. Além do jiu-jitsu, você gostava de praticar outros esportes em sua juventude?

Sim. Eu morava em frente à praia, na Av. Atlântica, entre a Figueiredo de Magalhães e a Siqueira Campos. Então cresci jogando pelada na areia – no Juventus da Figueiredo, quando me deixavam jogar -, pegando onda de planonda (prancha de surf antiga), em Copa tinha onda antes da reforma, vôlei etc.


3. O Mestre Rolls Gracie é lembrado por todos como uma ótima pessoa, além de ótimo lutador. Como foi a sua convivência com ele?

Maravilhosa. Ele era como um irmão mais velho… Emprestava o carro; me deixava ajudar nas aulas; me ensinou tudo que eu sei e sua falta é sentida até hoje. Ele revolucionou o jiu-jitsu moderno com a introdução de várias técnicas.


4. Em que momento você decidiu se dedicar integralmente ao jiu-jitsu?

Desde o começo, ainda na faixa azul, eu já auxiliava o Crolin numa academia na Barra da Tijuca e depois mais a frente com o Rolls, em Copacabana. Percebi que o jiu-jitsu era a minha vida. Cursei, me formei e dei aulas de Educação Física, mas o Jiu-Jitsu era a minha verdadeira paixão.


5. Como foi sua carreira de competidor? Você acredita que teve grandes feitos como tal?

Minha carreira como competidor foi normal, não tinham muitos campeonatos na época, entre 74 e 85. Ganhei alguns cariocas, que era o que tinha, e perdi outros na final, nada demais. Ficava muito nervoso, mas sempre que precisava eu estava lá pra defender a bandeira da minha academia.


6. Ainda falando de competição, quais os atletas se destacavam naquela época?

O Rolls era a estrela principal, isso quando tinha luta de preta. Também tinham vários alunos bons do Carlson e a equipe dele sempre disputava as primeiras colocações. Tinha o Conde, o Nicin, o Mauricio Gomes, o Macarrão (Marcio Stambowsky), Azury Talarico, Carlinhos Gracie, Mauricio Bustamante, o Maninho… Enfim, os campeonatos ainda eram muito amadores e pouco frequentes.


7. Quando você decidiu ir para os EUA, o jiu-jitsu já era forte por lá? Como foi trabalhar o nome da sua equipe na terra do “Tio Sam”?

O jiu-Jitsu ainda estava engatinhando quando me mudei para cá, acho que agora está muito evoluído e que dei a minha contribuição, abrindo portas e sendo um bom embaixador da minha arte; ministrando seminários por todo o país e formado muitos professores; organizando e participando de muitos campeonatos. Temos uma equipe sólida com a associação Alliance crescendo muito, o fato de termos nos reerguido e conquistado os últimos quatro Mundiais ajudou muito neste processo.


Galera da Alliance comemorando o título do Pan 2011.

Galera da Alliance comemorando o título do Pan 2011.


8. O antigo vale-tudo se profissionalizou, ganhando mais regras e um novo nome, MMA, com maiores salários e atingindo uma boa popularidade. Como eram as coisas na sua época, você chegou a fazer alguma luta?

Na minha época, o vale-tudo no Brasil foi proibido por muitos anos. Os campeonatos de jiu-jitsu estavam começando e nunca lutei esta modalidade… O máximo que tinha era uns desafios de jiu-jitsu x karatê.


9. Ao longo dessa sua grande trajetória no jiu-jitsu, quais lutadores mais te impressionaram dentro do tatame?

Vários lutadores me impressionaram… Pra começar o Rolls e o Rickson, dos meus o Fábio Gurgel, Magrão, Gigi, Telo, Leozinho e Ricardinho. Da equipe do Carlson tinha o Cassio Cardoso, Murilo, De La Riva, Amaury Bitteti, Zé mario, Wallid. Do Carlinhos Gracie tinha o Roleta, Gordo, Soca, Feitosa. Tinha também o Royler e Vitor Ribeiro, enfim, o jiu-jitsu era restrito aos campeonatos no Rio, sem destaque nacional. Agora, o esporte está divulgado pelo Brasil e no mundo, então eles vêm de todas as partes. Hoje em dia destaco Marcelinho, Cobrinha, Sergio Moraes, Bernardo Faria, Malfa, Lucas Lepri, Langhi, Roger Gracie, Alexandre Ribeiro, os Mendes, Rodolfo Vieira, as meninas Gabi Garcia, Luana, Kyra Gracie, Hanette… Enfim, tem tantos competidores de alto nível que fica difícil enumerar todos.


10. Falando da Alliance, como foi a criação da equipe?

A Alliance foi criada em 1992 por mim, Fabio, Gigi (Alexandre Paiva) e Fernando Gurgel, com o objetivo de unir todas as nossas academias e faixas pretas em torno de uma equipe forte. Nos dividimos após algum tempo e nos reerguemos, hoje somos a equipe mais forte de todas, ganhando o Mundial da modalidade por seis vezes.


11. Qual o segredo para manter uma equipe no topo por tanto tempo?

O segredo é muito trabalho, união e confiança entre todos, termos objetivos claros e definidos, comando e hierarquia, acima de tudo, procurando solucionar os problemas com muita calma e paciência. Muita pesquisa e ciência no nosso jiu jitsu também.


12. Quais os atletas que mais se destacaram, chegando a faixa-preta por suas mãos?

Fabio, Gigi, Telo, Magrão, Paulo Sérgio, Leozinho, Ricardinho e vários outros que não me recordo agora.


13. O Fábio Gurgel é seu “braço direito” na estrutura e coordenação da equipe, o que isso representa pra você?

O Fabio representa muito para mim, é um parceiro, amigo, irmão. Sem ele a equipe não seria o que é hoje, ele é fundamental pra nossa equipe ser o sucesso que é.


Jacaré com Fábio Gurgel no pódio do Pan 2011, campeões.

Jacaré com Fábio Gurgel no pódio do Pan 2011, campeões.


14. Para apimentar um pouco, o que você acha dessa guarda 50/50? É um recurso técnico ou de amarração?

Não tem pimenta, acho que a posição é um retrocesso muito grande. A luta fica feia, tem posicões muito melhores de se ver.


15. Hoje em dia muitos atletas praticamente só competem sem quimono. O Paplo Popovitch, por exemplo, é um deles. Você acredita que o aumento de tais competições promoverá um “esquecimento do pano”?

Atleta faixa-preta de jiu-jitsu que só compete sem quimono é difícil de aturar, o quimono é fundamental pro bom atleta se testar e é aonde tudo começou. Sem quimono na minha época era luta livre, respeito, mas pra encerrar acho que se não competir de quimono não considero. E também não acho que façam esquecer as competições de quimono, que são o que tem de melhor no jiu-jitsu atual.


16. Voltando ao MMA, você concorda que o jiu-jitsu já não é a arte mais importante? O atleta precisa conhecer outros recursos, além da “arte suave”?

O jiu-jitsu continua muito importante pro MMA, mas é claro que não podemos entrar na guerra só com um recurso, tem que combinar com as outras artes marciais.


17. Pra fechar… Atualmente, quais os lutadores de jiu-jitsu que mais lhe agradam ver lutar?

Roger, Marcelinho, Cobrinha, Lucas, Langhi, Rodolfo… Têm muita gente boa na parada.


18. Deixe um recado para os leitores praticantes de artes marciais.

Quero agradecer a oportunidade e desejar tudo de bom a todos os leitores, espero que gostem da minha entrevista.