Laranja Mecânica e a Sociedade Contemporânea

Laranja Mecânica e a Sociedade Contemporânea

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Enquanto a maior parte do público do filme Laranja Mecânica se espantou com seus métodos psiquiátricos e com a fabricação de uma espécie de moral artificial, eu, particularmente, estive mais atento na interessante sociedade caracterizada pelo autor Anthony Burgess – e adaptada para o cinema pelo mestre Stanley Kubrick. Era, sem dúvida, um local melancólico e desolador. Reinava o caos social, consagrado por um Estado autoritário.

 

O personagem principal lidera uma gangue de arruaceiros, o que muito pode nos dizer sobre a juventude da sociedade ali descrita. Naquele lugar, a principal diversão dos jovens é praticar delitos em geral (assaltos, estupros, espancamentos), não sem antes ingerirem uma boa dose de moloko. A sociedade de Laranja Mecânica muito se assemelha com a sociedade contemporânea. Um meio composto, em sua maioria, por pessoas excessivamente frágeis e mimadas, “que morrem de medo de ficar entediadas” e que, por isso, são capazes de fazer quase qualquer coisa para fugir do tédio. Seres humanos de alma vazia, que estão sempre correndo atrás de mais e mais “divertimento”. O filósofo francês Blaise Pascal já dizia que o futuro seria dominado por lazer, barulho e juventude (isso tudo no século XVII!). Neste ensaio pretendo tratar das causas escusas de fracassos que assemelham nossa sociedade ocidental cada vez mais aquela tratada em Laranja Mecânica.

 

A estranha forma com que se enxerga o jovem

 

“Das muitas implicações que poderiam ser aqui mencionadas, referirei uma que, julgo, é mais relevante: que a política é uma atividade desadequada para os jovens, não devido aos seus vícios, mas sim devido ao que eu considero serem as suas virtudes. Os tempos de juventude de toda a gente são um sonho, uma loucura deliciosa, um doce solipsismo. Nesse tempo, nada tem uma forma fixa, um preço fixo; tudo é possível e vive-se numa felicidade a crédito”.  
 
Michael Oakeshott, Ser conservador.

 

O primeiro ponto que deve ser tocado é o que tange ao “faniquito da juventude”, cultuado em sua maioria por revolucionários. É aquela velha história de que a juventude deve se envolver cada vez mais na problemática social e política. Devo dizer, sem dúvidas, que se trata de uma grande ingenuidade. Os jovens (com exceção dos ditos “jovens de alma velha”), geralmente, são pessoas com pouca experiência de vida e pouco conhecimento prático do mundo. Soma-se a isso o fato de estarem ainda em vias de formação intelectual e moral. A juventude é uma fase confusa, de inúmeras frustações, conquistas, conciliações, fracassos e recomeços. São incompreensíveis as afirmações de que pessoas que estão passando por essa fase são as mais aptas a prática política. Aos jovens faltam básicas virtudes necessárias a um bom político, como por exemplo, a desconfiança e a prudência. A maior parte das pessoas nesta fase da vida está mais preocupada com o carpe diem do que em deixar um legado às gerações vindouras.

 

No Brasil, nossa juventude não está contente apenas em ter uma opinião política (por mais distorcida que essa esteja atualmente). Por aqui somos adestrados a sonhar com cargos públicos desde o ensino médio. Cria-se “trabalhadores” para o funcionalismo público e só. Uma nação em que parte da população apta ao trabalho sonha em entrar para o ramo das leis e regulamentações inúteis ao invés de se dedicar a algum trabalho realmente produtivo obviamente fracassará.

 

O modelo político ideal (por isso, longe da realidade tupiniquim) é o de alguém que já deu a contribuição necessária para o setor privado, alguém que está aposentado e simplesmente quer ajudar a comunidade. Vale lembrar que a palavra “candidato” vem do latim candidātus, “aquele que se veste de branco, aquele que é dotado de pureza”. Essa palavra definitivamente não se refere a um profissional que exerce a atividade política simplesmente para ganhar dinheiro ou obter benefícios, sejam eles quais forem. A palavra refere-se, na verdade, a alguém dotado de espírito comunitário, diferente do histórico modelo de político brasileiro.

 

Em suma, além de projetar prejuízos à sociedade em geral, dar responsabilidades que não pertencem aos jovens é ajudar a criar mais daquele estereótipo de “moleque revolucionário” que deseja “salvar o mundo”, mas que é incapaz de arrumar o próprio quarto. Todo esse ambiente conturbado é letal ao aprendizado que deveria ocorrer durante os anos de mocidade, contribuindo, portanto, para a degeneração moral dos mesmos, uma vez que atrapalha sobremaneira sua formação intelectual.

 

Os jovens de Laranja Mecânica: Vamos votar neles?

Os jovens de Laranja Mecânica: Vamos votar neles?

 

Estatismo

 

“O que quer que seja beneficente e prudente numa democracia moderna é possibilitado por volições cooperativas. Se, portanto, em nome de uma democracia abstrata, as funções da comunidade são transferidas a uma direção política distante – ora, aí o verdadeiro governo pelo consentimento dos governados dá ensejo a um processo padronizante, hostil à liberdade e à dignidade humana”.
 
Russel Kirk

 

Este é sem dúvida um dos maiores males da modernidade. A velha comunidade baseada na cooperação de indivíduos livres está indo por água abaixo quando nota-se que todos os conflitos no mundo de hoje (em nosso país ocorre de maneira especialmente grave), necessariamente, devem ser resolvido pelo e através do Estado. As pessoas tornaram-se tão infantis que não se consideram mais capazes de resolverem seus próprios problemas. O estatismo, mais do que um problema político e econômico, é hoje um problema cultural.

 

Vemos a nossa volta milhares de inovações e feitos gigantescos construídos por empreendedores que usaram de muita força de vontade e perseverança para tê-los, comprovando que a nossa esperança de um futuro melhor deve ser depositada no setor privado e não nas garras de um mecanismo estatal. Mas, ainda assim, a maioria das pessoas continua não vendo estes empreendedores com bons olhos. Preferem o olhar da inveja. Percebem a riqueza de outrem como um fato negativo, como se aquilo fosse um mal para a coletividade. Enquanto isso, do outro lado, temos um Estado composto por burocratas que, na maioria das vezes, nada fazem além de criar empecilhos para a livre iniciativa. E o que as pessoas dão a estes? Tudo. A população subverteu-se em um imenso culto ao “deus laico da modernidade”, mesmo que este jamais atenda a suas preces e só lhes traga incontáveis sofrimentos desnecessários. Não se admira o empreendedor, aquele que nasce de uma relação voluntária. Pelo contrário, pensam que este é digno de repúdio enquanto que ao Estado padronizante e coletivista, dá-se em sobra a idolatria.

 

Em Laranja Mecânica tudo isso é confirmado. O culto desmedido das pessoas ao Estado é um dos principais fatores que levaram a degeneração completa da sociedade ali retratada. Até mesmo a educação de crianças e jovens foi delegada à mão estatal. Alex DeLarge (Malcolm McDowell), o protagonista, deve mais obediência ao seu “conselheiro pós-correcional” PR Deltóide (Aubrey Morris) – que nada mais é do que um agente de um governo distante, um burocrata travestido de educador -, do que aos seus próprios pais. Deve-se notar também que foi o demasiado poder concentrado nas mãos do governo que possibilitou o tal “tratamento Ludovico” (lavagem cerebral que priva as pessoas do livre-arbítrio), que é um dos principais temas éticos abordados na obra de Burgess. “Ele deixa de ser um malfeitor, mas também deixa de ser uma criatura capaz de escolhas morais”, afirmava o capelão que observou de perto o tratamento e viu o quão diferente é a moral “natural” da nociva moral imposta pelo Estado.

 

Perversão e relativização dos valores morais

 

Não é segredo pra ninguém que a moral de uma nação ou sociedade é muito mais importante do que aparenta. A moral e a ética predominante são importantes em diferentes áreas. Por exemplo, na área comercial, atua possibilitando contratos verbais e outras formas menos burocráticas e custosas de contrato. Nossos deveres morais e a forma com que regemos nossa vida não refletem somente em nós mesmos, mas em toda a sociedade.  Atualmente, encontramo-nos no caminho da perversão, bem como a sociedade retratada na obra. Quando o protagonista acorda no hospital após ser retirado do efeito do tratamento Ludovico, ele recepciona uma cena de sexo em público, de um médico e de uma enfermeira, na casa de seus pais. Pode-se notar (no filme) objetos e conteúdo pornográficos espalhados, o que indica a clara banalização do ato sexual, também recorrente em nossa sociedade.

 

O autor, ainda que sem este propósito, nos alerta para os perigos de se descaracterizar e vulgarizar a cultura ocidental, uma vez que valores como liberdade e igualdade perante a lei (bem como outros tantos) são oriundos tradicionalmente da moral e da ética do povo do Ocidente. Ao tentar destruir algum costume tradicional, passa-se, obrigatoriamente, por cima de algo que é permanente e, portanto, não deveria ser substituído, tem-se um modelo de sociedade fracassado.

 

“Problemas morais e sociais são, no fundo, problemas religiosos e morais”.
 
Russell Kirk, 1950

 

A vulgarização do sexo em Laranja Mecânica.

A vulgarização do sexo em Laranja Mecânica.

 

O Fim da estética e o pedestal da mediocridade

 

Se tudo é arte então nada é arte. A desconstrução daquilo que historicamente foi considerado belo é outro ponto que a civilização contemporânea tem em comum com aquela que foi retratada em Laranja Mecânica. No filme de Kubrick, quando Alex invade com seus comparsas a casa de uma rica “mulher-gato” e acerta-a com uma estátua de forma fálica (a qual a mulher se refere como valiosa obra de arte), fica evidente o que é valorizado por ali. Por aqui temos aqueles autointitulados “macaquinhos”, com a sua ridícula “forma de arte” de beijar o ânus do colega em fila, sem falar da geração Gregório Duvivier e tantos outros, que recebem dinheiro do pagador de impostos para sustentar seus trabalhos medíocres.

 

A cena com a "obra de arte fálica".

A cena com a “obra de arte fálica”.

 

Os ridículos "macaquinhos".

Os ridículos “macaquinhos”.

 

A revolução cultural que promovem, sob o pretexto de dar voz aos “oprimidos”, impede que se redijam críticas sobre os famigerados “politicamente corretos” (membros dessa geração de revolucionários blasé, que fala sobre tudo sem estudar e adquirir conhecimentos sobre coisa alguma), sob a pena de ser taxado de membro de alguma elite branca ou coisa do gênero. A elite não é branca, é avermelhada: são aqueles que ditam o que deve ou não ser propagado, que se escondem atrás de um grande aparato estatal e usam dos métodos mais escusos para fazer a divulgação de seu pérfido ideal. Se a arte clássica costumava exaltar heróis de guerra e suas virtudes, a tal “arte moderna”, exalta todos os tipos de vícios.

 

Gosto é subjetivo. Cada um tem o seu e o livre mercado busca atender a todos. Todavia, a manipulação que exercem através da chamada “revolução cultural”, bem como os recursos financeiros angariados via arrecadação de impostos, mostra-nos não só que são imorais, mas também, que são pessoas desprovidas de qualquer humanidade.

Pedro Vitor
Conservador de boa estirpe, palmeirense de coração e mineiro por natureza.

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  • João

    otimo!