José Mujica: O óbvio ululante e a verdade sem destaque

José Mujica: O óbvio ululante e a verdade sem destaque

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De repente, sem que meus compromissos de leitura me deixassem perceber, José Mujica passou a ser o político mais amado da Terra. Velhinho, de aparência simples e fala mansa, deve causar nostalgia nos jovens brasileiros que quando crianças curtiam Chaves no SBT: lembra o Jaiminho, o Carteiro.

 

Ora, que não pela simpatia de recordar tão icônico personagem, qual seria o motivo de tanto amor? A agenda política de Pepe Mujica, como o chamam seus novos “fãs”, já conheço há tempos e não me atrai em nada. Julgo que a maioria letrada também já conheça – visto seu histórico de comunista, que continua vivo no perfil atual – e igualmente não se atraia. Mas qual a novidade, então? Do interlocutor, nenhuma. O problema são os ouvintes, que agora o elegem como seu novo modelo de político, a despeito de tudo que vai além de um discurso.

 

É incontornável a associação do repentino amor à Mujica ao desejo que sentem os novos e velhos jovens de encontrar um discurso com cara de “moderno”, que aponte para “algo além” e supostamente atente contra o “status quo” (Jovem não gosta de questionar?). É a famosa atração juvenil por discursos políticos vazios embasados em abstrações supremas – como é o amor (prestem atenção no Eduardo Suplicy e me entendam). Querem novidade sempre, e pensam que Mujica é uma.

 

Em recente Assembleia Geral da ONU em Nova York, José Mujica entoou um discurso que foi considerado épico. Seu alvo na ocasião foi a “malvada” sociedade capitalista, que promoveria uma exaltação do mercado pelo mercado, em detrimento de valores superiores.

 

Em suma, e excluindo vícios de linguagem anticapitalista, Mujica falou meia dúzia de obviedades com bom nível de polidez. Com isso parece ter conseguido fazer todos esquecerem que ele ainda é um defensor histórico dos regimes mais sanguinárias que o mundo já viu (como foi Niemeyer até morrer), bem como de seus “filhos” pobres e igualmente malvados.

 

Ex-guerrilheiro, ainda acredita que o comunismo era algo bom, mas como faz quase voto de pobreza, vive de modo simples no campo e discursa bonito, é gente boníssima na boca de toda imprensa e principalmente dos jovens brasileiros. A verdade é que como integrante ativo do Foro de São Paulo, organização simpatizante das FARC – pra não me estender em críticas –, não deveria ter credibilidade nenhuma. Mas tem.

 

Pepe Mujica em sua fazenda nas cercanias de Montevidéu.

Pepe Mujica em sua fazenda nas cercanias de Montevidéu.

 

Me pergunto: Qualquer padre sério e verdadeiro não deveria ter igual lisonja, se o assunto é simplicidade e pobreza? Papa Francisco mesmo, é igualmente anti-guerra e humilde.

 

Aliás, sobre ser anti-guerra, até os americanos são, caramba, isso é o óbvio dos óbvios. Quem quer se matar por nada? A grande maioria das guerras que o mundo conheceu foram muito bem motivadas. A questão não considerada pelos anti-guerra primordiais é que elas muitas vezes se fazem necessárias, quando senhores como Stalin, Hitler ou Mao, com discursos aparentemente de “paz e amor”, como o do Mujica, matam e oprimem indiscriminadamente.

 

Portanto, adular Mujica por tal posicionamento – facílimo quando você realmente não pode com ninguém – é mais vazio que falar que o mundo precisa de mais amor.

 

E nessa história existe uma interessante verdade que salta dos fatos, mas não ganha destaque. José Mujica aparece agora em blogs e jornais como um político com um perfil novo, bom, ele está presidindo o Uruguai e mantendo as estranhíssimas alianças ideológicas que movem – ou melhor, não movem – a América Latina de hoje. Sob uma análise econômica, seu pensamento é atrasado, como é o do nosso governo. Não à toa são parceiros. Nem os socialistas enquadrados no que chamamos de “new left” (esquerda europeia, copiada aqui pelo PSDB) embarcam nesses pensamentos radiciais de supra fortalecimento do estado. Vejam como foi a liberação da maconha no Uruguai, totalmente regulada e controlada pelo Estado, que será o único vendedor, o que nos leva a imaginar a inevitável formulação de interesses do governo em obter rendimentos através do vício da população. Por esse lado ele é o contrário do que seria considerado moderno.

 

Mas os jovens que o amam não o fazem de graça, eles têm motivos inconscientes para isso: pelo lado da política social, enxergam nele uma velha novidade. Herdeiros da cultura “libera geral” propagada nos anos 60, são jovens que amam o marxismo de Mujica sem saber o que representa, sem tê-lo estudado a fundo. Por esse lado que também não considero moderno, amam José “Jaiminho, o Carteiro” Mujica como novo messias de um igualitarismo miserável. É o entendimento senso comum, e portanto raso, das ideias de Marx e do socialismo em geral fazendo novas vítimas.

 

Até a banda norte-americana Aerosmith considera José Mujica "um exemplo a seguir". | Créditos: Presidência do Uruguai/Reuters.

Até a banda norte-americana Aerosmith o considera “um exemplo a seguir”. | Créditos: Presidência do Uruguai/Reuters.

 

Além de Steven Tyler, cientistas políticos também tem dito que José Mujica tem ensinado muito nessa trajetória como presidente do Uruguai, dando exemplo de como os políticos devem ser. Para mim, ele ensina apenas qual o discurso certo para se isentar de toda crítica séria. Bom, pelo menos aqui embaixo da Linha do Equador.

Fernando Henriques
Idealizador e editor desta revista, Fernando Henriques é um consumista informacional. Formado bacharel em Ciências da Computação, encontra na Comunicação um elo natural. Viciado em séries, filmes, rock, MMA, política e desafios.

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  • Adriano

    Eu li o discurso traduzido em outro site, e confesso que essa utopia de igualdade seria algo inalcançável, visto o quão profundo as garras do nosso modo de vida estão fincadas na sociedade e estamos fadados a lutar cada vez mais por um espaço nela — enquanto existirem recursos para tal.

    Eu não vejo o que ele falou como tão óbvio assim para o mundo. Fosse assim, as coisas não seriam (tanto) como são. Talvez seja óbvio para quem lê e acompanha notícias, ou quem tem um senso crítico mais apurado de um modo geral, mas — em uma escala global — estes são uma minoria. Adicionalmente, a porcentagem de pessoas que vão ver/ler este discurso vai ser ínfima em relação à quantidade que seria necessária para que a leitura do discurso causasse realmente algum impacto e fizesse a diferença. Isso só considerando a ciência do conteúdo, sem levar em consideração uma tomada de atitude perante o exposto.

    Do discurso, creio que o estilo de vida que levamos foi moldado durante todo um século, para chegar ao patamar que encontra-se hoje. O consumismo é uma sólida realidade, a cada ano fortalecida, e não acho difícil o ser humano viver, um dia, em um cenário caótico onde poucos prosperam, que nem vemos nos filmes.

    Acho errado atrelar o discurso às atitudes, sejam atuais ou passadas. Todos temos uma opinião de como gostaríamos que as coisas fossem, mas algumas coisas só ficam como pensamento, porque estão fora de nossa esfera de atuação, ou então porque tem muitas outras coisas atreladas que nos impedem uma ação. Utopias só saem desta categoria se todos — e eu quero dizer TODOS —
    tenham um comprometimento para com aquele objetivo. O discurso dele é
    muito bonito, mas nunca vai acontecer. Não somos (tão) robôs.

    Por exemplo, todo mundo gostaria um planeta — ou até menos, o seu município, somente — mais limpo, mas só o fato de viver a vida (trabalhar, comprar coisas e gerar lixo, por exemplo), já contribui para deixá-lo mais sujo, porque envolve coisas que estão fora do círculo de ação do cidadão. Porque a pessoa não vai trabalhar exigindo que a empresa “não desperdice papel porque senão ele vai deixar de produzir para aquela empresa”, por exemplo. Ele pode deixar de desperdiçar, mas é um percentual baixo, só o 100% garantiria realmente. Ou, mais provável, a empresa simplesmente o dispensaria e contrataria outro cara. Ou a empresa geraria um documento para outra empresa, que o jogaria fora, desvirtuando a intenção de preservação. Enfim…

    O que ele propõe é uma mudança menos de pensamentos, mais de ações. Não é de se concordar que não existem mais virtudes na sociedade? Que “a gentileza é a exceção”? Eu acredito que sim. O discurso é válido, se for para um mundo melhor. E eu posso fazer um discurso semelhante numa mesa de bar para meus amigos. O meu chefe, talvez no auditório da empresa, para todos os empregados. Ele, como governante de Estado, pôde fazer na assembleia das Nações Unidas, para o mundo inteiro, podendo atingir mais pessoas, desta forma.

    Poderia ser ele, o Hitler, Alexandre (o Grande), Genghis Khan ou quem fosse. Remova o autor e a hipocrisia some, e aí extraímos o que há de bom nas palavras ditas, sem preconceitos e sem julgamentos.

    Afinal de contas, nós podemos mudar a maneira que pensamos ao longo da vida.

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      “Não é de se concordar que não existem mais virtudes na sociedade?” Não, não é. Vejo muitas virtudes, em muitas pessoas, mas no caso do Mujica, sem tecer julgamento pessoal, basta conhecer sua trajetória política para entender o discurso dele como óbvio. Da parte dele, é mais que óbvio. Por isso o ululante no título.

      O discurso anti-futilidade e anti-consumismo é interessante, necessário talvez, para amenizar o inconsciente coletivo bombardeado por propagandas ao estilo “compre, compre”, mas vindo dele, um marxista, é uma fala cheia vícios e absurdidades contra o capitalismo, entendendo todo mal do mundo como oriundo do capitalismo/liberalismo. Sabemos que isso não é verdade e as coisas não são bem assim.

      Entendo sua visão e compreensão mais esperançosa das coisas, mas tenho um olhar mais cético e teoricamente pessimista. As coisas não estão assim por nada e não ficaram ruins de um século para cá – talvez tenham ficado melhores -, a humanidade tende ao erro, a miséria é o estado natural do homem. Tudo que vier além disso é lucro.

  • Marcos Alan

    Essa matéria conseguiu expressar o que eu sinto toda vez que vejo o rosto desse “bom velhinho”, apenas uma máscara que esconde um lobo totalitarista que decidiu controlar seu povo através de um vício e palavras bonitas porém rasas.

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      Fico feliz em saber que mais pessoas partilham da mesma percepção, Marcos. Foi gratificante ler este seu comentário.

  • Honos Alit

    Conheço pessoas que visitaram o Uruguay. Outras que trabalharam durante alguns anos lá. E isso recentemente, neste mesmo governo Mujica. E eles não tiveram uma boa impressão de lá não! Disseram pra mim que há gente fumando maconha em todo lugar e que o que, o “globo repórter” diz é somente parte da verdade. E olha que essas pessoas que cito não tem uma instrução política profunda! Apenas pessoas comuns que como Brasileiros não gostaram da experiência de terem conhecido o Uruguay, a não ser pela paisagem maravilhosa. E disseram que as praias são uma bosta!!